Ano 3 - nº 34 
23 de outubro a 20 de novembro/01 
  
Música instrumental feita "em família"

por Laura Campanér
lauracampaner@borage.com.br

É provável que apenas o segmento da música instrumental, dentro do vasto panorama de gêneros que a música brasileira produz atualmente, possa estar realizando no momento uma verdadeira evolução musical. É pela coragem e pelas mãos desses músicos-compositores, que a música instrumental vem desenvolvendo uma total independência das chamadas exigências de mercado e tão somente um compromisso com a Deusa Musa. Por isso temos visto trabalhos tão pertinentes como os de Itiberê Zwarg e sua Orquestra.

Itiberê Orquestra Família

Singular e Plural são duas boas palavras para definir o CD duplo "Pedra do Espia" da Itiberê Orquestra Família, de Itiberê Zwarg, lançado pela Jam Music. Singular por se tratar de um projeto inusitado, bastante ousado e provavelmente realizado com muita dedicação por parte de seus integrantes. E plural pela diversidade musical por onde caminha o inspirado trabalho, abrindo novos horizontes tanto para os jovens instrumentistas que integram o grupo, quanto os que sonham um dia poder estar lá.

O trabalho é resultado de um ano e meio de convivência, que começou com o propósito de estudo, através de um curso musical ministrado por Itiberê, e se transformou numa competente orquestra, bastante diferente da convencional, tanto no agrupamento dos instrumentos (piano, violão, bandolim, flautas, clarineta, trumpete, sax, violino, violoncelo, baixo, cavaquinho, escaleta, bateria, guitarra e percussão), quanto do desprendimento de partituras e da batuta.

Para quem não conhece Itiberê Zwarg, desde 1977 ele integra a banda de Hermeto Pascoal atuando como baixista. Hoje, como compositor, arranjador e líder da Itiberê Orquestra Família, se considera "filho musical" de Hermeto e por extensão, os músicos de sua orquesta, "netos" do Mestre Hermeto.

A partir dessa auto-referência, não poderíamos imaginar outra linha composicional para a obra de Itiberê, recheada de temas modais, de ritmos quebrados e diversas seções de improvisos.

O CD1 é, vamos dizer assim, mais "invocado". Tem como destaque a música "Bota Pra Quebrar": um maracatu-jazz que realmente bota pra quebrar em seu compasso composto, movido por pequenas células rítmico-melódicas que percorrem todo o tema.

Já a música "Curupira", parece descrever todo o universo do curupira. Em sua primeira parte escrita para cordas, faz lembrar o som misterioso da mata. Outro dois belos temas, mais lentos, são "De Coração Aberto" e "Arco-Iris de Som".

No CD2, onde foi gravada a única música que não é de Itiberê, o tema "17 de Janeiro", de Hermeto Pascoal, o destaque fica mesmo por conta de "Vale de Luz", peça composta clarinete e para piano, interpretada com excelência por Joana de Castro no clarinete e Vitor Gonçalves ao piano. Outro tema de profunda beleza é "Hora da Prece", para flauta transversal e piano, tocada com magnitude por Maria Carolina na flauta e João Bittencourt ao piano.

Os dois discos têm faixas longas, com duração entre 6 a 10 minutos cada uma, o que nos esclarece o porquê do CD duplo. Bastante densos, os discos exigem do ouvinte uma pré-disposição para mergulhar em profundidade no universo dos arranjos e timbres da Orquestra.

Ao final, fica a forte impressão de que precisamos ouvir mais e com maior atenção a obra de Itiberê Zwarg, que se revela um compositor de grande envergadura.

Serviços:
Pedra do Espia
Itiberê Orquestra Família
Jam Music
www.jammusic.com.br

CAPA BORAGE