Hefner: ironia e romantismo
Pode-se dizer que eles são mais uma banda britânica adepta do novo lirismo de Belle & Sebastian, mas eles têm uma coisa a mais: a ironia. We Love the City é o quarto álbum do Hefner, quarteto formado em Kent, Inglaterra, que conta com Darren Hayman (vocal, guitarra, piano e composições), Antony Harding (bateria), John Morrison (baixo) e Jack Hayter (pedal steel, violino e outros instrumentos).
O disco é repleto de canções de amor e letras influenciadas por Morrissey (Smiths) que cantam o cotidiano. Provavelmente esse é o ponto forte da banda: as letras de Hayman.
Na primeira música, "We Love the City", título que dá nome ao álbum, é possível encontrar a tal ironia já na primeira frase: "This is London, not Antartica, so why don't the tubes run all night?", pergunta que eu mesma já me fiz nas minhas andanças por lá. A cidade em questão é Londres, mas pode ser interpretada como qualquer cidade grande e moderna atual. É como um desabafo sobre a hipocrisia e o individualismo que marcam as relações nessas grandes cidades onde impera o anonimato.
O romantismo aparece em músicas que falam de sexo como em "The Greedy Ugly People" ("love don't stop no wars, don't stop no cancer, it stops my heart"), de desilusão como em "Good Fruit" e "Painting and Kissing", que lembra muito Velvet Underground, ou de amor puro e simples como em "Hold Me Closer", "Don't Go" e "As Soon as You're Ready". Isso sempre em melodias estusiasmadas e cantadas com forte sotaque inglês na voz anasalada de Hayman.
"The Greater London Radio", música que particularmente lembra um pouco de Beatles, mais uma vez fala de relações urbanas. E no romantismo o disco segue com histórias de amor em "She Can't Sleep No More" e "The Cure for Evil".
A ironia volta com grande sarcasmo na música que abre espaço pra falar de política. "The Day That Thatcher Dies" tem um refrão de crianças cantando "Ding dong, the witch is dead...", mostrando a antipatia não disfarçada dos jovens ingleses dos anos 80 por Margaret Thatcher.
"Your Head to Your Toes" fecha o disco somente com piano e Hayman fazendo uma singela declaração de amor que diz que não tem nada a oferecer a não ser um pequeno e egoísta coração que ainda assim pode amar.
Há uma grande possibilidade que We Love the City faça você sair cantarolando por aí e se sentindo como um jovem bobo e apaixonado. E isso não é bom?
Yes, nós temos drum'n bass!
São dois trabalhos que vieram pra confirmar que a cena da música eletrônica brasileira está mais forte do que nunca. Particularmente o drum'n bass, movimento que surgiu de influências do hip hop, ska, house, hardcore e que teve início no Brasil nos anos 90. No meio de tanta coisa comercial e mal trabalhada rolando por aqui, virou uma das alternativas para os seres pensantes.
O Discurso
O primeiro trabalho é o single Mr. Pharmacist, de O Discurso, projeto liderado pelo produtor e músico Bruno E. Traz três versões remixadas do clássico dos anos 80 de mesmo nome, da banda britânica The Fall. A primeira versão mantém o toque de rock. As outras duas são remixes do Cosmonautics. Uma com misturas de jazz e samba, incluída na coletânea do Sambaloco, outra de ritmo mais alucinante. Cada uma com um estilo diferente e todas desconcertantes.
Sambaloco Espiritual Drum'n Bass - Vol.1
O segundo trabalho, é a coletânea Sambaloco Espiritual Drum'n Bass - Vol.1, também desenvolvida por Bruno E., que conta com os maiores nomes do drum'n bass brasileiro divididos em dois cds, ou Rituais.
O Ritual 1 é mais leve e relaxante, como que para descanso e preparo da alma para o ritual seguinte. Entre os destaques há DJ Marky, garoto da Penha que virou "rei" das noites londrinas, com "Tudo", uma batida jazzy com direito até à guitarra, e "Conversa de Família" de Presepeus e Fábio V., misturada com violino, mostrando que tem espaço até pra música clássica no mundo do drum'n bass. Cito duas mas deixo claro que o disco todo vale mais que a pena ser escutado.Talvez "descoberto" seja a melhor palavra.
Aí chega o Ritual 2, empolgante e chamando para a pista. Além de uma das versões de "Mr. Pharmacist", O Discurso marca presença também com "Os Sertões", de ritmo brasileiro, ritmo este também presente com o maracatu em "Quatro Nuvens", do Loop B. E se você não estiver dançando vai começar quando chegar na batida forte de "Um trampo" do DJ Koloral. Assim vai até cansar, quando é só apelar pro Ritual 1 e começar tudo de novo. É isso: nós também temos drum'n bass! E dos bons.