O CD demo de Fábio Freire só poderia se chamar "Palavra Vista". Nesse disco o cantor e compositor reuniu as músicas "Conversa", "Literações no 1" e " Palavra Vista". É um CD autoral de 11 faixas, onde as palavras são bem trabalhadas.
Característica bem evidente na música "Olho", o compositor faz um jogo com a palavra olho, utilizando de alguns recursos que o vocabulário permite. "Gato que lê a sorte / cego que canta o que vê / tem olho que enxerga / tem olho que não / tem olho que enxerga e pensa que vê".
Um outro exemplo está na canção "Assimétrica" onde o compositor além de experimentar as palavras, testa outros ritmos na mesma música. No ínicio temos a impressão que será uma balada romântica com violão, mas logo depois o cantor, literalmente, pede permissão para experimentar e troca o violão pela percussão, explicando nos versos da música: "faço o tempo acelerar assimétrico".
Na primeira faixa "Arte Capenga", a voz de Fábio Freire lembra os timbres do cantor Oswaldo Montenegro, mas as semelhanças vão se perdendo na batida do pandeiro, que faz uma embolada para sustentar a letra. Nas faixas seguintes já reconhecemos e nos familiarizamos com o novo cantor.
Na música "Palavra Vista", Fábio Freire utiliza dois minutos para se auto-definir e expor, em forma declamada, tudo o que deseja da arte de cantar e compor.
Apesar de ocupar a nona posição entre as faixas do disco, esta seria uma boa canção para abrir o CD, como uma forma de preparação do ouvinte e do que viria a seguir. A música "Palavra Vista" além de dar nome ao trabalho, sintetiza o pensamento do autor:
"Quero comer a palavra vista / quero ter a visão / em toda sua forma e consciência / quero ser a sombra / quero fazer da mão os olhos / levitar o próprio chão / soltar ainda mais o liberto / remastigar o pão / quero toda a essência / no fundo do fundo o exagero o não mundo / quero ver as ruas com os lábios / andar sem sapatos / falar sem a fala / quero a transcendencia / a ultrapassagem / quero enxergar a música e sua vaga ilusão real / abstrair o som / cair, cair num poço sem fim / quero beber todas as águas das luzes dos pontos e vírgulas / quero saber / quero realmente a totalidade / a forma completa usada pura".
No CD "Palavra Vista" as palavras são mais fortes que o som. Nele Fábio Freire experimenta diferentes formas de compor, mas por vezes notamos repetições excessivas nos efeitos de guitarra. De qualquer forma o trabalho prova mais uma vez aos grandes intepretes, que a todo momento estão surgindo novos compositores. É só ficar com os ouvidos bem atentos.
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