Ano 3 - nº 35 
22 de dezembro/01 a 20 de janeiro/02 
  
A excelente produção de música instrumental brasileira em 2001

por Laura Campanér
borage@uol.com.br

A excelente produção de música instrumental brasileira de 2001, impulsionada pelas gravadoras paulistas Núcleo Contemporâneo e Azul Music, pelo selo Maritaca (distribuído agora pelo Núclo Contemporâneo) e pela iniciativa de músicos que gravaram CDs independentes, só tem elogios a receber. Muitos compositores e interpretes se lançaram no registro de suas atuações e o resultado foi um belo "buquê" de CDs "botões" musicais.

Muitos foram os discos comentados pela Revista Borage - que podem ser visitados no arquivo de nossas edições anteriores - e não podemos deixar de citar aqui: Itiberê Orquestra Família, Antonio Adolfo, Marco Pereira e Hamilton de Holanda, Curupira, Teco Cardoso & Ulisses Rocha, Ivan Vilela e Eduardo Agni, entre tantos outros. Os lançamentos mais recentes estão nesta edição:

O "Piano à Brasileira" de Silvia Goes

O piano brasileiríssimo de Silvia Goes, traz o foco para este instrumento de poucos, mostrando suas composições, num trabalho do mais alto nível. A música que abre o CD, Tico-Tico no Fubá (Zequinha de Abreu), única que não leva sua marca, é uma espécie de recriação, onde Silvia confirma tudo o que ouvimos a seguir. Um disco precioso, onde a pianista mostra seus temas de inspiradas melodias, como o baião "Hello Heloisa", que conta com a participação da flautista Léa Freire e do contrabaixista Arismar do Espírito Santo, combina brasilidade e beleza.

O repertório de suas composições, que passeiam pela canção, choro e baião entre outros, de harmonias recheadas e varíações rítimicas, tanto de andamento quanto de gênero musical, como samba "Cachorada", nos delicia com a execução brilhante de Silva Goes, mostrando sua maturidade como interprete e compositora.

Destaque para o choro "Preguiça Medonha (menino, sai da rede!)", que bem de acordo com seu sugestido nome, exige da pianista uma apurada técnica e swing, parece sacodir a preguiça.

Disco para ser ouvido muitas e muitas vezes, o CD "Piano à Brasileira" é daqueles onde se saboreia cada passagem, cada clima musical e não pode faltar na coleção de quem aprecia música instrumental.

Serviços:
Piano à Brasileira
Silvia Goes
Selo Maritaca / Núcleo Contemporâneo
www.nucleo.art.br

 

"No Tom da História" - A Música de Antônio Carlos Jobim - de Tibô Delor

A obra de Tom Jobim é tão bela que mecere sempre e cada vez mais, gravações que nos possibilitem ouvi-la. É o propõe o disco "No Tom da História", do quarteto, encabeçado pelo contrabaixista Tibô Delor, que conta com Lea Freire (flautas), Tiago Costa (Piano Acustico e elétrico), Edu Ribeiro (bateria), e com a participação especial de Paulo Jobim ao violão.

Tibô Delor, contrabaixista francês que já foi integrante da L'Orchestre de Contrebasses, grupo parisiense composto por seis contrabaixos, presta sua homenagem a um dos maiores compositores brasileiros, no CD que tem como sub-título "A Música de Antônio Carlos Jobim".

Disco de rico conteúdo em arranjos, com tratamento erudito, traz temas como "Boto" e "Correnteza", onde por vezes flauta e piano se revezam em solos, abre o leque de instrumentos solistas com Tibô Delor no contrabaixo acústico de 5 cordas, na música "Amparo", que tem como introdução uma valsa de Chopin.

Com sutileza os temas vão sendo apresentados numa prazeirosa audição. "Desafinado", "Sabiá" e "Falando de Amor", são algumas das músicas tocadas com magnetísmo pelos intérpretes do quarteto. Destaque para a valsa "Luíza", que traz Tibô Delor ao solo de contrabaixo, em seu melhor estilo.

O quarteto Tibô Delor, mostra que Tom Jobim deu o "Tom da História" da música brasileira, tanto da música cantada quanto na música instrumental, pois está para além do estreito limite entre o popular e o erudito.

Serviço:
No Tom da História - A Música de Antônio Carlos Jobim
Tibô Delor
Selo Maritaca / Núcleo Contemporâneo
www.nucleo.art.br

 

"Swing Era" - Traditional Jazz Band Brasil

O CD duplo "Swing Era" da Traditional Jazz Band Brasil (www.jazzband.com.br), produzido e lançado pelos integrantes da banda, dentro de um projeto maior, que propõe a pesquisa de um repertório e um resgate de estilos e épocas, traz um panorama do jazz na era do swing, década de 40, mesclando sucessos e outras músicas menos conhecidas.

O CD1, que traz entre outras as músicas "Don´t Be That Way" (Benny Goodman/Edgar Sampson/Michell Parish), e "Moonglow" (Will Hudson/Eddie De Lange), que foi tema do filme "Férias de Amor", tem como destaque "In The Mood" (Jeo Garlan/Andy Razaf), vertida para o português por Aloízio e seus Bando Da Lua, com o divertido título "Edumundo".

O CD2 abre com "Undecide" (Charlie Shavers/S. Robim), tema constante no repertório da Traditional Jazz Band, e segue com "Out Of Nowhere", standard gravado 24 vezes por Charlie Parker e "Chattanooga Choo Choo", que foi sucesso na orquestra de Glenn Miller. "Swing Era" é um disco que prova a existência de um espaço para o jazz tradicional dentro do cenário da música brasileira.

Serviço:
Swing Era
Traditional Jazz Band Brasil
Independente
Contatos: (11) 30 34 59 92
(www.jazzband.com.br)

 

Alberto Marsicano em "Quintessência"

Talvez alguns jovens aspirantes a instrumentistas ou apreciadores da música instrumental ainda não conheçam o trabalho de Alberto Marsicano, este músico que introduziu o sítar ou a cítara no Brasil.

Uma boa oportunidade para conhecer o trabalho deste mestre é seu mais recente CD "Quintessência", que traz a interpretação de cinco peças musicais na cítara, acompanhado de Caíto Marcondes na percussão, numa representação dos cinco elementos: Terra, Água, Fogo, Ar e Éter.

Discípulo de Ravi Shankar e Krishna Chakravarty nos anos 70, Marsicano mostra seu domínio sobre a música indiana, sua maneira de ser interpretada e sua história, como por exemplo, a de que os músicos indianos, detentores de um conhecimento antigo das escalas musicais e suas associações com os elementos da natureza, podiam fazer chover ou incendiar suas próprias roupas.

Em "Quintessência", Marsicano dispõe os temas de acordo com o processo alquímico, que passa do elemento mais pesado (Terra), até o elemento mais leve (Éter), a quintessência. No encarte estão algumas informações sobre a qualidade de cada elemento e parábolas da cultura indiana.

O emprego de escalas modais, os ritmos com longos intervalos de retomada e contemplação dos próprios elementos da natureza como imagens de inspiração para execução das peças, são algumas das características desta música que tanto intriga os ocidentais.

"Quintessênica" é um trabalho para ser apreciado tanto musicalmente, pelo conteúdo que encerra, quanto esotericamente, pelo mesmo motivo.

Serviço:
Quintessência
Alberto Marsicano
Azul Music
www.azulmusic.com.br

CAPA BORAGE