Embarcar no trem de Prata com destino ao Rio de Janeiro é algo que desperta várias emoções, que vão desde um romantismo nostálgico à uma sensação de aventura que mistura prazer e surpresa.
Há muito que "alguns" Mutantes não fazem contatos, sabe-se lá por quê, ou será importante ter um porquê?
Como diz Rita Lee: "como um mutante, no fundo sempre sozinho", esses seres não tem estação fixa ou nebulosa estabelecida. Eles gravitam soltos no universo, movidos por lentes cósmicas ou sentados em seus jardins elétricos, esperando nunca chegar o "último dia do resto das suas vidas".
Viagens a parte, ou chegando a uma estação - da Luz - fiquei numa tremenda expectativa quando caiu em minhas mãos o CD "Estação da Luz", de ninguém menos que Serginho (desculpe a intimidade ) Dias Baptista, o pai da criança, guitar hero do rock nacional dos anos 70.
Como um turbilhão, que me jogou no túnel do tempo, vi virtual ou não, aquele imenso P.A. no palco do teatro TUCA em Sampa (antes do incêndio), a descomunal batera do Rui Motta com seus surdos de tambor de óleo e o desenho mais "mutante" que já vi depois da capa do álbum Jardim Elétrico: aqueles discos voadores saindo detrás das montanhas pintados nos bumbos da batera, mais ainda o burburinho e as meninas fedendo elegantemente a patchouli, com suas batas Hare Krishna. Eis que surge os primeiros acordes de "Anjos do Sul". Loucura geral.
Mas vamos acordar e em pleno ano 2002. Posso brindar esse petardo, com todo respeito, magistralmente tendo de volta uma das guitarras mais interessantes e saudosas das terras tupiniquins.
Bem vamos ao banquete das faixas, mas cuidado garoto para não cair do boogie:
- "Filhos do Silêncio" - pegada clássica da última fase da banda com um magistral solo e uma base vibrato deliciosa.
- "Escravos da Revolução", onde Serginho mostra porque por muito tempo foi a guitarra principal do finado rock nacional.
- "São Paulo" - justa homenagem de um legítimo paulistano, "meu!"
- "Araras" - aula de guitarra sob influência mediúnica de Hendrix.
- "La Femme Lourdina" - qual o nome daquele trio tropicalista?
- "Anjos do Sul" - sensível releitura, bela como a primeira versão.
- "Bom Dia Pó" - bela letra, mas ainda soa um pouco estranha.
- "Tower of Cristal" - balada que mostra um amadurecimento como cantor, lembra muito Beatles, ou será uma introdução para a música seguinte?
- "4ever" - é puro Mutantes, pena que não tem aquele Hammond valvulado que o Arnaldo era mestre em costurar.
- "Le Mystére" - balada que mostra que quem é bom não precisa de modismos , puro anos 70.
- "Everywhere I Go" - bluseiros ouçam, misturem e tomem, mas lembrem que a alma é tudo.
- "Sleep Walk" - poesia sonora e sentimento.
Obrigado Serginho por reaparecer e nos brindar com o autentico rock nacional e quem sabe sua volta fará mais gente voltar, saudades!