Ano 4 - nº 37 
23 de abril a 15 de maio/02 
  
A música instrumental abraça a música eletrônica

por Laura Campanér
laura.campaner@bol.com.br

"Brasilidade": BossaCucaNova & Roberto Menescal

Parece que a música instrumental brasileira resolveu entrar de cabeça no mundo eletrônico dos beats, dos loops e samples. É mais ou menos é por aí que caminha o texto de apresentação do CD "Brasilidade", assinado por Roberto Menescal, que integra a "banda" BossaCucaNova.

A proposta do disco é juntar o som tradicional e característico da Bossa Nova, com sua harmonia recheada de sétimas, nonas e melodias elaboradas, aos timbres que nos levam à atmosfera das máquinas. E o cruzamento das idéias acabou num híbrido sonoro que já é uma tendência mundial.

Os desconfiados de um feliz resultado dessa "pororoca" vão ter que rever seus conceitos. Aliás o próprio Menescal confessa ter por um momento duvidado: "Bossa Nova com DJ?", teria a ele perguntado um amante radical da Bossa Nova, com a desconfiança nas entrelinhas ... isso não vai dar certo. Desconfiança a que Menescal não deu muita importância. E tocou em frente seu projeto. Projeto que dividiu com seu filho Márcio Menescal no baixo e programações, Alexandre Moreira nos teclados e programações e Marcelinho DaLua, também na programação e scratch.

Samples à parte (como a voz de Vinícius de Moraes na faixa "Brasilidade", retirada da música "Carta ao Tom", de Vinícius), para dar peso mesmo ao projeto de aventar algo tão cristalizado como o estilo Bossa Nova, só mesmo Menescal. Ele que participou do movimento original da Bossa Nova, agora encabeça uma releitura do gênero que até hoje reverbera no meio musical.

Participam do CD Ed Motta, na música "Garota de Ipanema" (Jobim/Vinícius) e Cris Delanno em "Nós e o Mar" (Menescal/Bôscoli), "Guanabara" (Bossacucanova/Menescal) e "Rio"(Menescal/Bôscoli).

O destaque fica por conta da música "Bye Bye Brasil" (Menescal/Chico Buarque), onde a guitarra de Menescal encontra sua expressão mais fresca e renovada num belo improviso.

Serviço: "Brasilidade"
BossaCucaNova & Roberto Menescal
Cucamonga /Trama
www.trama.com.br

 

O "Jazzis" do pianista Michel Freidenson

No mais recente trabalho do pianista paulistano Michel Freidenson, o CD "Jazzis", está provado que é possível, com bom gosto e competência, misturar a linguagem do jazz com programações eletrônicas.

Acompanhado do baixista Sylvinho Mazzucca e do trumpetista Márcio Montarroyos, Freidenson imprimiu ao seu "jazzis" uma concepção moderna, tendo como "cúmplice" o baterista e produtor Edson X, que programou e sampleou as baterias e loops do disco.

O resultado foi um disco criativo, leve, arejado, daqueles bom de se ouvir do começo ao fim, sem crises. Um jazz com gosto de balada, de funk, de pop. Ritmicamente próximo do que no passado foi chamado de fusion mas que hoje, representado pelo timbre eletrônico da bateria, pode ser chamado de acid jazz, de lounge e trance.

A estrutura tema-improsivo-tema está o tempo todo presente nas composições que Michel Freidenson vai desfilando. O toque limpo e elegante de seu piano, mostra a linguagem do jazz totalmente incorporada em sua interpretação, como na bela música "Soul Lounge".

O estilo be-bop, prova cabal do jazz, dá o ar da graça no tema "Be Pop" e o lado "brazuca" de Freidenson fica por conta do baião "Cosmic Sky", onde a base harmônica faz cama para um tema modal aparentemente simples, mas que abre um leque interessante de escalas para o improviso.

O CD fecha com um remix drun'n'bass da faixa bonus "Zonazul", que Mad Zoo (Cosmonautics, produtor de música eletrônica) fez especialmente para o disco.

A execução precisa de Freidenson em seu instrumento e a novidade da textura sonora que o disco propõe, faz do álbum um item importante para a coleção tanto dos pianistas aspirantes, como referência, quanto dos apreciadores do jazz em geral.

Serviço:
Jazzis
Michel Freidenson
Azul Music
www.azulmusic.com.br

CAPA BORAGE