O primeiro trabalho das cantoras e compositoras cariocas Betti e Luli é um presente para quem procura uma música inspirada e envolvente para ouvir.
Gravado apenas com vozes, viola de 10 cordas, violão e percussão, "Todo Céu Pra Voar" une a riqueza poética de Luli com as melodias "encantadas" por Betti, diga-se de passagem uma excelente instrumentista, sintetizando simplicidade, pureza sonora e beleza cristalina.
O disco abre com uma parceria de Alzira Espíndola e Itamar Assumpção na música "Transpiração", que fala exatamente sobre a tal inspiração: "a inspiração vem de onde? / Das entrelinhas de um livro / da morte de um ser vivo / das veias de um coração".
E decola alto, tendo todo céu pra voar em canções como "Colo Bom" (Betti/Luli), classificada por elas como sendo um "xaxacatu". Seria uma mistura de xaxado com maracatu? Não importa. O que conta é o casamento perfeito dessa recente e frutífera parceria entre Betti e Luli, que nos brinda com a uma música que diz: "mãe montanha e pai chão / colo de gigante é colo bom / feliz de quem lavra na terra a palavra / nó, pó, sentimento / feliz de quem sabe fazer do pequeno / o grande momento". E elas sabem fazer desse novo disco um grande momento para guinar suas carreiras.
O trabalho mantém as diretrizes já traçadas por Luli, nas músicas que a fizeram conhecida na década de 80, ao lado da cantora e compositora Lucina, quando formavam a dupla Luli e Lucina. Porém aqui toma nova forma, nas nuanças da personalidade musical de Betti, que tem melodias e harmonias muito próprias e domina a viola de 10 cordas, com bastante desenvoltura. Ao mesmo tempo Luli revela nesta nova fase uma poesia madura, moldando as palavras com maestria.
Em "Chuva Danada" (Betti/Luli), é rima e síntese de idéias: "cor de cobre o céu, ecoa trovão / aperta o peito, gela a mão, desperta a voz / esclarece opinião / coração casca de noz". Em "Mana", onde Luli também assina a música, é doçura e acalanto: " Mana que emana / o melhor da essência humana / ilumina e no calor da chama / tudo se abranda, tudo se encanta / tudo se apronta, tudo se planta / tudo se alegra, tudo se enlaça / tudo se entrega, tudo se irmana / mana que emana, mana...".
"Todo Céu Pra Voar" tem um pouco de tudo. Tem um alerta para preservação das matas brasileiras em "Não Mate a Mata", tema desenvolvido em criação coletiva para o projeto "Árvore Nativa", com integrantes da Associação de Moradores de Petrópolis, que teve a direção musical de Luli. Tem a cantiga "Sou Vento" (Betti/Luli), com a batida gostosa da viola de Betti, carregando traços da tradicional música de raiz e a execução precisa da percussionista Flávia Thorga, que ao lado das cantoras forma praticamente um trio, devido sua performance profundamente adequada para a formatação do trabalho. Tem "Todo Céu Pra Voar" (Betti/Luli), samba que além de batizar o trabalho mostra do equilíbrio vocal que as cantoras conseguiram atingir durante o disco, quando revezam solo e contracanto.
Enfim, tem um vôo no universo musical da dupla, como em "No Vôo do Gavião" (Betti/Luli), uma "sinfonia de viola", a mais bela das canções entre as belezas que o disco revela durante sua audição: " passado não, pássaro sim / no vôo do gavião / pisando nas marcas dos pés de Deus / voando acordada nos ermos de mim / amores no tempo são sempre jardim".
Lindo e especial. Não deixe de ouvir!
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"Todo Céu Pra Voar"
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