A estréia do paulista Paulo Henrique, filho de um mineiro e de uma paulista, fez de seu primeiro trabalho em disco um caldeirão das experiências vividas entre o eixo São Paulo-Minas.
Gravado em estúdios de São Paulo e Belo Horizonte, seu disco pôde contar com a participação de músicos dos dois estados, como a voz do mineiro Paulinho Pedra Azul, seu parceiro na música "Eu Canto Pra Viver", que bem ao sabor do destino diz: "mudei pra capital, uma nova maneira de viver, depois nasceu meu filho / por ele estou no caminho / cantando igual passarinho / trazendo no bico o que comer / eu canto é pra viver" e ainda a participação de Toninho Horta e sua guitarra, num arranjo para a faixa "Pensamento Passarinho" (Paulo Henrique/Rui Ponciano/Murilo Antunes/ Paulinho Pedra Azul), que, é claro, tem a marca registrada da sonoridade que consagrou a música mineira no passado.
Da influência paulista Paulo Henrique relacionou o samba bem humorado "Meliante ao Vivo", este de autoria de Rabicho, que carrega muito da crônica urbana que tanto comentou Adoniran Barbosa em suas músicas. O samba conta a história de um sujeito que foi preso for estar caído de fome na rua e teve, mesmo contrariado, sua imagem gravada pela televisão.
Também o choro "Eu Choro Assim", em parceria com Rabicho e com a participação da cantora paulistana Kika Carvalho, é um ponto de referência para sua linguagem composicional que sofre ótimas influências de Chico Buarque e Francis Hime. Dos músicos, a presença paulista fica por conta do baixista Itamar Colaço, do baterista Nenê, do saxofonista Vinícius Dorin e do tecladista Edmundo Cassis, que assina a maior parte dos arranjos do disco.
Apesar do disco abrir com um tema instrumental, batizado de "Os Argonautas", é na faixa seguinte que Paulo Henrique mostra realmente ao que veio. A surpreendente e bela canção "Samba de Uma Nota a Mais", sinaliza tudo o que vem a seguir.
Com letra de Murilo Antunes, conhecido por sua parceira com Flávio Venturini nas músicas "Besa-Me" e "Nascente" (clareia ... manhã ...), a bossa "Samba de Uma Nota a Mais" não poderia ter outra que não a bem bolada melodia de Paulo Henrique, criando um diálogo inteligente com o clássico "Samba de Uma Nota Só" (Tom Jobim/Newton Mendonça), tanto em sua rica harmonia quanto na letra que diz: "vem o sol, vem o mar, vem a melodia / a vida que vem assim é poesia / é sal e alegria, ouso dizer / só um samba de uma nota a mais ... depois de amar você / voltei pra nota só / do, ré, mi, fá, sol, lá / só um samba de uma nota a mais".
Com uma voz grave e ao mesmo tempo leve, lembrando um pouco o timbre de Edu Lobo, Paulo Henrique vai ganhando o ouvinte a cada faixa, com músicas muito bem estruturadas. Na capa, a tela "Na Terra do Canto e do Choro", do pernambucano Nerval Rodrigues, hoje residindo em Mogi das Cruzes-SP, ilustra com elegância o trabalho de Paulo Henrique.
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