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instrumental
“Baden Live A Bruxelles”
Laura Campanér
laura.campaner@bol.com.br

Alguns discos são como vinho. São de safras especiais, têm corpo e vida. Assim é o CD “Baden Live A Bruxelles”. Lançado em 2005, o disco foi gravado ao vivo em Bruxelas (Bélgica), no ano de 1999, num show que Baden realizou um ano antes de sua morte.

O disco nos mostra mais uma vez o violonista magnífico que Baden Powell sempre foi em toda sua vida, tocanto incansavelmente cerca de 1 hora e ½, um apanhado de temas brasileiros do cancioneiro e da Bossa Nova, entre músicas compostas por ele mesmo.

Considerado um dos maiores violonistas de todos os tempos, Baden Powell, com 62 anos na ocasião, nos contempla com um show vigoroso na execução do violão e genial em seus arranjos para o instrumento.

O disco abre com “Vento Vadio” (Baden Powell), tema de melodia misteriosa e dedilhados de alta velocidade da mão direita. Em seguida “Samba do Avião” (Tom Jobim), confirma o estilo inconfundível de Baden Powell tocar, mesclando a melodia principal com a movimentando dos acordes, a todo o momento.

Em “Manhã de Carnaval” (Antônio Maria/Luiz Bonfá), um dos temas mais apreciados pelos violonistas, que Baden toca em forma de prelúdio, traz à tona toda a beleza das canções tristes.

Na releitura de “Samba Triste”, dele e Billy Blanco, uma das mais aplaudidas do show, como se pode ouvir ao final da faixa, Baden chega com novidades no arranjo, para desespero dos violonistas que queiram tentar repetir sua versão, já editada antes em partituras.

Para o tema “Naquele Tempo” de Pixinguinha e e Benedito Lacerda, Baden faz uma introdução que é por si só uma música. O tema flui de tal forma em seus dedos que, só de ouvi-lo tocar, podemos imaginar o movimento de suas mãos, nas nuanças de volume que ele consegue do instrumento.

Em “Garota de Ipanema” (Jobim/Vinícius), ele aproveita para mostrar suas batidas repicadas, e para “Asa Branca” (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira), Baden faz uma introdução com diversas imagens musicais e climas que passam pelo blues, escala japonesa e nordestina! Quando entra de fato no tema de Gonzaga, temos a impressão de um vertiginoso galope que vai desaguar numa docilidade, quando a música é tocada mais lenta, em ritmo de canção. É a invenção de Baden para uma das mais gravadas músicas brasileiras.

Em “Samba em Prelúdio”, nos deparamos com uma homenagem ao poeta Vinícius de Moraes, seu parceiro na canção, que ele cita enquanto canta na letra: “sem você meu poeta, eu não sou ninguém...”. “Berimbau”, também cantada, mescla trechos de citações musicais e de solo de melodia.

“Consolação” (Baden/Vinícius de Moraes), música sempre associada à “Berimbau”, vem aqui diferente de outras versões, numa desconstrução da melodia, que Baden vai colocando aos poucos, como pequenos “cacos-melódicos”, até que ele entra com seu jeito contido “de compositor", para cantar um dos temas mais marcantes de sua carreira.

Para “Jesus Alegria dos Homens” (J.S. Bach), única música estrangeira do repertório, Baden reservou uma interpretação limpa que mostra os fundamentos de sua técnica violonistica apurada e de muito rigor. Para “Marcha Escocesa” (Baden Powell), cria um divertido brinquedo musical: imitando o ritmo “marcial”da caixa, próprio das marchas, nas cordas graves do violão, ele acaba arrancando aplausos da platéia durante a execução.

O disco-show fecha com “Samba da Benção” (Baden Powell/Vinícius de Moraes), cantada e declamada por Baden, como fazia seu parceiro Vinícius, mais uma vez homenageado nesta canção, ao lado de todos aqueles que Baden vai pedindo à benção, enquanto se despede: “... a benção Sinhô, Cartola, Lamartine Babo, Ary Barroso, Donga, Pixinguinha, Ciro Monteiro, Vinícius, Moacyr Santos, Paulinho da Viola, Dory Caymmy, Milton Nascimento, Chico Buarque, Elis Regina, Clara Nunes, Paulo Cesar Pinheiro, que eu vou partir, que eu vou ter que dizer adeus...”.

Serviço:
“Baden Live A Bruxelles”
Lua Music www.luamusic.com.br