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edição 128 - Outubro 2006
Jeitinho mineiro
por Isabel Ribeiro
O coração de Vera Lúcia Gomes, 49 anos, bate mais forte toda vez que entra numa grande perfumaria e ouve mulheres comentando sobre produtos da Bio Extratus. Afinal, esses diálogos traduzem o reconhecimento de um trabalho iniciado na cozinha de sua casa. Com perseverança, virou um plano de negócios e culminou num pequeno império instalado entre as montanhas de Minas Gerais.

Vera era funcionária pública e estava insatisfeita com seu cargo administrativo. Deixou o emprego e, junto com o marido, fez algumas tentativas comerciais em BH, todas sem sucesso. Até que um dia o casal prestou atenção no ramo de cabeleireiro e tratou de aprender o ofício. Durante as aulas, ambos notaram que em vez de xampu era comum usar apenas uma base de ação detergente para lavar os cabelos. Era comprada em casa de produtos químicos e custava pouco. “Fiquei imaginando como enriquecer aquelas fórmulas usando ativos naturais e aí veio o desejo de fabricar o cosmético para usar no salão que a gente ia abrir”, relata.

Alquimia doméstica
Em 1989, Vera e seu marido, Lindouro Modesto Gomes, abriram as portas do pequenino Cabelos e Cia. “Tinha só a minha cadeira de trabalho e a dele”, comenta a empreendedora. Mas Vera, que cresceu penteando e trançando cabelos de boneca de espiga de milho, não se animou muito ao empunhar escova e secador na vida adulta. Em compensação, vibrava com todo serviço que envolvia química. “Uma vez fui ao salão de minha sobrinha e quando percebi que um relaxamento estava derrubando o cabelo da cliente, corri e fiz uma mistura de camomila e azeite para neutralizar. Deu certo”, lembra. A experiência serviu para mostrar que Vera tinha jeito com alquimia.
No pouco tempo livre o casal fazia testes para chegar à fórmula perfeita de um xampu com ingredientes da natureza. “Minha mãe foi auxiliar de boticário e aprendi com ela a gostar de plantas medicinais e de flores. Desde pequena, adoro cuidar de horta, jardim e ler muito sobre o assunto”, revela. Do laboratório caseiro, saiu o xampu e o banho de creme de jaborandi, com função antiqueda. As clientes do salão experimentavam os produtos no lavatório, depois queriam também levá-los para casa. Mesmo feliz com esse êxito, nem tudo eram flores na vida de Vera. “Custava caro manter um salão na capital e existe uma forte concorrência nas grandes cidades”, reconhece.

Bye Bye BH
Por questões econômicas, Vera mudou-se com marido e filhos pequenos para Dom Silvério, no interior mineiro. Em um galpão nos fundos do quintal, fazia xampu. Paralelamente, a família tocava uma pequena vidraçaria e o salão de beleza nas proximidades. “Mesmo dando duro, a gente não levantava capital para a fabricação de cosméticos”, diz Vera. A sorte mudou quando sua irmã Dora e seu cunhado César ofereceram um empréstimo para compra de embalagens e matérias-primas. Eles queriam levar uma remessa maior de produtos para vender em Campinas, São Paulo, onde moravam. Vera topou e a aceitação na cidade paulista foi tão boa que marcou o início da Bio Extratus. “Meu cunhado também fazia as etiquetas adesivas pelo computador, que a gente isolava com papel contact. Eu saía pelo mato catando uma planta parecida com uma medalhinha para enfeitar o rótulo”, conta a empresária.

Ativo animal
Vera e o marido passaram a pesquisar novas matérias-primas para seus cosméticos, como o tutano de boi. “Quando eu era menina, via na fazenda as pessoas alisando cabelo com ferro de passar roupa. Só que antes elas aplicavam tutano de boi e enxaguavam os fios. Sabiam que é um regenerador poderoso. Lembrei desse costume e começamos a testar o ativo no xampu”, explica. A linha tutano agiu como um divisor de águas no empreendimento de Vera. Produção e vendas começaram a crescer em ritmo acelerado. “Até hoje é o nosso carro-chefe.” Devido a esse sucesso, em 1997 a Bio Extratus já era uma microempresa com produção industrial. Mas necessitava de espaço físico para crescer.

Nova sede
Disposição e persistência sempre nortearam a ascensão de Vera, principalmente para legalizar a empresa junto à Vigilância Sanitária. Outro percalço foi obter uma área para a construção do empreendimento. “Procuramos muito até encontrar o apoio necessário em Alvinópolis, município vizinho à minha cidade”, explica.
Hoje, a Bio Extratus tem 7.820 m2 de área construída, onde são produzidas sete linhas de tratamento capilar para salões de beleza, perfumarias e lojas especializadas em cosméticos. Já a Aneethun, outra marca com a razão social da Bio Extratus, também desenvolvida nas sofisticadas instalações mineiras, é destinada somente para o segmento profissional e franqueada em 21 cidades brasileiras.
A empresa já emprega 220 funcionários diretos e conta com 71 parceiros comerciais, gerando mais de 1.000 empregos indiretos em todo o Brasil. Consciente de que o papel da empresa vai além de fabricar xampus, Vera e Lindouro têm uma preocupação exemplar com a ecologia. Recuperação de nascentes, jardins e reciclagens são parte da filosofia da marca. “Toda a água que sobra da fabricação é tratada antes de retornar ao ambiente.”
Futuro e passado
Na vida pessoal, tudo também ficou bem diferente de anos antes. Vera mora numa casa de 400 m2 , com piscina e, claro, horta e jardim. Mas reconhece que não teria chegado tão longe sem ousadia. “O medo não faz parte de minha história. Momentos de angústia são normais, todo empreendedor passa por eles. Mas a ousadia é que nos faz ir em frente”, ensina. A época em que conseguia conversar com todos os funcionários deixou saudades em Vera. O mesmo aconteceu com a fase de etiquetar os produtos e colocar folhinhas. “Agora não tenho mais tempo para nada. Passo 24 horas ligada na empresa. Acompanho a área comercial e o marketing.” Mas de um hábito do passado ela não abre mão: experimentar no seu próprio cabelo as fórmulas preparadas no local. “Temos um salão-teste dentro da fábrica e uma cabeleireira. Vou sempre lá com a farmacêutica responsável, acompanho os testes, verifico os produtos. Sou uma cliente assídua desse salão”, brinca a empresária.
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