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edição 116 - Outubro 2005
O maestro dos penteados
por Elisa Ayres
Manoel Marques
Patrick Cameron tem uma trajetória bem diferente da maioria dos cabeleireiros que fizeram fama participando de hair shows ao redor do mundo.

Nos dias de folga ele não atende clientes famosas. Aliás, ele sequer trabalha em salão. O mais surpreendente? Em suas apresentações não há espaço para corte ou coloração. Ele é conhecido e admirado mundialmente pelos penteados criativos e pela maneira didática que os apresenta ao público.

No recente show que fez no Brasil a convite da Wella, todas as malas com o figurino das modelos extraviaram no aeroporto. Uma produção de última hora garantiu que as meninas tivessem o que vestir. Mas a verdade é que ninguém notou o improviso. A habilidade e o talento de Patrick prevaleceram. Com uma escova e um punhado de grampos em mãos, fez uma apresentação inesquecível.

"Fiquei muito preocupado quando soube das malas. Quero sempre mostrar o melhor", conta. O exemplo de profissionalismo é só uma pequena prova do que pode ser ensinado por esse verdadeiro artista da moda-cabelo.

Quando e como você foi para Londres?
Faz 18 anos que eu fui para a Inglaterra para ficar três meses. Nasci na Nova Zelândia. Falei para os meus pais que seriam apenas férias e eles ainda estão chorando (risos).

Como foi o começo da sua carreira?
Eu decorava vitrines de lojas e como as manequins usavam perucas, queria aprender a trabalhar com elas. Uma grande amiga chamada Lyndsay Loveridge, que tinha um salão muito bom, me chamou para treinar e aprender com ela. Eu tinha 21 anos na época, uma idade considerada mais avançada porque a maioria das pessoas começa na profissão de cabeleireiro com 15, 16, 17 anos.

A sua especialidade são os penteados em cabelos longos. Você não corta nem faz coloração. Por quê?
Nos anos 80 quase ninguém trabalhava com cabelo longo, com exceção de Alexandre de Paris. Quando comecei a me apresentar em seminários, falava de corte, coloração e penteado. Mas percebia que as pessoas ficavam mais interessadas nos presos. A minha técnica era original, apurada, e acabava naturalmente despertando o interesse. O resultado disso é que acabei fazendo mais cabelo longo o tempo todo.

Como você desenvolveu suas técnicas de penteado?
Sou um autodidata. Nunca estudei nas academias Vidal Sassoon, Toni&Guy nem Trevor Sorbie. Fui para Londres e consegui um emprego como diretor artístico de uma companhia bem pequena na época. Essa empresa começou a crescer, e crescer.... Hoje ela tem mais de 500 salões espalhados pela Europa e África.
Chama-se Alan Paul. Em quatro anos apenas, me vi como diretor artístico de uma das maiores empresas de cabeleireiros do mundo. Esse caminho me levou diretamente aos shows e à parceria com a Wella.

Você se preocupa muito em passar o seu conhecimento adiante, mas e o lado da moda, da badalação?
Sou um cabeleireiro que trabalha para os cabeleireiros. Não sou uma celebridade que cuida do cabelo de modelos, estrelas de cinema e gente rica.
Isso realmente não me interessa. Hollywood e tudo que envolve esse mundo não fazem minha cabeça. Os profissionais são o que realmente me interessam.
Como você administra os negócios?
Eu tenho uma companhia que se chama Patrick Cameron Hair International e uma equipe de quatro pessoas me ajuda na administração. Um sócio cuida dos contratos e da agenda, outro responde pelo merchandising, o diretor artístico faz as roupas e a concepção dos shows e, por último, uma coreógrafa ensaia as modelos.

Você considera o talento nato mais importante do que investir na formação profissional?
Educação é fundamental, pois só através dela o cabeleireiro pode exercitar e desenvolver com plenitude a sua criatividade. Talento e técnica são igualmente importantes e um depende do outro.

No Brasil, os penteados feitos no salão costumam ser bem clássicos. Lá fora também é assim?
Sim. Em todos os países que eu já visitei o trabalho desenvolvido dentro dos salões é muito tradicional. Até a década de 60 o cabeleireiro realmente se preocupava em aprender a modelar, esculpir o cabelo. Nos anos 70 Vidal Sassoon revolucionou a maneira de cortar. As técnicas de corte deram novas formas às madeixas, libertando a mulher de todas as regras. Ao longo dos anos 70 e 80 formou-se uma geração de cabeleireiros que não penteavam mais.
Quando comecei nos anos 80 percebi que era o momento de trabalhar com presos. Acho que inaugurei uma nova forma de pentear, revigorada, criativa.

E como convencer a cliente e o cabeleireiro que o penteado pode ser moderno?
O cabeleireiro deve estabelecer uma relação de confiança com a cliente. Só assim ele pode mostrar que o penteado não é necessariamente algo fora de moda, cafona, mas que pode ser jovem, moderno e elegante. Muitos cabeleireiros do mundo inteiro ficam apavorados com a idéia de pentear um cabelo longo. Isso acontece porque nunca aprenderam a pentear como aprenderam a cortar. Nos meus shows as pessoas ficam espantadas de ver como é possível fazer presos totalmente diferentes daquilo visto como fora de moda, ultrapassado. O mesmo acontece com as noivas. Elas também podem ser modernas.

Todo ano você lança uma nova coleção. Como é o seu processo criativo?
Lançar anualmente uma coleção me mantém estimulado, exige uma renovação constante. A inspiração surge de algo que eu estou fazendo. A partir de uma idéia bem pequena, desenvolvo toda uma coleção. Além de trazer novas tendências, tenho outra preocupação fundamental: criar técnicas que sejam acessíveis à maioria dos cabeleireiros. Para mim é muito fácil elaborar penteados mirabolantes. Meu grande desafio é lançar novas idéias que possam ser ensinadas.

A que você credita a preferência das brasileiras pelo cabelo longo?
O cabelo comprido está muito associados à feminilidade. Eu adoro cabelo curto não me entenda mal. Muitas mulheres ficam mais bonitas com um curtinho do que com um cabelão. Mas o longo envolve mistério e sensualidade.
Mesmo na Europa e em outras partes do mundo o gosto pelo comprimento ultrapassando os ombros vem crescendo pela influência de estrelas como Jennifer Aniston, de Friends, e Sarah Jessica Parker, de Sex and the City.

O cabeleireiro precisa aprender um pouco de tudo, mesmo que ele queira se especializar em penteado, por exemplo?
O corte é a alma da profissão de cabeleireiro, por isso um profissional tem de aprender a cortar, sim! Não acredito que uma pessoa possa desenvolver uma carreira inteira calcada em penteados. Talvez ela até conseguisse, mas seria difícil sem a base do corte. Trabalhar com coloração e permanente já acho opcional, depende do gosto.

O que está na moda em matéria de penteados?
A minha última coleção traz visuais femininos, suaves, com cabelo cheio de textura. Longo, armado e volumoso, em looks elegantes e com um ar nostálgico.

Que conselho daria a alguém que está começando a carreira?
Aprenda sobre tudo. Não fique limitado a um único estilo. A moda é um círculo que dá muitas voltas e é preciso estar preparado. Encontre um cabeleireiro mais experiente e tire proveito de seu conhecimento. Nunca pare de estudar e conhecer coisas novas.

E o que você diria ao cabeleireiro que vai subir ao palco pela primeira vez?
O mais importante que eu poderia dizer e eu garanto que isso transformaria profundamente a maneira como as pessoas trabalham é aprenda a se comunicar. O cabeleireiro não pode ficar no palco, colocar uma música no fundo e apenas fazer os cabelos sem interagir com a platéia. Existem tantos profissionais talentosos que fazem shows chatos porque não falam, não sabem envolver o público. Esse é um dos segredos do sucesso no que eu faço, além da criatividade e da técnica. O dom da comunicação é algo nato, mas que pode ser trabalhado para melhorar.

Nos shows pelo mundo, Patrick Cameron seduz a platéia com seus penteados modernos e criativos.

"Eu sou um cabeleireiro que trabalha para os cabeleireiros. Cuidar do cabelo de modelos, estrelas de cinema e gente rica não me interessa".(Patrick Cameron)
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