Mulheres ganham menos, mesmo sabendo
mais
As mulheres estudam mais e são responsáveis financeiramente
por um número cada vez maior de lares. Apesar disso, os institutos
de pesquisa do país mostram que elas ainda ocupam menos postos
que os homens e têm salários mais baixos, mesmo quando
desempenham a mesma função. As mulheres conquistaram
mais espaço, mas ainda não conseguiram vencer as desigualdades
quanto a salários e cargos.
Dados do Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), revelam que a participação da mulher na População
Economicamente Ativa (PEA) aumentou 2,5%, em 2003, contra 1,6% dos
homens. A taxa de atividade feminina no mercado de trabalho, porém,
permaneceu inferior à masculina, 50,7% contra 72,9%.
Pesquisa da Fundação Sistema Estadual de Análise
de Dados (Seade) realizada na Grande São Paulo, mostrou que
a taxa de participação das filhas no mercado de trabalho
cresceu 2,5% em 2004, passando de 53,3% do total do segmento para
54,6%. As esposas aumentaram em 0,7% sua participação,
passando de 55,4% para 55,8%, mas a participação das
chefes de família diminuiu 1,1%, passando de 60,3% para 59,6%.
Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Análises
Sociais e Econômicas (Ibase), realizado a partir dos balanços
sociais anuais publicados por 253 grandes e médias empresas
de todo o país entre 2000 e 2003, a proporção
de mulheres em cargos de chefia praticamente não se alterou,
mantendo-se em 14%.
De acordo com estudo do Departamento Intersindical de Estatísticas
e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), por trás
da inserção no mercado de trabalho existem, "além
dos novos valores de igualdade entre os sexos, a necessidade de
aumentar os rendimentos familiares, já que os trabalhadores
vêm perdendo seu poder aquisitivo ao longo dos anos".
O número de mulheres empregadas em 2003 cresceu, segundo
o IBGE, quatro pontos percentuais em relação a 2002,
passando de 37,6% para 41,6%. No entanto, a taxa de desocupação
em 2003 alcançou 9,7% com aumento em relação
a 2002, em função da maior procura feminina por trabalho
(12,3%), superior à dos homens em quatro pontos percentuais.
Segundo o IBGE, as mulheres têm uma média de tempo
de estudo superior à dos homens. Em 2003, aproximadamente
55% das mulheres no mercado de trabalho concluíram pelo menos
o ensino fundamental, enquanto 55% dos homens empregados não
conseguiram terminar esse ciclo.
O aspecto positivo do nível de instrução não
se reflete nos salários. Segundo a especialista regional
em temas de Gênero da Organização Internacional
do Trabalho (OIT), Lia Abramo, a mulher ganha 30% a menos que o
homem.
O IBGE confirma que as mulheres têm salários menores
em todos os níveis de escolaridade. Em 2003, os homens com
até três anos de estudo recebiam, em média,
um salário de R$ 343,30 contra R$ 211 pagos às mulheres
com o mesmo nível de escolaridade. Para aqueles com grau
de instrução entre oito a dez anos de estudo, o salário
médio pago foi de R$ 631,70 contra R$ 350,60 pagos às
mulheres. Acima de 11 anos, a pesquisa mostra que a relação
permaneceu inalterada. As mulheres recebiam 58,6% do rendimento
dos homens com a mesma escolaridade.
A pesquisa do IBGE constatou também que 49% das mulheres
ganhavam até um salário mínimo de rendimento.
Segundo a coordenadora do estudo, Ana Lúcia Sabóia,
parte delas está em cargos domésticos ou em ocupações
de serviço, como cabeleireiras, depiladoras, manicures, professoras
primárias ou enfermeiras. As regiões Sul e Sudeste,
consideradas as mais desenvolvidas economicamente, apresentam as
maiores desigualdades nos rendimentos. Em Santa Catarina, por exemplo,
a média de rendimento mensal masculina é de R$ 985,10,
e a feminina, de R$ 583,60.
Pesquisa realizada no Distrito Federal pelo Dieese mostro que,
há 13 anos, os rendimentos femininos representavam, em média,
59,8% dos ganhos masculinos. As mulheres ganhavam em média,
R$ 1.001, enquanto os homens recebiam R$ 1.674 (59,8%). Em 2004,
a situação das mulheres apresentou uma melhora e seus
rendimentos passaram a representar, em média, 70,8% dos ganhos
dos homens. As mulheres recebiam, em média, R$ 1.006 enquanto
os homens, R$ 1.421. "Note-se que, no geral, não houve
um aumento relevante dos rendimentos femininos, mas sim um decréscimo
nos rendimentos masculinos", diz o estudo.
Apesar de ganhar menos, as mulheres já são responsáveis
por 30% dos lares brasileiros, de acordo com a Síntese dos
Indicadores Sociais de 2004 do IBGE. De 1993 a 2003, o percentual
cresceu mais de 40% no Sul, a maior taxa entre as regiões
brasileiras. No Nordeste e no Sudeste, o crescimento foi de 29%.
A presença do cônjuge, no entanto, ainda foi um padrão
dominante nos últimos dez anos. Foi destaque a redução
do tamanho da família na década. A diminuição
foi mais intensa no Nordeste, onde o número de filhos passou
de 2,1 para 1,6.
A pesquisa do Dieese, em 2004, no Distrito Federal revelou que,
quando as mulheres são chefes de família, respondem
por 88,7% da renda familiar e; quando o chefe é o homem,
a participação da mulher é de 43,6%. Em média,
a renda feminina nos domicílios chefiados por homens em 2004
foi de R$ 1.295, enquanto nos domicílios chefiados por mulheres,
o rendimento médio foi de R$ 1.363.
Um dos motivos para as desigualdades seria o fato de que contratar
uma mulher sai mais caro para a empresa que contratar um homem.
Uma pesquisa da OIT realizada em cinco países (Argentina,
Brasil, Chile, México e Uruguai) mostrou que a afirmação
não é verdadeira. Nos países pesquisados, o
custo do emprego da mulher por causa dos benefícios (como
licença maternidade) é em média de 2% da remuneração
bruta mensal. No Brasil, é de 1,2%. Porém, esse custo
não é pago pelo empregador, mas pelos sistemas de
seguridade social.
Para o professor de economia da Universidade de Brasília
(UnB), Carlos Alberto Ramos, especialista em estudos sobre a mulher
no mercado de trabalho, a tendência brasileira é reduzir
a discriminação porque o problema "é biológico,
mas também cultural. No Japão, o papel da mulher na
sociedade, historicamente, é a reprodução.
Há países árabes onde a mulher não pode
dirigir um carro. No caso do Brasil, o problema é muito mais
leve que em outros países", ressalta.
Há três anos na presidência do sindicato Nacional
das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva, Norma Gebran
Pereira, mãe de uma filha, conta que nunca sofreu discriminação
na profissão ou passou por uma concorrência desleal.
Para ela, "as mulheres estão passo a passo conquistando
lugares e tendo oportunidade de mostrar sua capacidade e competência".
Segundo ela, 90% dos engenheiros brasileiros são homens e
não é fácil a luta das mulheres. "É
uma jornada tripla, a gente se vira entre casa, marido, escritório
e sindicato e, às vezes, se sente meio estafada, mas dá
pra tocar. Os homens também estão dividindo tarefas.
A luta hoje é de igual pra igual", lembra. (Agência
Brasil)
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