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Pesquisas    

Empresas fogem dos bancos e usam mais o crédito mercantil

Estudo elaborado pela Serasa com base em uma amostra de 60.000 balanços de empresas brasileiras, extraída do seu banco de dados, demonstra que o crédito mercantil, medido pela evolução da conta fornecedores, apresentou um crescimento real (descontada a inflação) de 60%, contra 34% do crédito bancário, medido pela evolução da conta financiamentos bancários de curto e longo prazos, no período de 31/12/94 a 30/6/2004.

Em 31/12/94 o montante da conta fornecedores era de R$ 100,8 bilhões, já corrigido monetariamente, e em 30/06/2004 alcançou a cifra de R$ 161,3 bilhões. Já os financiamentos bancários saíram de R$ 258,7 bilhões para R$ 346,6 bilhões, no mesmo período. A Serasa, empresa de pesquisas e informações econômico-financeiras, quantifica esses números, analisa sua evolução e os compara com o valor dos créditos bancários, tanto por porte como por setor de atividade, ao longo dos 10 anos de vigência do Real.

Tanto no Brasil quanto no exterior, muito tem se falado sobre a importância da concessão de crédito por parte das empresas não financeiras, mas talvez, no caso brasileiro, nenhum estudo tenha ainda podido quantificar adequadamente esse fenômeno, cada vez mais crescente e que se reveste de importância singular. O chamado crédito mercantil representa a fonte natural de financiamento de qualquer negócio.

São as compras a prazo que as empresas fazem de seus fornecedores de insumos e mercadorias e que figuram nos balanços de quem compra como uma obrigação a pagar, sob a rubrica de fornecedores e, no de quem vende, como contas a receber de clientes.

Analisando somente o curto prazo, período do estudo, a conta fornecedores sai de R$ 98,4 bilhões e chega a R$ 153,5 bilhões, em 30/06/2004, representando um crescimento de 56%. Já os financiamentos bancários de curto prazo cresceram 13%, saindo de R$ 117,9 bilhões para R$ 133,1 bilhões, situando-se, no final do período, 11% abaixo do saldo da conta fornecedores.

O maior crescimento do crédito mercantil, em relação aos financiamentos bancários, pode ser explicado pelo fato de que uma grande parte das atividades mercantis no Brasil não consegue captar recursos, especialmente aqueles destinados a suprir necessidades de capital de giro, a uma taxa de juros que possa ser remunerada adequadamente pelo retorno conseguido no seu ramo de negócios, ou seja, não conseguem obter uma alavancagem financeira favorável.

Esse fato faz com que as empresas procurem uma aproximação ainda maior com os principais fornecedores da sua cadeia de produção, conhecedores das características, riscos e oportunidades da sua atividade, buscando aprofundar ainda mais o relacionamento com esses parceiros e, dessa forma, conseguir ampliar os seus limites de crédito e obter os recursos necessários para a expansão dos seus negócios, a custos compatíveis com os retornos obtidos no seu ramo de atuação.

O estudo mostra também comportamentos bem diferentes quando segregamos as empresas por porte - grandes e pequenas e médias - e por setor de atividade - indústria, comércio e serviços.

Analisando as empresas por setor de atuação observamos que, tanto as indústrias como as prestadoras de serviços, têm necessidade de realizar grandes investimentos em ativos, o que as torna grandes tomadoras de recursos bancários, notadamente de longo prazo, para fazer frente a investimentos em tecnologia e expansão de plantas industriais que possam garantir a escala necessária para atender às crescentes demandas do mercado por produtos e serviços competitivos.

Para atender a essas necessidades de recursos, as linhas de financiamento de longo prazo, geralmente repasses do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), são as mais adequadas, pois são compatíveis com os longos ciclos de maturação de projetos dessa natureza.

Em razão dessas peculiaridades nas empresas deste dois setores, o valor dos financiamentos bancários é maior que os créditos mercantis. As indústrias possuíam R$ 83,0 bilhões na conta de fornecedores, contra R$ 167,7 bilhões de financiamentos bancários, em 30/06/2004, sendo que a curto prazo a conta de fornecedores somava R$ 81,3 bilhões e os financiamentos bancários R$ 77,6 bilhões.

A análise do comércio mostra uma situação diferente dos dois outros setores já mencionados. A explicação fica por conta da estrutura das empresas comerciais, que têm como principais ativos os estoques e as contas a receber de clientes. O crédito mercantil, é portanto muito mais representativo por estar relacionado diretamente à sua atividade operacional básica de compra e venda.

Os créditos mercantis no comércio representavam, em 30/06/2004, 1,7 vez os financiamentos bancários. Mas este perfil nem sempre foi assim. Em 31/12/94, alguns meses após a implantação do Plano Real, quando o comércio começava a ampliar as vendas a crédito, com prazos mais longos, a relação era de 1,4.

Com o crescimento das diferentes formas de venda a prazo, como o cheque pré-datado, por exemplo, as empresas comerciais encontraram no seu parceiro natural, os seus fornecedores, o caminho para ampliar a sua oferta de crédito. Nesse período o valor dos créditos mercantis saiu de R$ 24,3 bilhões para R$ 36,1 bilhões, o que representa um crescimento real de 48%, contra 25% dos financiamentos bancários, que passaram de R$ 17,4 bilhões para R$21,8 bilhões.

Quando analisamos as empresas por porte, observamos que a expansão real de 60% do montante de financiamentos mercantis varia de acordo com o porte das empresas. Nas grandes empresas o crescimento foi de 97%, enquanto nas pequenas e médias houve um decréscimo de 2%. Esses números podem ser explicados pela diferença de poder de negociação dos dois grupos. Enquanto as grandes têm muito maior poder de barganha com seus fornecedores, aqui entendido pela obtenção de maiores prazos para pagamento em função do volumes elevados. As pequenas e médias já não desfrutam das mesmas condições.

O crescimento real de 34% dos financiamentos bancários também apresenta diferenças significativas, quando observamos o porte das empresas. Os financiamentos bancários apresentaram crescimento real de 59% nas grandes e queda real de 34% nas pequenas e médias empresas. A explicação para comportamentos tão díspares está no fato de que as grandes empresas têm maior facilidade para obtenção de empréstimos bancários, em razão das diferentes percepções de risco que as instituições financeiras têm desses dois segmentos de mercado, motivadas principalmente pelos diferentes graus de assimetria de informação de cada um.

Enquanto as grandes empresas apresentam maior transparência em suas informações, revelando seus balanços, seus modelos de gestão e suas práticas de governança corporativa, as pequenas e médias ainda são vistas como desconhecidas, o que amplia as incertezas e aumenta a aversão a riscos para esse tipo de empresa. Segundo Laércio de Oliveira Pinto, diretor de Produtos Pessoa Jurídica da Serasa, essa situação tende a se modificar com a intensificação das práticas de compartilhamento de dados estimuladas por empresas como a Serasa, que reúne informações sobre hábitos de pagamento e compromissos vencidos e a vencer dessas empresas com seus fornecedores.

Hoje o banco de dados da Serasa reúne informações comportamentais sobre 1,7 milhão de empresas. "Já não podemos mais dizer que as micro e pequenas empresas são desconhecidas", diz Oliveira Pinto.

"O estudo revela que o montante de crédito que as empresas concedem para seus clientes é extremamente expressivo e, por isso mesmo, deve fazer parte das suas prioridades a adoção de técnicas avançadas para concessão e gerenciamento do risco de crédito, uma vez que os valores dos crédito administrados são da ordem de R$ 161,3 bilhões", afirmou o diretor da Serasa.

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