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Novo modelo de gestão abole foco no orçamento

Escândalos corporativos recentes nos EUA e Europa demonstram para muitos as fragilidades do atual modelo da gestão orçamentária. O estabelecimento anual de metas fixadas para o ano seguinte representa, em muitas empresas, o maior dos pesadelos para os executivos de todas as áreas. O descumprimento pode resultar em perda do valor da companhia nos mercados financeiros - entre outras conseqüências daninhas - o que, de certa forma, “estimula” comportamentos disfuncionais, a fabricação de balanços enganosos e outros danos contábeis.

Neste contexto ganha impulso um novo conceito de gestão, surgido da troca aberta de experiências de grandes grupos europeus reunidos há cerca de 7 anos no Beyond Budgeting Round Table - BBRT. “Orçamentos e comparações do tipo ‘planejado versus realizado’ promovem manipulação, falta de transparência e perda de controle. O Beyond Budgeting prevê a abolição da micro-gestão de cima para baixo e da cultura de comando e controle”, afirma Niels Pflaeging, diretor e líder do BBRT no Brasil, que começa agora a difundir o novo conceito no meio empresarial brasileiro.

O BBRT promove a gestão sem orçamento a partir de adoção de novos processos e ferramentas de gestão. Entre eles, comparações com a concorrência, com a evolução da fatia de mercado ocupada pela empresa, e com os resultados dos anos anteriores, além de Balanced Scorecards, Activity-Based Management, Rolling Forecasts, entre outros. A eliminação das metas projetadas, de acordo com o conceito do BBRT, é acompanhada pela flexibilização dos processos e a descentralização. “Líderes precisam reaprender a gerenciar: descentralizando a autoridade e desafiando constantemente a organização para obter resultados competitivos superiores”, afirma Pflaeging.

Responsabilidade dividida. O novo modelo de gestão prega a descentralização das responsabilidades e a análise de desempenho por equipe – no lugar da individual –, o que aumenta o grau de comprometimento de todos os colaboradores. “Equipes descentralizadas aproveitam as competências de seus colaboradores sem documentação burocrática. Simplesmente porque estão muito próximos às competências e ao potencial de cada indivíduo; porque o sucesso dos colaboradores depende sempre de um desempenho competitivo e da busca de novas oportunidades de melhoria”, diz Pflaeging que identifica na gestão tradicional orçamentária uma “cultura de chantagem e suborno prevalecente nas empresas”. Para ele, a troca intensa de conhecimento estimula os colaboradores. “Eles sabem que conseguirão desenvolver seu próprio potencial e que gerarão benefícios e vantagens competitivas para as suas organizações. Intrinsecamente, eles estão altamente motivados a aproveitar estas oportunidades” completa.

Pflaeging é administrador de empresas, com mestrado na Universidade de Hannover, Alemanha. Além do BBRT, é presidente do MetaManagement Group, que apóia organizações na Europa e na América Latina na melhoria de desempenho e resultados. É autor do livro bestseller “Beyond Budgeting”, lançado em 2003 na Alemanha e que será lançado no Brasil, pela editora Atlas, no 2º semestre de 2004.

Antes de se dedicar ao Beyond Budgeting e à consultoria de gestão, trabalhou como controller em multinacionais no Brasil e no exterior, como Xerox, Boehringer Ingelheim e ThyssenKrupp, onde permaneceu até 2003. Está radicado no Brasil desde 1999 e a partir de agora difunde os conceitos da BBRT no país.

O BBRT é uma rede internacional para organizações que estão avaliando, implementando e ganhando valor com o modelo de gestão Beyond Budgeting. Foi fundado como resposta à crescente insatisfação, e até frustração, das empresas com o planejamento orçamentário tradicional. O BBRT está desenvolvendo e guiando a implementação de um modelo coerente de gerenciamento de desempenho para o século 21, com a sua pesquisa baseada em estudos de cases práticos, de organizações líderes e de sucesso.

Desde a sua fundação em janeiro de 1998, mais de 70 empresas dos mais diversos segmentos (a maioria delas de grande porte) tem participado no BBRT. Entre elas pode-se citar a Unilever, Diageo, Schneider Electric, Clariant, UBS, American Express e o Banco Mundial. Entre as empresas pioneiras que trabalham há anos sem orçamentos estão o Svenska Handelsbanken, Toyota, Southwest Airlines, Ikea, Volvo Cars, SKF, Rhodia, entre outros.

A rede está aberta à adesão de novos integrantes. As empresas que se tornarem participantes poderão acessar todo o conjunto de informações exclusivas das experiências realizadas pelas empresas pioneiras do grupo até aqui. Passam a ter direito a participar das mesas redondas, que acontecem no mínimo três vezes ao ano em diferentes regiões do mundo, inclusive no Brasil.

Abaixo, perguntas freqüentes sobre Beyond Budgeting e o Beyond Budgeting Round Table (BBRT)

1) Por que o orçamento é um problema?
Primeiro porque ele é caro para as organizações. Executar o processo orçamentário não significa apenas traçar um plano – o que em si já é um jogo burocrático, político e manipulatório. Envolve também a tentativa de manter a organização dentro do plano pré-definido e fazer acompanhamentos, o que se traduz em recursos. A gestão sem orçamentos é bem mais barato e com uma relação custo-benefício bem melhor. O segundo problema é que o orçamento agrega pouco valor. Nos ambientes turbulentos e de mudança que vivemos hoje, as organizações precisam ferramentas mais dinâmicas, do que planos fixos, dentro de uma cultura hierárquica de comando e controle. O orçamento, porém, é mais uma ferramenta para controlar o comportamento do que para ajudar uma empresa a ser mais competitiva. Em terceiro lugar, o orçamento vem acompanhado de efeitos disfuncionais graves. Ao fixar um plano para o ano, as pessoas são levadas a tentar atingir metas fixadas e de curtíssimo prazo. Isso pode fazer com que algumas áreas de negócios tentem alcançar as metas usando truques de contabilidade ou empurrando produtos para os clientes. Tudo isso é nocivo para a organização.

2) Como funcionaria e quais as vantagens de uma gestão sem orçamento?
Vamos imaginar o exemplo de um gerente, que tem a intenção de adquirir uma série de computadores novos para o departamento dele. Na gestão orçamentária, este gerente terá que negociar, na época do planejamento orçamentário, uma alocação de recursos que permitirá esta compra posteriormente. Num primeiro momento, ele vai fazer de tudo para conseguir os recursos no nível desejado e, além disso, tentará conseguir recursos além do realmente necessário, já antecipando cortes do plano. Uma vez negociada a verba, este gerente terá durante o ano fiscal todo interesse em gastar o valor inteiro, independentemente até das necessidades atuais ou das alternativas disponíveis.

Na gestão sem orçamentos não existe este tipo de alocação e nem o incentivo de “gastar por gastar”. Este mesmo gerente teria responsabilidade pelos resultados e por um conjunto de indicadores operacionais e de eficiência da área dele. E ele teria a liberdade de tomar todas as decisões necessárias para trabalhar acima destes indicadores, no longo prazo. Nesta situação descrita - de descobrir uma necessidade de melhoria - este gerente então iria se perguntar se a compra de PCs seria a melhor solução, ou talvez até a compra de notebooks - mas considerando que um investimento muito alto teria um impacto significante nos indicadores dele de eficiência operacional.

3) Quais são as implicações das características da economia brasileira para a implementação do BBRT?
Existem duas diferenças entre a economia brasileira e a de países mais estáveis, no que diz respeito a fundamentos considerados por quem administra empresas. Uma é que a volatilidade é bem maior aqui, o que torna ainda mais inútil a elaboração de planos de médio e longo prazo. Portanto, neste ponto, não há grande diferença para a aplicação da gestão sem orçamento no Brasil e em outros lugares. O fundamento é, de qualquer maneira, se livrar das previsões fixas.

Uma outra característica própria das empresas brasileiras é a ainda forte presença da gestão familiar. Na Alemanha, por exemplo, há pelo menos 40 anos é bastante pequeno o número de corporações gerenciadas por famílias. É o processo de profissionalização, que aqui ocorre num momento um pouco mais tarde. Então o desafio de muitas empresas brasileiras é sair rapidamente da governança familiar para a profissional, porque têm de competir com as empresas do mundo todo, o que pode ser facilitado pela nova gestão.

Portanto não existem maiores dificuldades de adesão ao BBRT no Brasil. Ao contrário: existem fatores que tornam a gestão adaptável sem orçamentos muito atraente por aqui.

4) O que o senhor acha das previsões orçamentárias?
Filosoficamente devemos nos livrar da idéia de que o futuro é previsível. Nós só podemos lidar com esta incerteza. Não devemos prometer o futuro no orçamento do ano seguinte e tentar comprometer a organização com um todo e os seus membros com este plano pré-estabelecido. É interessante, sim, em algumas situações fazer uma pequena simulação ou uma previsão dinâmica. Mas o processo de decisão – de compra de insumos, por exemplo – deve ser totalmente desvinculado do orçamento. Não é recomendável ater-se a um cenário projetado e fazer todo mundo acreditar que ele vai acontecer. A idéia é manter a sensibilidade. Manter a discussão e a observação sobre os cenários propostos, e mudar, sempre que for preciso.

5) Mas existem áreas que demandam algum tipo de previsão não é?
É verdade. No entanto, ao nosso ver, é interessante tomar certas decisões operacionais o mais tarde possível e só prever o que é realmente necessário para a tomada de decisão. Compra de materiais e planejamento de produção, por exemplo, talvez precisem de alguma previsão, de fato. Mas aí se trata de planejamento de um, dois ou três meses, dependendo da indústria. Aí se faz o plano operacional, que deve se restringir ao absolutamente necessário. Fora estas áreas, não é necessário fazer um plano fixo.

Temos que minimizar este horizonte e não planejar para um ano, dois, três ou até cinco anos, como fazem algumas empresas. Neste caso não há justificativa porque não se precisa destas previsões para se tomar decisões de verdade. Talvez este procedimento seja útil para se vender uma expectativa, mas é exatamente esta filosofia que deve ser abolida.

6) Existe risco de perda de controle com a implementação do BBRT?
Uma das dúvidas que encontro com mais freqüência nas minhas conversas com executivos é o medo de que uma gestão sem orçamentos possa resultar numa perda de controle. Por outro lado, é importante reconhecer que a perda de controle é exatamente uma das características fundamentais da atual gestão orçamentária. Não é perda de controle quando observamos que a prática de metas e do planejamento orçamentário submete a organização a uma mediocridade? Ou que gestores, de forma consciente e com o conhecimento de todo mundo, desperdicem recursos quando se aproxima o final do ano? Ou que a área de vendas seja incentivada, através de cotas e bônus, a empurrar para os clientes determinados produtos em determinados momentos - custe o que custar? E que, em quase todas as organizações, exista manipulação dos resultados trimestrais, para fingir para os acionistas e mercados de capital que "sempre atingimos os números"?

A gestão orçamentária fornece, através dos seus números aparentemente sólidos, uma ilusão de controle. Após adotarem o Beyond Budgeting, muitos gestores aprenderam que os novos processos fornecem controles muito melhores, mais variados e atualizados do que a gestão orçamentária que praticavam anteriormente.

7) Há casos de sucesso? Quais?
O Beyond Budgeting Round Table (BBRT), já a partir de 1998, iniciou a sua pesquisa reagindo ao chamado das empresas que procuravam desesperadamente por alternativas ao orçamento. Hoje, nós temos dúzias de exemplos de empresas, dos mais diversos ramos, que agem em ambientes extremamente complexos e turbulentos e que mostram que Beyond Budgeting funciona em qualquer organização. Estes exemplos não incluem apenas empresas privadas, mas também empresas públicas e organizações sem fins lucrativos.

No trabalho do Beyond Budgeting Round Table, participam organizações tão diversas como Unilever, Diageo, Schneider Electric, Clariant, UBS, American Express e o Banco Mundial. Entre as empresas pioneiras que trabalham há anos sem orçamentos estão o Svenska Handelsbanken, Toyota, Southwest Airlines, Ikea, Volvo Cars, SKF e Rhodia.

Atualmente estamos desenvolvendo, em parceria com a IBM Business Consulting Services, um programa mundial para diagnosticar em que grau o Beyond Budgeting representa uma solução desejada, necessária ou adequada para corporações no mundo inteiro. O diagnóstico também permite analisar, até que ponto a organização já tem o potencial e a energia para iniciar a migração para a gestão "além do orçamento".

8) O senhor pode detalhar um desses casos?
Um bom exemplo é o do Svenska Handelsbanken, um banco sueco. Seus executivos deixaram de trabalhar com metas fixas há mais de três décadas, estabeleceram processos bem flexíveis de desempenho e conseguiram uma descentralização surpreendente. Lá 50% dos funcionários têm poder de aprovação de crédito para clientes. A medição de desempenho é feita por meio de comparações entre as filiais, as regiões e com outros bancos. O Handelsbanken é o banco mais eficiente da Europa em termos de custo e tem os melhores indicadores de satisfação de clientes e funcionários.

9) A implementação deste novo modelo se dá em que velocidade?
Hoje, nas organizações, planejamento e controle orçamentário, estão longe de funcionar perfeitamente. Por isso, com a suspensão dessas práticas, melhorias substanciais são possíveis dentro de pouco tempo. Os primeiros resultados já podem ser visíveis em algumas semanas. De qualquer forma, Beyond Budgeting é uma alternativa para todas as empresas. Mas é importante ressaltar, que na prática, a mudança da gestão orçamentária para “além do orçamento” não é viável no curto prazo.

Um exemplo: a iniciativa de Beyond Budgeting da Rhodia, bem documenta pelo BBRT, foi uma das mais rápidas. Mesmo assim, ela demorou por volta de três anos, na sua fase inicial.

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