Estudo mostra que Selic alta pode causar
inflação
Estudo da Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade (FEA), da USP de Ribeirão Preto,
revela que há indícios de que a taxa Selic seja
responsável pela elevação da taxa
inflacionária. A afirmação contraria as
justificativas da equipe econômica do governo
federal, que elege diariamente as altas taxas de
juros como salvadoras do processo inflacionário.Para
chegar a esta conclusão, o financista e
professor da FEA/RP Alberto Borges Matias
calculou a correlação entre a taxa Selic e a
inflação, aferida pelo IPC, no período entre
1994 e 2002.
"O acompanhamento das taxas nesses anos não
indica uma correlação direta entre os altos
juros e a redução da inflação", explica
Matias. "Pelo contrário, taxas elevadas de
juros elevariam as despesas financeiras das
empresas que repassariam aos preços, elevando a
inflação".
O estudo, que é de conhecimento do governo e
vem causando discussões no meio econômico, foi
pensado inicialmente como uma forma de analisar
se frases feitas do modelo adotado pelo governo,
como "taxas de juros servem para controlar a
inflação", conferem na prática.
De acordo com o pesquisador, o paradigma ensinado
nas escolas de economia e adotado pelo governo,
baseado em fórmulas prontas, é o mesmo
utilizado em países como EUA e Inglaterra.
"Mas o contexto brasileiro é outro e tem
inúmeras restrições. O Brasil oferece um dos
menores volumes de crédito, em relação ao PIB,
do mundo, o que acua o crescimento. Além disso,
possui as mais altas taxas de juros do
mundo".
Segundo dados da Global Invest & ABM
Consulting, a taxa real do país é três vezes
maior do que a média dos países em
desenvolvimento e 14 vezes superior à média dos
países desenvolvidos. Para Matias, essa
situação não é mero acaso. "Às vezes,
paradigmas servem de interesse de determinados
grupos", diz.
Ganho financeiro
Na opinião de Matias, os negócios no Brasil
estão sendo orientados para o ganho financeiro
e, no setor varejista não é diferente. "O
comércio hoje é um banco disfarçado de
loja", afirma. Para o professor, as taxas de
juros permeiam de forma incorreta todo o tecido
da economia e da sociedade. "Os negócios
viram agiotagens", critica.
Outra hipótese que justifica a política
monetária brasileira, amplamente divulgada pelo
governo Lula e propagada pela imprensa, é
rejeitada pelo estudo realizado por Matias. A
hipótese é que para evitar a instabilidade
cambial há a necessidade dos juros altos.
"Esta relação considera que a entrada
de fluxos voláteis especulativos de curto prazo
é necessária para a estabilidade econômica.
Mas o que ocorre é exatamente o inverso: fluxos
voláteis aumentam o risco do país",
explica Matias.
Para o professor, a imprensa possui
responsabilidade na propagação de conceitos
errados sobre a importância das taxas de juros.
"Muito se tem escrito sobre as elevadas
taxas vigentes no Brasil, mas pouco de forma
científica."
Os meios de comunicação, segundo Matias,
têm propalado pré-concepções emanadas pelos
diversos governos, inclusive pelo atual, quanto
à efetiva necessidade de taxas elevadas de juros
no Brasil. "A imprensa simplesmente está
reproduzindo um conceito incorreto, sem a menor
ressalva", diz o especialista. O estudo
completo está disponível no site www.cepefin.com.br
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