| Crédito
mercantil cresce mais que o bancário
Estudo elaborado pela Serasa revela
que o crédito mercantil no Brasil vem apresentando
crescimento contínuo e, em maior nível,
que os financiamentos bancários de curto
prazo. O estudo é baseado numa amostra
de 60.000 balanços de empresas de todos
os ramos e portes, abrangendo o período
de 1994 até o 1º semestre de 2005.
Nos balanços, o crédito mercantil
aparece na conta “Fornecedores”, para
a empresa tomadora de crédito, e na conta
“Clientes” para a empresa credora
.
O estudo também mostra
que o nível de endividamento das empresas
praticamente dobrou desde 1994, motivado, entre
outros fatores, pela confiança dos empresários
na estabilidade econômica, bem como pelo
maior volume de negócios, tanto no mercado
interno como no mercado externo. Enquanto em dezembro
de 1994 o nível de endividamento era de
70%, medido pela relação divida
total/patrimônio líquido, o mesmo
passou para 132% em junho de 2005, quase dobrando
o nível de endividamento no período.
Observa-se, no entanto, uma mudança
no perfil do endividamento, devido a continuidade
do avanço do crédito mercantil.
Em junho de 2005, o crédito bancário,
representado pelas contas “Financiamentos
Bancários” de curto e longo prazos,
apresentou crescimento real (descontada a inflação)
de 11%, contra uma expansão de 72% do crédito
mercantil. Em 31/12/94 o montante da conta “Fornecedores”
era de R$ 107,9 bilhões, já corrigido
monetariamente, e em 30/06/2005 alcançou
R$ 185,7 bilhões. Já os “Financiamentos
Bancários” saíram de R$ 276,1
bilhões para R$ 306,8 bilhões, no
mesmo período.
Analisando somente as contas de
curto prazo, no período em estudo, a conta
“Fornecedores” sai de R$ 105,5 bilhões
em 1994 e chega a R$ 179,8 bilhões, em
30/06/2005, o que representa um crescimento de
70%. Já os “Financiamentos Bancários”
de curto prazo apresentaram redução
de 8%, saindo de R$ 126,5 bilhões para
R$ 116,8 bilhões, situando-se, no final
do período, 54% abaixo do saldo da conta
“Fornecedores”.
Esse cenário confirma a
busca de alternativas, por parte das empresas,
diante das dificuldades creditícias, como
altas taxas de juros e prazos apertados. Sendo
assim, cada vez mais os acordos entre empresas
clientes e fornecedoras têm se mostrado
fundamentais, pois permitem a captação
de recursos em melhores condições
que aquelas oferecidas pelo sistema financeiro,
especialmente os voltados para suprir as necessidades
de capital de giro.
Deve-se destacar o maior conhecimento
existente entre as empresas e os fornecedores
de suas cadeias produtivas como fator chave para
o crescimento do crédito mercantil, pois
favorece o relacionamento e permite maior conscientização
das reais dificuldades e necessidades dos diferentes
segmentos por parte dos concedentes do crédito.
O segmento que mais se vale desse
tipo de financiamento é o comércio.
Isso se dá em razão de sua estrutura,
em que as contas a receber de clientes e os estoques
figuram entre os principais ativos, o que faz
com que o crédito mercantil seja muito
mais representativo e esteja naturalmente relacionado
às atividades operacionais de compra e
venda das empresas comerciais. Soma-se a isso
o fato de que se tratam, em geral, de empresas
de pequeno e médio portes, com menor acesso
ao crédito bancário, que não
se mostra tão disponíveis para operações
de giro em curto prazo. Em 30/06/05, os créditos
mercantis do segmento, correspondentes a R$ 40,8
bilhões, representavam 1,9 vez os financiamentos
bancários (R$ 21,4 bilhões).
Situação contrária
se verifica quando analisamos as indústrias
e as prestadoras de serviços, nas quais
os investimentos em ativos fixos são fundamentais,
como forma de expansão de capacidade produtiva
e tecnológica visando manutenção
da competitividade perante os concorrentes. Devido
à natureza de seus investimentos, essas
empresas são, em geral, tomadoras de recursos
bancários de longo prazo, notadamente do
BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social), cujas linhas de financiamento são
oferecidas a prazos e taxas adequadas aos períodos
de maturação de tais projetos.
Em 30/06/05, os financiamentos bancários
da indústria representavam 1,4 vez os créditos
mercantis. Enquanto os financiamentos totalizavam
R$ 131,9 bilhões, as obrigações
com fornecedores equivaliam a R$ 92,8 bilhões.
No caso das prestadoras de serviços, essa
relação era ainda maior (2,9 vezes),
com as dívidas onerosas chegando a R$ 153,4
bilhões, contra os R$ 52 bilhões
das dívidas mercantis.
Em se tratando de porte, as grandes
companhias levam vantagem nos dois tipos de crédito.
No caso do crédito mercantil, seu maior
poder de barganha junto aos seus fornecedores
permite vantagens na hora das negociações,
seja através de melhores condições
de pagamento ou de prazos mais elásticos.
Tal situação não se aplica
às pequenas e médias empresas, que,
muitas vezes, têm que se sujeitar às
condições impostas por seus fornecedores.
Quando o assunto é crédito
bancário, o cenário é semelhante.
Enquanto as empresas de grande porte contam com
maior oferta de linhas de financiamentos, pois
oferecem maior transparência quando da divulgação
de informações o que permite melhor
avaliação dos riscos e, por conseqüência,
taxas diferenciadas, as pequenas e médias
empresas, sofrem com o crédito mais reduzido,
em parte, devido às poucas informações
que divulgam ao mercado, dificultando uma melhor
avaliação. Alem disso, as altas
taxas de juro afastam as empresas desses portes,
que procuram menor exposição, sob
o risco de não conseguirem cumprir as obrigações
impostas.
Se por um lado a falta de crédito
em condições acessíveis a
todas as empresas limita seus investimentos, afetando
seu crescimento, a falta de transparência
por parte das empresas também não
tem contribuído para que haja uma mudança,
comprometendo a concessão de crédito.
Por outro lado, os bancos e os credores, de uma
maneira geral, já incorporam modelos mais
sofisticados de análise para concessão
de crédito e realização de
negócios, assegurado uma expansão
controlada do crédito. Mas somente com
comportamentos mais flexíveis de ambas
as partes poderemos chegar a um denominador comum,
visando o desenvolvimento não só
das empresas como também do país.
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