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Pesquisas

Lobby da indústria sai da toca e obtém sucesso

Contrariando uma tese comum na literatura - a da debilidade política da indústria - de que o setor empresarial brasileiro é desorganizado na defesa de seus interesses junto ao Congresso Nacional, o cientista político Wagner Pralon Mancuso mostra como o empresariado obteve relativo sucesso, nos últimos anos, na prática do lobby junto a deputados e senadores.
"Na década de 90, as formas de combate à inflação adotadas pelo governo envolveram a redução das tarifas de importação", conta. A medida, segundo o pesquisador, incentivou a concorrência e o empresário brasileiro percebeu que não poderia competir no mercado sem a diminuição do "custo Brasil" - conjunto de fatores desfavoráveis à competitividade. "A partir daí, a indústria organizou um lobby que se mostrou eficiente", diz Mancuso, que é professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP Leste.

Em outubro de 2004, o pesquisador defendeu sua tese de doutorado O lobby da indústria no Congresso Nacional: empresariado e política no Brasil contemporâneo. No estudo, Mancuso descreve como a indústria brasileira se organizou entre os anos de 1996 e 2003 junto à classe política.

De acordo com o pesquisador, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) foi a entidade que encabeçou a iniciativa de encaminhar, anualmente, ao Congresso Nacional a Agenda Legislativa da Indústria. "Este documento, que na verdade é uma publicação, reúne projetos que tramitam no Senado e na Câmara, principalmente aqueles ligados à redução do custo Brasil", destaca Mancuso.

No período analisado, as iniciativas do setor industrial junto à classe política tiveram um relativo sucesso. "Projetos ligados à redução do custo Brasil em áreas como regulamentação da economia e infra-estrutura material (transportes, telecomunicações e energia elétrica), tiveram um bom trânsito no Congresso", avalia. E os resultados positivos fizeram aumentar a participação de diversos setores do empresariado industrial. Mancuso lembra que, no período estudado, foram apresentadas oito agendas legislativas, com cerca de 401 proposições. Em 1996, apenas a CNI comandou a elaboração do documento.

"Em 2003, foram as 26 federações estaduais da indústria, a federação do Distrito Federal, e 33 organizações setoriais de abrangência nacional os integrantes do grupo que elaborou o documento", contabiliza o pesquisador. Atualmente, segundo ele, participam mais de 60 entidades que representam o setor industrial.

Lobby transparente

Mancuso lembra que a prática do lobby junto aos políticos sempre existiu. "Antes era um lobby envergonhado. A agenda, por sua vez, é transparente", afirma. Mas, apesar do relativo sucesso junto às proposições que visavam reduzir o custo da produção, o cientista lembra que os maiores entraves sempre aconteceram com relação às questões tributárias. "Neste campo houve uma relação conflituosa entre governo e empresariado", lembra o pesquisador.

A agenda dos representantes da indústria é lançada anualmente num encontro em que são convidados todos os deputados federais e senadores. "Mesmo após o lançamento, os empresários acompanham o andamento de todos os projetos, bem como a atuação dos parlamentares", conta o pesquisador. Assim, Mancuso classifica as atividades de defesa de interesses dos empresários em cinco categorias: monitoramento, análise, tomada de posição, orientação e pressão. "Cada vez mais o padrão de atuação do setor junto à classe política se assemelha ao comportamento dos grupos de interesse norte-americanos", avalia o cientista. (Agência USP de Notícias)

Mais informações: (11) 3091-1027, com Wagner Mancuso Pralon, na Secretaria do Curso de Gestão de Políticas Públicas da USP Leste. E-mail pralon@usp.br

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