Alimentos pouco saudáveis dominam comerciais de TV

Mais da metade das propagandas de alimentos veiculadas na televisão - que correspondem a um quarto de todo o material publicitário transmitido - faz apelo ao consumo de produtos ricos em açúcar, óleo e gordura. A constatação é da psicóloga Paula Carolina Nascimento, que realizou em seu doutorado um estudo inédito no país sobre a influência da TV nos hábitos alimentares de crianças e adolescentes, pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP.

O quadro global de aumento dos índices de obesidade em crianças e adolescentes motivou a psicóloga a analisar os fatores externos relacionados a esse quadro de nutrição, sendo a televisão seu principal alvo. “Fiz essa escolha por ser uma mídia forte, à qual as pessoas têm maior acesso”, justifica. Foram analisadas 640 horas de propagandas, transmitidas por três emissoras de canal aberto.

Do total analisado, cerca de 26% das propagandas tinham alimentos como temática, sendo que destas, 60% estão relacionadas a alimentos ricos em açúcar, óleo e gordura. “Verificamos uma ausência de frutas ou verduras nessas propagandas”, afirma a pesquisadora. Apesar de não representar uma ligação direta, esses dados apontam para uma relação entre a televisão e hábitos alimentares pouco adequados.

Dieta inadequada

Paula Carolina investigou o estado nutricional e o tipo de alimentação de 816 alunos, de primeira a oitava série, de 12 escolas municipais e estaduais de Ribeirão Preto. O índice de obesidade e sobrepeso encontrado entre os escolares, com base no Índice de Massa Corporal (IMC), foi elevado – 24% –, “o que não deixa de ser um estado de desnutrição, é um desequilíbrio nutricional”, diz a pesquisadora.

A psicóloga identificou entre os alunos uma dieta inadequada, pois apesar de ser composta por arroz, feijão, carne e salada, alimentos presentes na merenda escolar oferecida, ela é insuficiente. “Muitas vezes, a merenda é a única refeição dos alunos”, aponta a pesquisadora. Além disso, a presença de refrigerantes, salgadinhos, bolachas recheadas é maior na dieta dos escolares. “O consumo de frutas e legumes é baixo, e o acesso a verduras acaba restrito a escola.”

Os fatores que determinam a escolha dos alimentos na hora da compra também são elementos importantes para a investigação dos hábitos alimentares. A pesquisadora verificou que os pais não estão acostumados a fazer lista de compras e, “geralmente, compram produtos novos, que eles vêem na TV, do tipo industrializado, prontos para consumo. A hipótese era de que a maioria faria lista e não compraria esse tipo de produto, pois a maior parte dos pais tem baixa renda e baixo nível escolar”, o que permite apontar a influência da TV nessas escolhas.

Da TV para a mesa

É por meio de elementos do cotidiano, criadores de maior identificação, que as propagandas veiculadas pela televisão buscam convencer seu público. A avaliação de 45 comerciais feita por 46 estudantes universitários do campus da USP em Ribeirão Preto, com idade entre 18 e 23 anos, aponta que uma das maiores preocupações está em aproximar o produto do dia-a-dia das pessoas, dentro de um contexto de rapidez e praticidade. As propagandas apresentam alimentos de consumo rápido em situações corriqueiras, como um café da manhã, um lanche da escola ou um jantar romântico.

Além dos diversos recursos audiovisuais empregados para estimular os sentidos, como cores e animação, as propagandas procuram associar ao produto uma personagem que o consome – seja ela representada por uma figura famosa ou não – “de forma a afetar as crianças por meio da imitação”.

O próximo passo das pesquisas de Paula Carolina está sendo planejado para seu pós-doutorado, em que a psicóloga se empenhará em avaliar de maneira direta a associação entre a televisão, seus recursos e os hábitos alimentares. “A idéia é expor crianças a comerciais exibidos pela TV e medir as suas escolhas alimentares”, planeja. (Aline Moraes - Agência USP de Notícias)

Serviço:

Mais informações: e-mail pcarol@usp.br, com Paula Carolina Barboni Dantas Nascimento. Pesquisa orientada pelo professor Sebastião de Souza Almeida

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