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Altos
executivos não têm plano B para o caso
de demissão
02-10-2008
Pesquisa da Lens & Minarelli, detalhando as práticas
de demissão de altos executivos nas maiores e
melhores empresas do país, aponta que
continua elevado o número dos que não
dispõem de um "Plano B", para o caso
de receberem o bilhete azul. O índice gira em
torno de 60%, considerando-se a média das pesquisas
dos últimos quatro anos. Porcentagem similar
é a dos demitidos que, em 2007 e 2008, declararam
que seus cônjuges não trabalham fora, situação
inversa à observada nos anos anteriores, quando
cerca de 56% dispunham de uma situação
de orçamento familiar compartilhado.
"Trata-se de um indício do grau de alienação
desses profissionais", acredita Mariá Giuliese,
diretora-executiva de Lens & Minarelli e coordenadora
do estudo. "Ainda que estejam na roda-viva, cientes
dos movimentos de fusão e aquisição
e das mudanças constantes de cenário,
muitos ainda se apegam a uma falsa sensação
de estabilidade, até porque a demissão
é, para a grande maioria, um episódio
inédito na carreira".
A última versão do estudo abrange o ano
de 2007 e o primeiro semestre de 2008, envolveu 286
executivos e mostra que, embora tenha crescido a consciência
quanto à possibilidade da demissão, o
despreparo para enfrentar o período de transição
ainda persiste.
Dos consultados em 2007 e 2008, 63% estavam vivenciando
a experiência da demissão pela primeira
vez, após um tempo médio de casa de 9,3
anos. No que se refere à percepção
da possibilidade de desligamento, o último período
mostra uma proporção mais equilibrada
entre os que esperavam a demissão (51%) e aqueles
surpreendidos com o fato. Se em 2007, 63% declaravam-se
perplexos diante do rompimento do contrato de trabalho,
em 2008 esse índice retrocedeu para 49%.
Já o sentimento de que a demissão não
foi convincente diminuiu quase 20 pontos percentuais
nos últimos dois anos, o que pode ser indício
de uma maior compreensão quanto às regras
do jogo corporativo no cenário atual. Da mesma
forma, o desequilíbrio que marcava a condução
do processo de desligamento está menor: antes
60% consideravam inadequados os procedimentos na hora
da demissão; hoje, quase 50% avaliam que seu
processo foi bem conduzido. Esse fato não atenua
a sensação de injustiça, que mesmo
retrocedendo quase 10% em comparação a
2006, ainda se mantêm em patamares elevados (74%).
Alívio e resignação
As pesquisas realizadas nos últimos quatro anos
envolveram 645 executivos, entre presidentes, diretores
e gerentes recém-desligados de seus postos. Em
2008, 85% eram do sexo masculino e 79% possuíam
pós-graduação. A série histórica
mostra que a idade média dos demitidos caiu de
cerca de 45 anos em 2006 para 42,5. Um dado relevante
diz respeito à importância atribuída
a língua inglesa: com exceção de
2007, quando 60% dos demitidos declararam ter fluência
no idioma, nos demais períodos a falta dessa
competência estava presente na grande maioria
dos desligados, chegando a 62% dos entrevistados em
2008.
Um dos aspectos mais interessantes do estudo é
verificar como o executivo se sentiu diante do desligamento.
A reação de choque atinge em média
43% dos casos. O percentual restante tem oscilado, ao
longo dos anos, entre a resignação e o
alívio. O conformismo, que em 2007 saltou para
37%, retrocedeu a 14% em 2008, período em que
a sensação de alívio atingiu o
patamar mais elevado (42%).
"Os resultados refletem o nível de estresse
a que são submetidos os profissionais na condução
dos negócios", avalia Mariá Giuliese.
"Sujeitas a mudanças abruptas, as empresas
têm trabalhado por empreitada. Atingir metas e
comandar pessoas nesse ambiente, fazendo com que estejam
engajadas, é uma missão complexa".
Um elemento complicador é o modelo matricial
de gestão, que torna as relações
mais virtuais e dificultam o estabelecimento de vínculos
de confiança e lealdade.
Giuliese relaciona, ainda, outros fatores de tensão:
a competitividade extrema no cenário global;
o desenvolvimento tecnológico que propicia mobilidade
e, por outro lado, aprisiona; a necessidade de aprimoramento
constante para fazer frente às exigências
do mercado de trabalho; a falta de tempo para si e para
a família; a culpa por deixar em segundo plano
a saúde e os projetos pessoais. "Some-se
a tudo isso fato do executivo estar deixando de ser
um empreendedor para assumir o papel de "empreiteiro"
e fica evidente o nível de frustração
e de opressão vivenciado por esses profissionais".
A alternativa para empresas e indivíduos mais
saudáveis passa, segundo a especialista, pela
construção de relações maduras
e de maior harmonia, em que haja espaço para
o respeito e a confiança. "É importante
construir ambientes corporativos que valorizem tanto
a diversidade quanto os projetos individuais, uma vez
que as empresas não têm mais condições
de construir um projeto próprio, pois precisam
mudar a todo tempo, trabalhando por empreitada."
Ela explica: "Ter como referência o plano
pessoal traz segurança ao colaborador, permitindo
que cada um se aproprie de sua carreira e vida para
tornar-se saudável e autônomo, dono de
seu pensar e, portanto, de sua liberdade para efetivamente
empreender".
Abaixo as avaliações sobre as práticas
de demissão nas maiores empresas do país
- 2007/2008 (primeiro semestre):
| A
demissão foi injusta por que: |
Total
% |
| A
justificativa foi insatisfatória e o processo
foi mal conduzido. |
50% |
| Foi
conseqüência de questões políticas. |
12% |
| O
critério foi pessoal e não profissional. |
12% |
| A
demissão é sempre injusta, me senti
injustiçado. |
5% |
| Não
tive condições, infraestrutura e/ou
tempo de mostrar e/ou concluir meu trabalho. |
9% |
| Minha
transferência não foi bem sucedida
ou não quis ser transferido. |
2,5% |
| Poderiam
ter me realocado em outra área da empresa
ou em outra empresa do grupo. |
9,5% |
| A
demissão foi mal-conduzida por que: |
Total
% |
| Faltou
preparo dos demissores, os sinais e a comunicação
foram confusos e até contraditórios,
não houve preocupação com
o "ser humano" que estava sendo demitido. |
62% |
| Os
demissores temiam minha reação emocional |
2,1% |
| Aconteceu
em momento inadequado para a empresa e para a
equipe sob meu comando. |
2,1% |
| A-
Não sei justificar, senti que foi mal conduzida. |
5,3% |
| Os
demissores dificultaram a negociação
da indenização e o reconhecimento
da necessidade dos benefícios. |
6,4% |
| Por
questões políticas fiquei exposto
a uma situação inadequada. |
14% |
| Não
houve tempo para eu comunicar aos parceiros, clientes,
etc. nem para passar o trabalho a diante ou tive
que tomar decisões estratégicas
mesmo depois de negociada a demissão. |
8,5% |
| O
motivo que considero real para minha demissão: |
Total
% |
| Reestruturação
(fusão, aquisição, compra,
venda) |
45% |
| Problemas
de relacionamento |
23,7% |
| Não
sei |
11% |
| Problemas
de desempenho |
15,5% |
| Idade
avançada, tempo de casa avançado
e/ou salário avançado |
4,8% |
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