Especialistas analisam principais impactos da crise

11-12-2008

O mundo passa por uma transformação. A crise financeira global, seu impacto na confiança da população e sua capacidade de escassear o crédito, está modificando o cenário mundial, exigindo novos comportamentos de governos, países e organizações. Como reagirá o Brasil a este novo cenário e como ficarão as relações entre empresas e funcionários nesta nova ordem?

Para responder a esta e a outras questões, a DBM, consultoria especializada em gestão de capital humano em momentos de transição, reuniu seu time de consultores e convidados especiais de sua rede para debater a incerteza e as possibilidades para o mercado de trabalho brasileiro no novo contexto global.

A análise do grupo - do qual participaram Claudio Garcia, presidente para América Latina da DBM, José Augusto Figueiredo, vice-presidente para a AL, e Rogério Chér, vice-presidente de operações da companhia – sugere que ainda estamos num ponto de inflexão. A partir dele, o capitalismo e sua aplicação de modo liberal serão revistos, assim como serão reconsideradas questões sobre a total liberdade econômica dos mercados e a tendência de mínima ou nenhuma intervenção do estado.

O novo mundo que se abre, segundo a avaliação do grupo, é de mais regulamentação por parte das autoridades financeiras, em linha com o modelo já aplicado pelo Brasil. E ainda que a maior regulamentação possa promover mais confiança, não é sensato esperar um cenário na área de crédito igual ao dos últimos anos, pelo menos no curto prazo.

As economias sofrem agora com um choque emocional brutal que as levará para um novo patamar, no qual a euforia acima do normal verificada recentemente tende a não se manifestar. Segundo eles, o mundo será mais comedido.

Nesse cenário, é possível prever desacelerações não apenas financeiras, mas também no lado real da economia, capazes, por exemplo, de afetar setores que, no passado recente, conquistaram funding diferenciado, como os segmentos de construção civil e automobilístico.

Do ponto de vista brasileiro, isso implica possível desaceleração do movimento de solução dos gargalos de infra-estrutura, que demandam investimentos significativos. As oportunidades nos segmentos de construção pesada, infra-estrutura e projetos tendem a se manter elevadas, porém, sem o crescimento acelerado verificado nos dois últimos anos.

Oportunidades e carreira

Os fundos de private equity, por sua vez, ainda devem ter destaque no panorama nacional ao possibilitarem a companhias de todos os setores recursos que substituirão os montantes captados até o passado recente por meio de IPOs. Estas casas de investimentos também tendem a ganhar espaço por sua capacidade de adicionar expertise e gestão às companhias – demanda cada vez mais importante, dado o momento de transição.

Em termos de carreira, o cenário, embora ainda incerto, sugere que os profissionais poderão voltar a valorizar o menor risco e a fazer disso um fator de decisão importante. Ou seja, os postos em empresas sólidas, consideradas grandes, bem posicionadas e capazes de oferecer planos de carreira tradicionais e de longo prazo serão mais procurados.

A conduta, que não condizia com o mercado altamente aquecido que se via há até poucos meses, vinha pouco a pouco sendo abandonada pelo desejo dos executivos médios por vôos mais radicais.

A despeito disso, as carreiras empreendedoras tendem a continuar se afirmando no Brasil, dado o possível benefício a ser conquistado por aqueles que se arriscam, testam e ousam repensar as possibilidades, considerando o novo quadro. Estaremos, na avaliação dos especialistas, vivendo um movimento, dentro de um ciclo, de ajuste ao novo contexto do mundo.

Por meio deste ajuste, o segmento financeiro, por exemplo, deve reduzir seu turn over, até então frenético, e passar a conviver com um ciclo menos veloz. As consolidações na área financeira, ao contrário, tendem a se efetivar mais celeremente, o que pode implicar fechamento de vagas.

Quanto aos salários oferecidos pelas empresas aos profissionais do segmento, eles tenderão a deixar de contar com o impacto de bônus extremamente agressivos. A contrapartida será a ampliação da remuneração fixa – mais alinhada com os novos tempos.

Ainda conforme os executivos das DBM, é importante dizer que o temor diante do risco de mais tempos de “exuberância irracional” definirá uma nova ordem internacional, na qual o papel dos Estados Unidos como principal ator sai de cena. "É algo que já se desenha claramente e com o que já convivemos", avaliam.

Para eles, o cenário de medo já abriu um novo palco diante de nós, no qual países da Europa, Ásia e América Latina conquistaram papéis mais fortes e consideráveis, tanto na gestão da crise e de suas soluções, quanto na promoção de mudanças.

Isso amplia a força das companhias do Brasil, país percebido pela primeira vez internacionalmente como uma parte da solução do problema e não como um membro do grupo de economias a ser salva.

A força da demanda interna e a capacidade de gestão das empresas brasileiras em momentos de crise colocam as multinacionais verde-amarelas num novo patamar. Os profissionais com posições executivas atuantes nelas tendem a se manter valorizados, ao mesmo tempo em que a procura por profissionais para atuar nesse grupo de empresas pode se manter aquecida.

Cenário similar tende a ser verificado entre as subsidiárias de companhias multinacionais no Brasil, que poderão ter seus times ampliados de modo que as empresas aproveitem o momento favorável da economia local para compensar perdas em outros países.

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