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Tese mostra
como a publicidade manipula a cultura dos países
30-04-2008
Os publicitários brasileiros e alemães,
mesmo quando querem vender os mesmos produtos, abordam
o consumidor e são vistos por ele de maneiras
diversas, tanto na expressividade verbal quanto na visual.
A professora Clélia Barqueta comparou as peças
publicitárias das empresas BASF, de produtos
da área química, e a farmacêutica
Pfizer, e chegou às seguintes construções:
o consumidor alemão é levado a se identificar
com a figura mítica do herói, e o consumidor
brasileiro, com a figura da "grande mãe",
a eterna provedora.
A tese de doutorado apresentada na Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas (FFLCH) procurou semelhanças
e diferenças nos percursos argumentativos lingüísticos
e visuais das peças veiculadas pelas duas empresas
no ano de 2005 e tomou como referência as revistas
Veja, do Brasil, e Der Spiegel, da Alemanha. A pesquisadora,
cujo direcionamento inicial na pesquisa era o conteúdo
textual, reforça a importância dos aspectos
gráficos na publicidade: “Existe uma gramática
visual que não é ensinada nas escolas,
mas é muito usada na publicidade. As pessoas
não se dão conta, estão indefesas
quanto a essa estratégia de argumentação”.
A BASF e a Pfizer foram escolhidas por sua forte presença
nos dois países, assim como pelo fato de serem
empresas com características bem distintas. “A
BASF, por produzir isopor, tintas, derivados de petróleo,
tem como público-alvo o coletivo, e usa de recursos
argumentativos para se colocar perante o coletivo. Já
a Pfizer, fabricante do Viagra - famoso medicamento
contra disfunção erétil -, constrói
discursos mais velados, baseados no íntimo, na
sexualidade”, explica Clélia.
Outra diferença que permeia o trabalho reside
em como publicitários alemães e brasileiros
acionam elementos míticos para criar a relação
entre empresa e consumidor. Na publicidade alemã,
há constante referência ao herói,
“que resolve seus problemas sozinhos, sem necessidade
de um elemento paternalístico”. As propagandas
brasileiras incentivam a agregação social
e familiar, de modo que a empresa seja vista como uma
“grande mãe” para seus consumidores.
Exemplo claro dessa dicotomia é a campanha do
medicamento Viagra. Na Alemanha, de acordo com Clélia,
o esquema discursivo se baseia na frase “eu quero,
eu consigo” ("Ich will, ich kann"),
em que um homem “encara o público clara
e fixamente, questionando-o”, corroborando esse
slogan por meio de uma construção visual.
A figura feminina aparece com os olhos fechados e não
toma parte na luta do herói. “O medicamento
proporciona ao homem a vitória, que no caso é
uma relação sexual satisfatória,
enquanto a mulher não participa dessa luta”.

Propaganda alemã do Viagra, com
o slogan "Ich will, ich kann"
("Eu quero, eu consigo")
O mesmo não ocorre na campanha brasileira.
O herói não aparece e a peça é
centrada no casal, com uma figura feminina marcante.
“A mulher proporciona ao elemento masculino a
segurança e a força e faz com que o homem
vá ao encontro do remédio, ela é
quem impulsiona o sucesso”. Além disso,
o casal retratado é tradicional, com destaque
para a aliança da esposa, o que a pesquisadora
define como símbolo de “uma relação
legalizada pelas instituições, com carga
familiar e de proteção feminina, levando
a uma idéia de indissolubilidade da relação”.

Propaganda brasileira do Viagra:
figura feminina marcante
Nas peças analisadas, outra variação
encontrada está ligada ao “ethos”,
isto é, à autoridade conferida pelo expectador
ao locutor a partir das impressões que este passa
de maneira implícita, a partir de suas escolhas
lingüísticas, de apresentação
visual e carga emocional. O material alemão evoca
a solidariedade, a igualdade entre a empresa e seus
interlocutores. O brasileiro, porém, se baseia
na humanidade, em que a compaixão da companhia
por seus consumidores invoca uma espécie de “paternalização”.
“Esse conceito é solidificado com a apresentação,
por intermédio da propaganda, de projetos sociais
e ecológicos”, aponta Clélia. (Luigi
Parrini - Agência USP de Notícias)
Mais informações: e-mail cbarqueta@uol.com.br,
com Clélia. Tese orientada por Eva Maria Ferreira
Glenk
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