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Opção
por trabalho informal não é feita por
acaso
29-02-2008
Estudo do Instituto de Psicologia (IP) da USP mostra
que a trajetória dos trabalhadores da economia
informal não é aleatória. As escolhas
neste setor são motivadas pela avaliação
das opções encontradas no mercado formal
e informal, pelas relações pessoais e
adesão a valores como a cultura do emprego. “Isso
faz com que as pessoas não apenas apontem condições
favoráveis em ocupações informais,
mas também façam críticas a aspectos
do emprego registrado”, aponta a psicóloga
Katia Ackermann, autora do estudo.
A psicóloga entrevistou trabalhadores de baixa
renda em Osasco (Grande São Paulo) e em São
Mateus (Zona Leste de São Paulo). “As histórias
de vida dizem muito sobre o modo com que encaram a questão
do trabalho e do emprego”, ressalta. “A
pesquisa descobriu valores comuns, mas vistos de formas
diferentes, como a cultura do emprego e a ética
do trabalho, e uma grande influência das redes
de sociabilidade, como familiares e amigos”
A cultura do emprego tem a ver com uma suposta garantia
de estabilidade e segurança trazida pelo trabalho
registrado. “Cristiane (nome fictício),
uma das entrevistadas, que aos 21 anos nunca trabalhou
com carteira assinada, disse que seu maior desejo era
ter um emprego formal”, conta a pesquisadora.
Ao mesmo tempo, pessoas com experiência em profissões
formais se queixaram de problemas nesses empregos, como
exigências de qualificação, humilhações,
não pagamento de horas extras, tarefas repetitivas
e impossibilidade de maiores ganhos. “Houve muitas
reclamações sobre as condições
de trabalho em empresas de terceirização
de serviços”, aponta a psicóloga.
Racionalidade
Katia observa que mesmo na economia informal, existe
uma racionalidade por trás da escolha das ocupações,
motivada pelas condições do mercado, adesão
a valores e presença das relações
pessoais. “Cristiane se mantém na informalidade
porque não consegue comprovar experiência
para conseguir emprego, mesmo trabalhando desde os 12
anos”, conta. “No caso de Sônia, 40
anos, vendedora de porta em porta, o nascimento dos
filhos fez com que ela abandonasse o emprego numa tecelagem
para ter um horário de trabalho mais flexível”.
A trajetória de Cristiane é um exemplo
da influência das relações interpessoais
para a inclusão no mercado de trabalho, informal
ou não. “Ela começou a trabalhar
no sacolão de um primo aos 12 anos, e depois
foi feirante e vendedora de trufas na companhia de outra
prima”, conta a psicóloga. “Além
de vender os doces num mutirão em São
Mateus, Cristiane começou a fazer serviços
passados por um amigo e também passou a substituir
moradores nas tarefas do mutirão, mediante pagamento”.
A psicóloga ressalta que as relações
pessoais entre os entrevistados “são sedimentadas
pela dádiva, ou seja, o vínculo torna-se
mais importante do que a indicação de
trabalho em si”. Os contatos forneceriam a segurança
de não estar desprotegido, mesmo desempregado.
“Chico, de 46 anos, que fazia serviços
de construção civil mesmo quando trabalhava
com registro em indústrias, conseguiu ampliar
sua clientela por meio de indicações de
pessoas para quem fazia reformas e pinturas”.
Duas pessoas que trabalham como vendedores de porta
em porta disseram valorizar muito as amizades que fazem
com a clientela. “Elas vêem o trabalho autônomo
como uma possibilidade de ganharem mais dinheiro se
trabalharem mais, o que não seria possível
em um emprego com registro”, observa Katia. “Na
pesquisa, a ética do trabalho se manifestou como
uma ‘ética do provedor’, ligada à
idéia de que o trabalho moralmente superior é
aquele que consegue sustentar o grupo familiar”.
(Júlio Bernardes - Agência
USP de Notícias)
Mais informações: (0XX11)
9573-6700, com Katia Ackermann. Pesquisa orientada pela
professora Leny Sato
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