Geração "game over" trava no mercado de trabalho

02-01-2009

Em períodos de instabilidade, como observamos hoje, tem destaque aqueles profissionais com iniciativa e resiliência para superar as previsões pessimistas e manter-se em marcha, promovendo seu autodesenvolvimento e o de suas empresas e times.

Seria um cenário propício para os jovens talentos que acabam de ingressar como trainees em grandes empresas, com o ímpeto de inovar, não fosse o fato de que alguns deles, por falta de preparo para entender e lidar com as regras do ambiente empresarial, operam com expectativas equivocadas em relação ao que o mundo corporativo pode lhes ofertar.

São jovens que se mantêm por pouco tempo em seus empregos e os abandonam assim que ocorre a primeira (e dramática) insatisfação. A percepção de que este fenômeno é algo geracional conquista cada vez mais adeptos, assim como a crença de que este movimento diz respeito à falta de orientação profissional na adolescência.

A criação de enormes expectativas em relação ao mundo corporativo no período de formação destes jovens fez com que, independentemente de saírem de suas faculdades empregados ou não, desistam rapidamente de acumular experiência profissional nas empresas em que atuam por estarem diante de uma situação totalmente diferente daquela que esperavam ou por esperar salários e condições de trabalho muito melhores do que as ofertadas no mundo real.

Esse movimento de fuga daquilo que não condiz com as altas expectativas é protagonizado por jovens que formam uma geração que pode ser chamada de “game over”. Se o "jogo profissional" não dá o resultado esperado, é hora de começar outra partida, em outro cenário e com o placar zerado.

A geração game over é composta por jovens, com idades entre 21 e 28 anos, que tinha o videogame como um de seus passatempos preferidos e que, a cada situação de descontentamento ou frustração tinham a opção de desligar o console e reinicar o jogo e o seu momento de lazer. Eles cresceram convivendo com a idéia - amplamente propagada nas escolas - de que o mercado é amplo e oferece múltiplas oportunidades a todos. Basta procurar seu lugar no mundo para achá-lo. O que é verdade, porém, devemos considerar o fato de que este lugar ao sol é construído paulatinamente.

“São jovens que atuam no mercado e que muitas vezes se comportam demonstrando indiferença e menor controle emocional em situações de maior estresse. Eles tendem a ser arredios e a assumir o comando mesmo sem a autorização de seus gestores ou capacidade para ir adiante”, diz Fátima Rossetto, consultora da DBM, empresa especializada em gestão de capital humano.

“Quando se frustram com a situação que vivenciam ou com a resistência que lhes é oferecida, eles não buscam vencer as dificuldades e os desafios do ambiente corporativo. Não criam as suas oportunidades, tão pouco aprendem com a experiência. Acreditam que elas estão em algum ponto, esperando por eles. Devido ao padrão com o qual conviveram, sua primeira opção é desistir. Por esse motivo alguns chegam até a refazer a escolha acadêmica ou, em certos casos, continuam procurando estágio durante anos”, explica.

Se as escolhas destes jovens provocam novos contextos para suas carreiras, elas também promovem alterações no mercado de trabalho. “As empresas contratantes começam a buscar estratégias mais complexas para seus programas de trainee ou novos caminhos para entender este novo tipo de profissional”, diz Fátima. “Com a confiança e o investimento em novos profissionais afetados, elas se ressentem. Afinal, perderam profissionais que tinham acabado de acolher e de treinar”.

A consultora dá algumas dicas para os jovens que não desejam correr o risco de tornarem-se vítimas do comportamento dos “game over”. “O primeiro passo é participar de palestras sobre profissões, buscar contatos com os profissionais das áreas de interesse e principalmente estar aberto para escutar os mais experientes”, diz.

“Uma imagem madura é essencial para ajudá-los a construir consistência e desenvolver seu talento na hora de fazer as escolhas profissionais. Os pais devem alertá-los para as implicações futuras de decisões precipitadas como sair do emprego porque algo não está agradando. Devem estimular movimentações bem fundamentadas e estudadas, não dizer a eles o que fazer e sim ajudá-los a pensar em quais são os possíveis desdobramentos da decisão que estão tomando”, explica Fátima.

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