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Readaptação
de dekasseguis é difícil na volta ao Brasil
11-05-2009
Para os dekasseguis que vão para Japão
na esperança de melhorar suas condições
de vida no Brasil, o retorno pode não ser tão
fácil. “Há uma série de conflitos,
principalmente em relação à sua
própria identidade”, descreve a psicóloga
Laura Satoe Ueno. Em sua dissertação de
mestrado, defendida no Instituto de Psicologia (IP)
da USP, ela descreve as experiências de 11 dekasseguis
que retornaram ao país e participaram de um workshop
do Serviço de Orientação Intercultural
do IP, da qual Laura faz parte.
O tempo médio de permanência dos participantes
no Japão foi de sete anos. Nos extremos do grupo,
um deles permaneceu por um ano, enquanto outro viveu
lá durante 15 anos. Todos eram adultos e alguns
deles consideravam a possibilidade de retorno ao Oriente,
embora essa alternativa fosse carregada de conflitos.
Laura realizou uma intervenção breve,
no formato de um workshop, o que possibilitou grande
participação de todas as pessoas. Entre
as atividades, a troca de experiências, ilustrações
relacionadas às culturas dos dois países
produzidas pelos participantes e a exibição
de um documentário sobre o tema. O workshop aconteceu
no bairro paulistano da Liberdade, conhecido reduto
da colônia oriental na cidade.
Laura conta que o Serviço de Orientação
Intercultural do IP já prestava atendimento a
outras pessoas nessas condições. “Esse
tipo de atendimento dura em média 12 semanas,
e o interessado passa pelo serviço uma vez por
semana”, conta. No workshop, Laura pôde
apresentar aos dekasseguis alguns conceitos teóricos
da psicologia. “Eles puderam entender teoricamente
o que estava acontecendo com eles. Assim, conseguiram
modificar suas representações simbólicas
em relação ao que estava lhes acontecendo”,
ressalta. Além disso, as outras atividades possibilitaram
maior interação entre a psicóloga
e os participantes. Formou-se um “grupo de apoio
social”.
Decisão repentina
A psicóloga relata que as pessoas têm
maior consciência de que é necessário
preparar-se para a ida. Mas isso nem sempre ocorre.
“Em alguns casos, a decisão chega a ser
repentina. Por isso, ao retornarem não há
nem mesmo a percepção da mudança
implicada no processo”, conta Laura. “Um
dos aspectos mais observados foi a decepção
destas pessoas em relação a situação
política, econômica e social em seu retorno”,
destaca. “O workshop foi realizado no ano de 2007
e eles vinham de um país estabilizado, onde os
sistemas de serviço público é muito
organizado e satisfatório”, lembra. Ao
retornarem ao Brasil viviam uma realidade com a qual
já não estavam mais acostumados.
Laura conta que muitas destas pessoas estavam desorientadas
principalmente em relação à readaptação
familiar. Além do mais, segundo ela, não
é comum entre famílias de orientais ou
descendentes a busca por atendimentos psicológicos.
“Nessas culturas, apenas o adoecimento físico
é algo permissível. A perda de equilíbrio
mental é compreendida como falta de autocontrole,
algo que envolve força de vontade da própria
pessoa. O adoecimento associado aos distúrbios
mentais e desvios de comportamento são problemas
que devem permanecer reservados ao âmbito privado
da família, sem interferência externa”,
explica.
Segundo a pesquisadora, outro fator complicador para
os que retornam é o sentimento que há
na própria comunidade em relação
a eles. “Em alguns casos, as pessoas das comunidades
orientais, principalmente as mais tradicionais, não
os vê como vencedores. Basta que não consigam
o sucesso desejado para serem vistos como fracassados,
perdedores. Esse sentimento acaba dificultando ainda
mais a readaptação dos dekasseguis no
Brasil”, afirma. “Além do mais, nestas
comunidades, estas questões sequer são
discutidas, mas o sentimento ocorre”, garante
Laura.
Outro fator que também dificulta a readaptação
são os filhos dos dekasseguis. Muitos nasceram
no Japão e estão plenamente acostumados
com a cultura de lá. Isso irá refletir
no ambiente familiar. “O estudo mostra também
o conflito em relação à cultura
dos dois países. “Há o conflito
entre ser japonês ou brasileiro mesmo antes de
a pessoa deixar o Brasil e isso chega a ser algo comum
entre os nipo-descendentes que convivem com as duas
culturas”, descreve. O estudo Migrantes em trânsito
entre Brasil e Japão: uma intervenção
psicossocial no retorno, foi orientado pelo professor
Geraldo José de Paiva, do Departamento de Psicologia
Social do IP da USP. (Antonio Carlos Quinto - Agência
USP de Notícias)
Mais informações: (11) 3272-9760, com
Laura Satoe Ueno; e-mail: laura.s@usp.br
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