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Gastos do governo não
contribuem para o crescimento
25-03-2009
Um pesquisa da Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade de Ribeirão Preto(FEARP) da USP
construiu uma série temporal inédita,
que relaciona os gastos das três esferas da administração
pública às suas atividades fins. Os resultados
indicam que a opção dos últimos
governos por limitar os investimentos nos setores de
infraestrutura e por concentrar a tributação
sobre impostos e contribuições incidentes
sobre a renda e o faturamento podem ter dificultado
o processo de crescimento no Brasil.
Segundo o autor da pesquisa, Gedir Silva de Souza,
auditor da Receita Federal, o estudo constatou que os
gastos produtivos estão relacionados positivamente
ao crescimento econômico, principalmente àqueles
vinculados à formação de capital
humano e capital físico. "Ao mesmo tempo,
os gastos ditos improdutivos (como previdência
e assistência social, por exemplo), não
colaboram para o processo de crescimento", afirma
o pesquisador. A pesquisa foi orientada pelo professor
Sérgio Kannebley Júnior.
A constatação baseou-se na análise
de dados do orçamento público, segundo
a classificação funcional, os quais foram
organizados em séries de tempo para o período
de 1980 a 2007, e cuja construção fora
um dos principais frutos do trabalho, uma vez que tais
séries não se encontram disponíveis
nos institutos de pesquisa do Brasil. As séries
para o chamado orçamento função
apresentam-se, ainda, consolidadas para todas as esferas
de governo: União, estados, municípios
e Distrito Federal.
Os pesquisadores constataram que os gastos improdutivos
apresentam uma trajetória de crescimento acentuada
após a promulgação da Constituição
brasileira de 1988. "Isso se deu, principalmente,
em função dos gastos sociais, pois a constituição
ampliou os direitos do cidadão, principalmente
nas áreas previdenciária e de assistência
social”, diz Souza. Esses gastos são, segundo
o estudo, os de maior impacto. "Na previdência,
por exemplo, o governo tem uma fonte de gastos permanente,
devido a conquista de benefícios por categorias
que nunca contribuíram para tal e, portanto,
não tinham o direito a aposentadoria", acrescenta
Bolsa Família
O professor da FEARP aponta que programas como o Bolsa
Família somente contribuirão para o crescimento
do País se esse gasto manter as crianças
das famílias beneficiadas por maior tempo na
escola, contribuindo para a formação de
capital humano. “O ponto fundamental para o aumento
do fator produtivo é o aumento do rendimento
do trabalho e do capital", ressalta . "Os
programas do governo são, normalmente, apenas
transferências de renda. Nem sempre aumentar o
consumo aumenta o capital. O efeito ocorre sobre a demanda,
uma solução de curto prazo.”
Segundo o professor Kannebley, as taxas de crescimento
da economia brasileira no período analisado foram
modestas se comparadas à média das mesmas
taxas para o resto do mundo e ainda mais desfavoráveis
quando a comparação se dá em relação
aos países em desenvolvimento. "Tradicionalmente
a explicação desse quadro acima estaria
relacionada aos sucessivos aumentos dos gastos públicos,
que tenderiam a deslocar o investimento privado",
explica. "Como conseqüência, modelos
tradicionais para crescimento econômico sugerem
que o corte no nível de tais gastos pode ajudar
a retomar os níveis de investimento privado.”
Por outro lado, segundo os pesquisadores, novos modelos
de estudos indicam que o gasto público pode servir
como insumo na função de produção
do setor privado e que a política tributária
pode ter efeito restritivo sobre o crescimento da economia.
O estudo discutiu a veracidade dos novos argumentos
quando aplicados à realidade brasileira, usando
o modelo teórico proposto pelo economista norte-americano
Robert Joseph Barro, em 1990.
“Esse modelo relaciona o impacto da política
fiscal ao crescimento econômico. É um modelo
de crescimento econômico em que os gastos públicos
podem acabar por influenciar as decisões de investimento
e oferta de trabalho dos agentes econômicos, o
que não acontecia em modelos tradicionais para
crescimento", diz Gedir Souza. "O que Barro
mostra é que na verdade o governo, por intermédio
dos gastos, pode ter uma conduta propulsora e, ainda,
uma capacidade de distorcer as decisões de investimento,
através da tributação.”
Kannebley afirma que o resultado do trabalho é
um grande direcionamento para a política fiscal.
"O governo tem que administrar a evolução
de gastos e receitas públicas de modo a priorizar
os gastos de natureza produtiva financiados por uma
estrutura tributária menos distorcida",
alerta. "No médio prazo, os gastos assistenciais
e previdenciários não podem ser reduzidos.
É necessário atuar de uma forma indireta,
potencializando-se os gastos produtivos de forma a que
estes potencializem o PIB, para que no longo prazo a
relação gastos improdutivos pelo PIB possa
declinar.”
(Fonte: Rosemeire Soares Talamone, do Serviço
de Comunicação Social da Prefeitura do
Campus de Ribeirão Preto - Agência USP
de Notícias - Mais informações:
(16) 3602-3522 / 4849)
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