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Contra preconceito, jovem
da periferia investe na aparência
29-04-2009
Apesar dos poucos recursos, os jovens da periferia
gastam seu dinheiro principalmente em cuidados com a
aparência. A escolha é uma tentativa de
fugir dos preconceitos que sofrem e serem aceitos pelo
seu grupo social e pela sociedade. A cientista social
Paula Nascimento da Silva pesquisou o tema em seu mestrado,
concluído em 2008, pela Faculdade de Educação
(FE) da USP como bolsista da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp).
Paula estudou o Grupo de Assistência Social Bom
Caminho, na periferia da Zona Oeste de São Paulo.
A instituição trabalha com cerca de 160
jovens da comunidade, discutindo educação,
família, saúde, violência e outros
temas. “Eu entrei na instituição
como voluntária e, durante quatro anos, além
das atividades sociais, realizei entrevistas e questionários,
com jovens de 13 a 21 anos, sobre consumo e assuntos
relacionados”, conta.
O objetivo da pesquisa foi identificar quais bens de
consumo eram privilegiados por esses jovens e o porquê.
Pelas entrevistas, Paula constatou que os jovens privilegiam
o vestuário e objetos que compõem a aparência
pessoal, como tênis, roupas, produtos de cabelo,
cosméticos etc.. Uma das perguntas realizadas
foi o que o jovem compraria se tivesse R$ 500 à
mão naquele momento. Apesar de aparecerem respostas
como ajudar a família, as contas da casa ou comprar
alimentos, predominaram os gastos com a aparência.
Falta de emprego
Diferentemente do jovem de classe média e alta,
que não tem grandes dificuldades para conseguir
trabalho ou estágios, o jovem da periferia geralmente
não tem emprego formal, a maioria faz bicos eventuais.
Com o tráfico e outras atividades ilegais —
sempre mais presentes que para outros grupos sociais
— eles podem ganhar mais dinheiro em bem menos
tempo. “A questão que eu levantei foi:
por que esses jovens arriscam a vida para ganhar dinheiro
e gastam com coisas aparentemente supérfluas,
como tênis de marca, roupas, festas e baladas?”,
questiona a pesquisadora.
A resposta é que esses jovens especificamente
são estigmatizados como marginais, que não
trabalham. Há assim um preconceito muito forte
da sociedade em geral, mas se ignora que eles têm
uma vitimização muito maior que em outros
setores e faixas etárias da sociedade. Por exemplo,
o Brasil tem uma taxa de homicídios violentos
de cerca 48 casos para cada 1.000 mortes na população
geral. Na periferia de São Paulo, entre os jovens
do sexo masculino, essa taxa sobe para 106 casos.
A pesquisa de campo mostrou que, quando os jovens saem
da periferia, eles sofrem esse olhar de discriminação.
“Um exemplo típico é quando ele
vai ao shopping e o segurança o aborda perguntando
o que ele está fazendo ali”, explica Paula.
“Pensando nisso, percebi que o consumo está
diretamente ligado ao preconceito”. A tentativa
em mudar a aparência é também uma
tentativa de fugir desse estigma negativo que existe
em relação ao jovem da periferia.
Assim, a pergunta inicial está respondida: porque
o jovem privilegia bens de consumo aparentemente desnecessários?
A pesquisa mostrou que vestuário e aparência
não são gastos supérfluos para
o jovem da periferia, muito pelo contrário. “Como
eles são excluídos pela sociedade, vivendo
sem segurança, saúde e educação,
as possibilidades de construir um futuro estão
muito distantes. Nesse contexto, o consumo ligado à
aparência traz resultados mais rápidos
e evidentes”, explica a pesquisadora.
Alternativas à exclusão
Ao invés de construir uma formação,
o jovem, para fugir dos estereótipos e ser aceito
em seu próprio grupo, tenta aparentar algo mais
próximo do que a sociedade aceita e valoriza.
Paula esclarece que o jovem nessa faixa etária
tem fragilidade e a necessidade de reconhecimento e
aceitação. "E esse reconhecimento
se dá pelo que o jovem tem materialmente, pois
vivemos numa sociedade de consumo”.
Segundo a socióloga, falta ao poder público
não apenas conscientizar esse jovem, para que
ele use seus poucos recursos em algo mais necessário
e construtivo, mas, principalmente construir melhores
condições de educação, saúde,
alimentação e moradia. "A sociedade
exige que ele esteja inserido nesse imperativo social,
e seria insensato exigir que o jovem da periferia nade
contra a corrente da sociedade de consumo e ainda vença
os muitos preconceitos que sofre", diz. (Paulo
Roberto Andrade - Agência USP de Notícias)
Serviço:
Mais informações: (11) 8293-4524, email
paulacs@usp.br,
com a socióloga Paula Nascimento da Silva
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