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Bebida destilada causa
dependência maior do que cerveja
22-09-2009
Alcoolistas que preferem bebidas destiladas, como uísque,
cachaça ou vodka, têm uma dependência
de álcool mais grave, aderem menos a tratamento
para parar de beber e têm mais recaídas,
quando comparados aos que preferem cerveja. A conclusão
é de um estudo da Faculdade de Medicina da USP
(FMUSP), que ressalta a possibilidade de tratamentos
diferentes serem mais eficazes para viciados que preferem
um dos dois tipos de bebidas.
“O estudo foi o primeiro no mundo a relacionar
a preferência por uma bebida e a aderência
ao tratamento”, diz o psiquiatra Danilo Baltieri,
que trata alcoolistas há 12 anos e coordenou
a pesquisa. “Contudo, mais pesquisas precisam
ser feitas para saber se os resultados valem para a
população toda ou só para aquela
amostra”.
A pesquisa foi parte de um estudo que testou dois tipos
de remédios em 100 consumidores de destilados
e em 53 que preferiam cerveja. As pessoas que bebiam
destilados aderiram menos aos tratamentos, independente
dos remédios usados. Além disso, elas
tinham uma dependência mais grave e a vontade
de beber, chamada de fissura pelos médicos, era
maior. Já os pacientes que preferiam cerveja
ficavam mais tempo sem beber e sofriam menos com isso.
A descoberta discorda de estudos anteriores, que verificaram
uma fissura maior em bebedores de cerveja.
“Nós usamos uma escala para medir o nível
de dependência”, informa Baltieri. “O
prejuízo físico, psicológico e
social dos que bebiam destilados era mais grave dos
que os que preferiam cerveja. Durante o tratamento com
remédios eles tinham mais recaídas”.
Segundo estimativas feitas em 2005 por pesquisadores
da UNIFESP, 12,3% da população brasileira
das grandes cidades é dependente de álcool
— ou seja, bebe mais do que pretendia, perde interesse
por outros assuntos, consome progressivamente maiores
doses de bebida e podem sofrer crises de abstinência.
Atualmente, os médicos não tratam de
forma diferenciada quem bebe cerveja ou destilados.
A idéia de separar durante o tratamento grupos
que consomem bebida diferentes é nova, originada
de pesquisas dos últimos cinco anos.
Tratamentos
Na opinião do psiquiatra, é possível
que quem bebe destilados e procure ajuda médica
já tenha tido tantas experiências ruins
que tenha uma crença menos otimista em relação
a um novo tratamento. “Se isso for verdade, os
médicos deveriam fazer um apoio mais intenso
na abordagem cognitivo-comportamental”.
O que Baltieri quer dizer é que os profissionais
de saúde precisariam analisar com mais profundidade
o comportamento desses pacientes e trabalhar para ajudá-los
a prevenir a recaída. “Eles podem auxiliar
o alcoolista a mudar seu estilo de vida. Devem ajudá-lo
a manejar e a desenvolver habilidades sociais, para
que possa ter outros prazeres. É provável
que o doente tenha que fazer novos amigos, mudar de
grupo”.
Parece haver consenso entre os especialistas que a
associação de terapia psicológica
com remédios é a melhor maneira de tratar
quem tem problemas com álcool. O médico
explica que tanto dependentes de álcool que preferem
cerveja quanto aqueles que preferem destilados têm
chance de se recuperar. “O sucesso do tratamento
depende da família, da pessoa e da proposta de
tratamento, que deve ser individualizada”.
Mas quem trata precisa mostrar para a pessoa que ela
tem responsabilidade pelos seus comportamentos. Baltieri
conta que, se um alcoolista perguntasse para ele por
que investir num novo tratamento, quando muitos outros
já deram errado, ele devolveria a pergunta. “Eu
diria: vale a pena investir no lado saudável
que você ainda tem? Provavelmente o álcool
tem consumido progressivamente este seu lado saudável,
mas sempre resta algum ainda gritando por sobrevivência”.
A pesquisa foi feita com doentes voluntários
que se inscreveram no setor de assistência do
Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e
Drogas (PRO-GREA) do Instituto de Psiquiatria (Ipq)
do Hospital das Clínicas (HC), da FMUSP. O grupo
está procurando alcoolistas que queiram receber
tratamento e participar de pesquisas. Além do
álcool, os pacientes só podem estar viciados
em cigarro. Interessados devem ligar para o (11) 3069-6960.
(Agência USP de Notícias)
Mais informações: (11) 3069-7891/92
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