Adolescentes puxam endividamento das famílias

02-02-2010

Os desejos de consumo dos adolescentes estão levando as famílias brasileiras ao endividamento. Estudo da Kantar Worldpanel (ex-LatinPanel), empresa de pesquisas de consumo domiciliar, revela que os lares com jovens entre 12 e 19 anos estão no vermelho e gastam em média 5% a mais do que conseguem ganhar a cada mês. Já as famílias que não têm jovens em sua composição conseguem poupar 5% da receita mensal.

O furo no orçamento vem de gastos que buscam atender aos desejos dos teens. Nos lares com jovens, as famílias gastam 43% a mais com vestuário do que nos domicílios sem adolescentes. A vontade de falar com os amigos também pesa no orçamento. A conversa "fiada" ao telefone e o uso intensivo de internet e outros meios de comunicação faz com que as famílias com adolescentes tenham dispêndios com este tipo de serviço 9% superiores aos dos demais domicílios do país.

O consumo de alimentos e bebidas fora do lar também pesa no orçamento. As saídas com a galera resultam em gastos 10% superiores com estes itens nas famílias com teens em sua composição.

As classes AB são as que "mimam mais os filhotes" na fase da puberdade e início da vida adulta. Neste faixa, as famílias gastam em média 8% a mais do que ganham por conta de despesas com o consumo dos filhos.

Gastos individuais

A pesquisa revelou também que os adolescentes das classes AB são os mais descontrolados com o orçamento, enquanto os jovens das classes C,D e E administram melhor os recursos que recebem da família ou de seus ganhos pessoais no mercado de trabalho.

Os jovens da AB gastam 14% a mais do que ganham (mesada, salário ou outros rendimentos). Ao contrário, os teens de classe C economizam 32% do que ganham. Na baixa renda (DE) a economia é ainda maior e chega a 48% do dinheiro recebido.

Aparência

A preocupação com a aparência e de como serão vistos pelos colegas é o motor do consumo dos teens. A pesquisa revela que 23% dos gastos individuais dos adolescentes se dá com a compra de roupas. Educação vem em segundo lugar, com 19% de participação. Alimentação fora do lar e o transporte público ficam com 12% do total cada.

“O jovem tem uma grande preocupação com a aparência, pois isso conta muito para o seu sucesso nos relacionamentos sociais. Desta forma, o item vestuário se torna fundamental e encabeça a lista das preocupações desse perfil de consumidor”, explica Christine Pereira, diretora comercial da Kantar Worldpanel.

Os jovens gastam em média, por ano, R$ 308,00 com lazer. Deste total, 27% são utilizados para a compra ou aluguel de CDs, DVDs de filmes e de videogames. As idas ao cinema consomem 19% dos gastos, as baladas e shows ficam com 11%, parques temáticos com 8%, mesmo patamar do que é destinado aos artigos esportivos.

Segundo a pesquisa, salgados, lanches e sanduíches estão presentes no cardápio de 56% dos jovens entrevistados, representando um gasto médio anual de R$ 190,00. O mesmo acontece com balas, sorvetes, biscoitos, pipoca e outras guloseimas, que fazem parte do dia-a-dia de consumo de 52% dos teens, representando um gasto médio anual de R$ 130. “Definitivamente, não se preocupam com a boa alimentação fora de casa”, diz Christine.

Computador e internet

Outro diferencial dos lares com presença de jovens está no uso da tecnologia. O computador está presente em 32% dos domicílios com teens, percentual 10 pontos percentuais superior ao dos demais lares do país.

O mesmo fenômeno ocorre com a internet, que está presente em 26% dos lares com jovens, ante 19% das famílias sem adolescentes. A TV por assinatura está presente em 16% dos domicílios com teens, contra 14% em casas sem, e a banda larga está presente em 31%, ante 22%.

Loucos por inovações, a grande maioria dos jovens – 88% entre os indivíduos de 14 a 18 anos – possuem telefone celular no Brasil. Mais da metade, 58%, compram aparelhos de até R$ 200,00. Outros 32% adquirem de segunda mão. Além disso, 57% dos adolescentes trocam de aparelho a cada 14 meses.

Além de serem adeptos ferrenhos do telefone celular, os jovens também buscam por inovações em serviços, sendo os principais usuários das ferramentas de comunicação disponibilizadas pelas operadoras de telefonia móvel. Hoje, 80% dos jovens usam SMS, ante 73% dos demais usuários. 24% dos adolescentes enviam fotos pelo celular, ante 18% das pessoas de outras idades. Outros 25% de teens fazem download de jogos, contra 17% dos demais consumidores. “O jovem gosta de tecnologia e novidade. O celular é um prato cheio para isso”, conclui a executiva.

Demografia e renda

As famílias com presença de jovens (idade entre 12 e 19 anos) representam hoje 36% dos domicílios do país, o correspondente a 16,2 milhões de lares, nos quais a renda domiciliar é, em média, 6% superior à renda de uma família sem adolescentes e os gastos médios 19% superiores (R$ 48 bilhões), o que as torna um nicho de mercado extremamente atrativo. Segundo a pesquisa, a renda média individual de cada membro de uma família com jovens é de R$ 218,00. O gasto médio é de R$ 196,00.

Carrinho de compras

As famílias compostas por adolescentes das classes A/B colocam 41 categorias em seu carrinho de compras, quatro a mais do que os núcleos familiares sem jovens. O mesmo ocorre nas classes D/E, que compram seis categorias a mais.

Os produtos que mais se destacam nos carrinhos das famílias com jovens são catchup (23%), leite aromatizado (20%), massa instantânea (13%), salgadinhos (9%), desodorante (9%), modificador de leite (9%), suco em pó (8%) e maionese (7%). “São itens práticos, rápidos e saborosos”, explica a executiva.

Há ainda uma lista de produtos com grande potencial de crescimento dentro do carrinho de compras das famílias com presença de jovens. São eles: bebida de soja, leite fermentado, água mineral, suco pronto e deo colônia. “Estes itens se enquadram no perfil de consumo das famílias compostas por adolescentes, mas ainda não estão sendo bem trabalhos”, avalia Christine.

Norte e Nordeste

Em uma análise regional, a grande maioria dos domicílios com presença de jovens no Brasil está nas regiões Norte e Nordeste (32% do total). Apesar disso, essas famílias contam com uma renda 33% mais baixa do que a média nacional, o que reflete diretamente em uma menor renda individual - R$ 145,00. “Isso acontece porque 58% da população dessas regiões são de baixa renda”, observa a executiva.

Trata-se de uma situação totalmente contrastante com a da Grande São Paulo, que tem uma concentração de lares com jovens de 13%, ou seja, 20 pontos percentuais a menos que no Norte e Nordeste, porém com uma renda familiar 37% superior ao resto do Brasil, refletindo ganhos individuais de R$298,00. O Interior de São Paulo não fica muito atrás, apresentando 12% dos domicílios com jovens, ganhando 23% a mais do que a média nacional, e com uma renda individual de R$268,00.

A região Sul fica com 15% dos domicílios com jovens do país, com renda familiar superior ao resto do Brasil em 29% e ganhos de R$281,00 por pessoa. A região Centro-Oeste, por sua vez, responde por 8% dos lares com adolescentes, onde a renda média das famílias supera em 22% a média nacional e a individual é de R$ 266,00.

A região Leste, juntamente com o Interior do Rio de Janeiro, tem 14% dos lares com presença de jovens, com renda 10% superior ao resto do Brasil e ganho individual mensal de R$ 233,00.

O mesmo não se observa na Grande Rio, que possui 7% dos lares com adolescentes do País, porém com uma renda média 16% abaixo da média nacional e ganhos individuais de R$ 185,00.

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