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Agora, o patrão
quer que o pessoal durma no ponto
19-08-2010
Aderbal Gonçalves
Até bem pouco tempo, as empresas estipulavam
a escala de trabalho e o funcionário a cumpria,
sem ao menos questionar ou sugerir uma alternativa para
adequar suas necessidades físicas e psicológicas
às empresariais. Aos poucos isso está
mudando. Cresce o número empresas que preferem
adequar-se às necessidades fisiológicas
do funcionário, como uma forma de colher melhores
resultados profissionais, inclusive com reflexos nos
lucros.
“É importante que os empresários
entendam que há pessoas matutinas, ou seja, que
podem entrar mais cedo no trabalho, pois não
terão problemas para acordar. No entanto, outra
parcela, é vespertina, e terá melhor rendimento
a partir do final da manhã para a tarde e à
noite. O que não significa que os vespertinos
são preguiçosos ou os matutinos, trabalhadores,
é apenas uma questão orgânica”,
explica o prof. dr. Luis Vicente Franco Oliveira, Coordenador
do Laboratório do Sono da Universidade Nove de
Julho – Uninove, em São Paulo.
Segundo ele, trabalhar à noite, para uma pessoa
que não se adapta ao turno, ou vice-versa, pode
ser um grande risco, pois, a sonolência faz com
que o profissional tenha uma redução dos
reflexos, diminua a capacidade de concentração
e criatividade, aumente a fadiga, e o nível de
estresse. “Consequentemente, os riscos de acidentes
no ambiente de trabalho e no trânsito são
maiores”, diz.
Algumas empresas já detectaram as vantagens
dessa tendência e oferecem um espaço aos
funcionários que querem usufruir de um período
de descanso no meio do expediente. E não precisa
ser muito tempo, não, diz o médico. "Meia
hora por dia pode ser o suficiente para a recomposição
física e psicológica", diz. "Além
de ter um ganho no rendimento do profissional, a empresa
pode deixar de perder monetariamente, afinal, funcionário
afastado ou acidentado, gera alto custo".
A força da soneca
A opinião do médico em defesa da soneca
já foi comprovada em pesquisas. Uma delas foi
na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da
USP com profissionais de enfermagem, divulgada em 2007.
A conclusão não deixa dúvidas:
dormir durante curtos períodos em jornadas de
trabalho noturno é uma prática eficiente
para manter o nível de alerta do trabalhador.
O estudo, realizado pelo biólogo Flávio
Notarnicola da Silva Borges, verificou o índice
de capacidade de trabalho, os ciclos de vigília
e sono e os ritmos biológicos dos enfermeiros.
Na primeira etapa da pesquisa, foram aplicados questionários
em 696 enfermeiros de um hospital da cidade de São
Paulo. "As questões serviram para apontar
as variáveis sócio-demográficas,
de saúde e ligadas ao ambiente de trabalho que
comprometiam a capacidade para o trabalho", afirma
Borges. "Na parte sócio-demográfica,
ter mais de um emprego, filhos e ser o único
responsável pela renda familiar geravam perda
de capacidade".
Segundo o pesquisador, a idade também influenciou
a capacidade de trabalho. “Enfermeiros que passaram
dos 40 anos e continuam a trabalhar em turnos possuem
melhor tolerância, enquanto profissionais que
apresentavam perda de capacidade antes dessa faixa etária
não fazem mais parte do corpo de trabalhadores”.
O estudo aponta que, dentro do ambiente de trabalho,
o conforto térmico e o abuso verbal também
influenciam na aptidão dos enfermeiros. "O
abuso é mais sentido quando o profissional foi
maltratado verbalmente mais de duas vezes no último
ano", conta Borges.
Na segunda etapa do estudo, foram avaliados os ritmos
biológicos de dois hormônios, a melatonina
(ligada ao sono) e o cortisol (relacionado a resposta
ao estresse), por meio de suas concentrações
na urina, e também o ciclo vigília-sono,
assim como os níveis de alerta de 20 voluntários.
"Para o ciclo de vigília-sono, foi um usado
um actímetro, aparelho usado para medir os níveis
de atividade, combinado a escalas onde os trabalhadores
avaliavam a qualidade do sono e os períodos de
alerta", diz o pesquisador.
Borges relata que os trabalhadores noturnos que podiam
dormir durante a jornada, apesar de terem um sono mais
curto e de menor qualidade, mantinham o nível
de alerta no trabalho até o final da madrugada,
apresentando menor sonolência do que aqueles que
não dormiram. "A produção
de melatonina é menor do que os trabalhadores
diurnos, o que pode acontecer devido a maior exposição
noturna à luz", diz. "Ao mesmo tempo,
o menor nível de cortisol pode ser um indício
de fadiga".
Segundo a pesquisa, a qualidade do sono também
varia conforme a tolerância ao trabalho em turnos.
"Os profissionais que toleram mais o trabalho noturno
tem um sono com melhor qualidade referida, e não
apresentam diferenças na produção
de melatonina nos períodos de trabalho e de folga",
afirma o biólogo. "Os que suportam menos
os turnos eram significativamente mais sonolentos".
Borges ressalta que a prática de pequenos períodos
de sono durante o trabalho noturno é pouco adotada
no Brasil, e quase sempre é feita de modo informal.
"Não se deve generalizar as necessidades
de repouso, pois há grande variabilidade individual”,
alerta. “Deve-se levar em conta também
a vida fora do trabalho e a palavra do próprio
trabalhador".
Pesadelo
Com poucas horas de sono, os profissionais erram
mais e ainda correm o risco de contrair doenças,
como diabetes e pressão alta
A Philips Electronics divulgou um estudo com 2.500
profissionais, de cinco países, que apontou que
quase três quartos deles não estavam dormindo
o suficiente. O estudo foi realizado com homens e mulheres,
donos e fundadores de empresas, sócios, diretores
de conselho, além de gerentes nos níveis
sênior, médio e júnior. A pesquisa
mostrou que 40% dos questionados apontam as preocupações
referentes a assuntos de trabalho como a principal razão
para a falta de sono. A vasta maioria (61%) afirma que
sofreu impacto negativo em seu trabalho devido à
falta de sono. Em média, cerca de 6,2 dias por
ano foram afetados por sono inadequado – gerando
possíveis danos à saude e custo de milhões
às companhias ao redor do mundo.
De acordo com a pesquisa:
· Os americanos têm mais tendência
que outras nacionalidades de perder o sono por causa
do estresse no trabalho; 30% citam essa como a razão
pela qual acordam durante a noite.
· A quantidade padrão de tempo que os
americanos levam para pegar no sono – 26 minutos
– é mais alta que em qualquer outro país
pesquisado – e os homens americanos são
os que mais roncam no mundo: 29% roncam todas as noites.
· 70 % afirmam que o seu trabalho foi afetado
por causa da falta de sono.
· O sintoma apontado como número 1 da
falta de sono foi diminuição da paciência/tolerância,
seguido por menos entusiasmo e concentração.
Charles Kreisler, professor de Medicina do Sono da
Harvard Medical School, afirma que ao mesmo tempo em
que as corporações criam políticas
para a promoção da saúde junto
aos seus funcionários, muitas encorajam uma cultura
de insônia, confundindo falta de sono com vitalidade
e alto desempenho. No ambiente de negócios, isso
significa que as empresas costumam recompensar gerentes
que trabalham 80 horas por semana, funcionários
sênior que sobrevivem com apenas cinco ou seis
horas de sono noite após noite, esperando que
os funcionários trabalhem em uma nuvem de efeitos
de mudanças de fuso-horário e cafeína.
“O sono não é opcional –
é absolutamente crucial para a saúde das
pessoas”, diz David White, chefe da área
de soluções para Home Healthcare da Philips.
“As pessoas simplesmente precisam levar o sono
muito mais a sério, pois as conseqüências
de não se dormir suficientemente são sérias:
ganho de peso, tendência a ter diabetes, alta
pressão sanguínea e até ataques
cardíacos.”
Aproximadamente dois terços dos respondentes
da pesquisa afirmaram que a falta de sono afetava seu
trabalho porque eles se sentiam menos capazes de se
concentrar, tinham menos paciência e entusiasmo.
E um quarto dos respondentes chegou a culpar o sono
por decisões erradas. Além das descobertas
acerca da falta de sono, a pesquisa também descobriu
que, enquanto 96% dos ouvidos reconhecem que o sono
inadequado pode afetar seriamente a saúde de
uma pessoa, apenas 29% discutem seu padrão de
sono problemático. Dos que o fazem, apenas 27%
buscam ajuda médica profissional, enquanto a
maioria apenas conversa sobre os seus problemas com
a família e os amigos.
Dados pesquisa, realizada pela TNS:
· 2.513 pessoas foram entrevistadas, das quais
59% (1.483) eram homens e 41% (1.030), mulheres.
· A divisão em grupos de idades foi a
seguinte: abaixo de 25 anos – 7%; 26 a 35 anos
– 20%; 36 a 45 anos – 25%; 46 a 55 anos
– 26%; 56 a 65 anos – 18%; acima de 65 anos
– 4%.
· A pesquisa foi conduzida nos EUA (502), Reino
Unido (501), Holanda (501), Alemanha (500) e Japão
(509)
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