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Alunos vêem escola
somente como preparação para o mercado
28-07-2011
Por Mariana Soares - nanacsoares@gmail.com
A noção de que a escola serve para preparar
para o mercado de trabalho é muito presente nos
alunos, mas as atividades desenvolvidas nela não
correspondem a essas expectativas. Essa é uma
das conclusões de Flávia da Silva Ferreira
Asbahr em sua tese de doutorado, intitulada Por que
aprender isso, professora? Sentido pessoal e atividade
de estudo na psicologia histórico-cultural, apresentada
no Instituto de Psicologia (IP) da USP.
Flávia é psicóloga escolar há
dez anos e conta que observava que a aprendizagem por
ela mesma não era um motivo que levava os estudantes
à escola. Seu estudo, cujo objetivo era investigar
o sentido que as crianças atribuíam à
escola e quais suas motivações para irem
até lá, constatou que a ideia de um ambiente
que capacita para o mercado de trabalho é muito
forte.
Para a pesquisadora, as atividades realizadas pelas
instituições não condizem com a
visão que seus alunos têm, o que faz com
que, num primeiro momento, elas percam seu sentido.
Deste modo, a formação desejada acaba
ocorrendo por intermédio de outros fatores. Segundo
ela, o nosso modelo escolar é muito antigo e
tradicional, e “nem sempre a forma com que o conteúdo
é trabalhado reflete as necessidades das crianças
ou adolescentes. Não é que elas não
se interessam, é o jeito que é passado
que as deixa distante de suas realidades”.
Para o estudo, orientado por Marilene Proença
Rebello de Souza, a psicóloga passou um ano junto
a uma sala da quarta série do ensino fundamental
de uma escola pública municipal de São
Paulo. Flávia explica que na quarta série
as crianças já estão no fim de
um ciclo escolar e possuem capacidade para fazer uma
análise de seu ambiente de estudo. Neste período,
a pesquisadora observou o cotidiano das crianças,
criou situações orientadas de aprendizagem,
realizou atividades em grupo para que os alunos pudessem
falar sobre o tema por meio de brincadeiras e, por fim,
fez entrevistas individuais com a professora e algumas
crianças.
Das conclusões obtidas, Flávia surpreendeu-se
com a importância dos vínculos de amizade.
Segundo ela, o papel dos amigos é muito forte
e eles são um motivo para ir à escola,
o que acaba entrando em contradição com
o método utilizado: “as crianças
chegam, tem de sentar separadas dos amigos, não
podem conversar. Ou seja, não se incentiva esse
vínculo, é tudo muito individual. Na escola,
as características próprias da criança
não são aproveitadas, elas não
aprendem a trabalhar em grupo”, acrescenta.
O professor
A psicóloga destaca, em sua tese, a grande importância
do professor no processo de formação escolar
e nos motivos da aprendizagem. Para ela, são
eles que fazem com que os alunos verdadeiramente aprendam
e que os auxiliam a perceber a importância daquele
ambiente e do conteúdo. “Um dos grandes
desafios do professor é saber como criar ou lidar
com ações que produzam esses motivos pra
aprender”, completa.
Flávia acrescenta que a própria estrutura
das escolas públicas acaba fazendo o trabalho
dos docentes perder a prática pedagógica:
a organização é burocrática,
os professores são mal remunerados e, por isso,
precisam fazer muitos turnos, as turmas têm muitos
alunos (o que dificulta o cuidado individual), um professor
não conhece o trabalho do outro. Deste modo,
a pesquisadora acredita ser necessário mudar
um pouco a cultura escolar, pois a escola e os professores
precisam saber como olhar para as crianças para
realizarem a prática pedagógica.
Psicologia Histórico-Cultural
A base teórica utilizada para a pesquisa foi
a Psicologia Histórico-Cultural, ramo da psicologia
surgido no início do século XX, na União
Soviética. Os psicólogos da época
preocupavam-se com a construção de um
homem novo, e dedicavam atenção especial
à educação, visto que a maior parte
de sua população era analfabeta. Deste
modo, a psicologia histórico-cultural cria uma
nova psicologia para tratar do homem comum e suas atividades.
Ela compreende o desenvolvimento humano a partir da
periodização de atividades principais
realizadas ao longo da vida.
Destas atividades, Flávia escolheu o estudo,
que é a principal ocupação das
crianças em idade escolar. A parte teórica
de sua pesquisa é composta por uma investigação
bibliográfica, cujo produto são sínteses
teóricas sobre o objeto estudado. A pesquisadora
enfatiza que a teoria tem grande importância em
seu trabalho, complementando e dando respaldo a seu
trabalho de campo.
A psicóloga acredita que a maior contribuição
de sua pesquisa foi mostrar o que as crianças
têm a dizer sobre o ambiente que frequentam e
o modelo educacional, mostrando a opinião delas
e sua contribuição. “Há muitas
políticas educacionais que olham por fora da
escola, mas deveriam olhar por dentro. Ao menos teoricamente,
a escola tem que servir às crianças, por
isso é importante saber o que elas pensam”.
Além disso, ela vê em sua tese uma contribuição
para os professores pensarem suas práticas, já
que, sabendo o que os alunos pensam, fica mais fácil
bolar atividades que correspondam às suas expectativas
com a escola. (Agência USP de Notícias)
Mais informações: flaviasfa@yahoo.com.br
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