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Jornada dupla influencia
saúde de jovens trabalhadores
03-05-2012
Por Mariana Melo - mariana.melo@usp.br
A dupla jornada de adolescentes aprendizes causa alterações
na vida e na saúde dos adolescentes, como perda
ou ganho excessivo de peso, sonolência e, principalmente,
diminuição da capacidade de manter a atenção
e queda no desempenho escolar. O estudo Percepção
de jovens aprendizes e estagiários sobre condições
de trabalho, escola e saúde após o ingresso
no trabalho aponta as principais alterações
no cotidiano e na saúde de jovens empregados
por meio da Lei da Aprendizagem e também pelo
capítulo V do Estatuto da Criança e do
Adolescente (Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990).
O estudo foi realizado pela psicóloga Andréa
Aparecida da Luz, entre 2008 e 2010, sob orientação
da professora Frida Marina Fischer, do Departamento
de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde
Pública (FSP) da USP. A pesquisa de mestrado
recebeu o prêmio “First Place Student Poster
Award” no Congresso Internacional “30th
Congress of the International Commission on Occupational
Health ICOH 2012”, no qual trabalhos envolvendo
Saúde Ocupacional foram avaliados por um júri
em Cancún, no México, nos dias 18 a 23
de março deste ano.
O estudo foi aplicado em uma Organização
não Governamental (ONG) na zona sul de São
Paulo. Nesta ONG, jovens dos bairros vizinhos inscrevem-se
para receber aulas preparatórias e trabalhar
em empresas parceiras. Estas procuram a ONG para incorporar
mão-de-obra e se adequar à Lei nº
10.097, de 19 de dezembro de 2000 e ao Decreto nº
5.598, de 1º de dezembro de 2005, os quais propõem
que no mínimo 5% e no máximo 15% do quadro
de funcionários de uma empresa que seja composto
por jovens aprendizes.
Andréa submeteu a questionários e entrevistas
40 jovens entre 14 e 20 anos inscritos na ONG. Mesmo
após começarem a trabalhar, eles continuam
frequentando aulas de capacitação, uma
vez por semana como aprendiz, ou uma vez por mês
como estagiário. Na investigação,
levantou-se dados demográficos e socioeconômicos,
além de perguntas sobre saúde e impressões
de antes e depois do início da vida profissional.
Todos já trabalhavam há pelo menos seis
meses, no turno diurno, totalizando uma jornada de 40
horas semanais entre trabalho e acompanhamento na ONG.
Além disso, mantinham os estudos à noite.
Relatos
Os relatos descreviam abusos no trabalho, como cumprir
as mesmas metas e cotas que os funcionários com
capacitação técnica, ou substituir
cargos de chefia na ausência de supervisores.
Entre os entrevistados, apenas um disse ter recebido
treinamento específico para as atividades que
desenvolveria.
Mesmo com os problemas apontados, a maioria dos participantes
não queria deixar o emprego. Com um salário,
eles têm maiores possibilidades de custear um
curso universitário. Alguns, diz Andréa,
chegavam a contribuir com 65% da renda familiar, além
de alcançar um poder de consumo maior. Para outros,
conforme os depoimentos, o reconhecimento da sua identidade
só foi atingido depois que começaram a
trabalhar. Frases como “Não sou mais vagabundo,
sou trabalhador” ou “Agora as pessoas me
enxergam, elas vem me vender as coisas” foram
proferidas durante as entrevistas.
Segundo Andréa, ao anunciar o vencedor durante
o prêmio, um dos jurados apontou a urgência
em cuidar dos recém-chegados ao ambiente laboral
e destacou o fato de eles “passarem mais tempo
no trabalho do que na escola”. Ela disse que,
depois desta pesquisa, a ONG fez adaptações
curriculares e na carga horária, para que seus
estudantes aprendessem noções de segurança
e saúde no trabalho e tivessem a possibilidade
de dormir mais ou chegar mais cedo à escola.
Para ela, é importante que aconteça esse
primeiro contato com o meio trabalhista, mas é
preciso atentar-se às condições
em que isso ocorre. Finaliza com “Conquistas como
status e poder de consumo foram apontadas pelos jovens
como aspectos importantes do trabalho, mas a que preço?
É o que precisamos considerar”. (Agência
USP de Notícias)
Mais informações: 11 7691-9711; email
andrealuz@usp.br
, com Andréa Aparecida da Luz
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