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Setor de tecnologia quer
exportar, mas esbarra na burocracia
20-04-2009
Empresas brasileiras de tecnologia de informação
e comunicação querem aproveitar o cenário
de crise global para exportar mais. No entanto, elas
esbarram na burocracia do estado para regulamentação
de leis de incentivos e na própria falta de musculatura
do setor, pulverizado em micro e pequenas empresas.
Estudo feito pela consultoria A.T. Kearney, a pedido
da Associação Brasileira de Empresas de
Tecnologia da Informação e Comunicação
(Brasscom), mostrou que as exportações
do setor passaram de US$ 800 milhões em 2007
para US$ 1,4 bilhão no ano passado.
O levantamento demonstrou, ainda, que o Brasil ocupa
a quinta posição mundial como destino
para offshore outsourcing (modalidade de terceirização
de serviços feita fora do país de origem).
Essa colocação representa um aumento significativo
em relação a 2005, quando o país
ocupava o décimo lugar.
Os empresários, no entanto, acreditam que o
país tem condições de exportar
mais. “O estudo está mostrando que estamos
no caminho certo para nos inserirmos no mercado internacional.
Por que não fazer? O que está faltando
é cair a ficha. E não adianta cair a ficha
só da Brasscom ou só de um setor do governo.
Precisa ser uma coisa mais ampla para começar
a acontecer", comentou Ricardo Saur, diretor da
Brasscom. "Como é um mercado essencialmente
de gente, 80 % do custo é gente, é um
mercado que não polui, é verde. Que gera
emprego, que gera divisas e não tem contra-indicação.”
“Crise nunca é bom, mas o setor de TI
[Tecnologia da Informação] tem muito mais
uma oportunidade nessa crise do que retração.
No caso de TI, ela abre certas perspectivas porque as
empresas de outros setores têm que cuidar mais
de seus processos produtivos para superar suas deficiências.
Nada aumenta mais a eficiência em um mundo de
competição globalizada do que estar sendo
bem informada, em uma estrutura eficiente, toda ela
baseada em TI . Nesse contexto, o setor de TI tem um
papel a desempenhar para diminuir custos”, destacou
Saur.
A exportação não corresponde à
maior parte da produção brasileira de
tecnologia. Grande parcela do que é produzido
se destina ao mercado interno, que é grande e
crescente. Embora a Índia tenha conseguido destaque
no cenário internacional no final da década
de 1990, desde então, o Brasil conseguiu destaque
na produção de softwares destinados ao
setor financeiro.
“Na medida em que houve necessidade de programas
mais complexos, com a interação com a
internet, o Brasil foi se diferenciando. O sistema financeiro
brasileiro é o mais avançado no mundo
em termos de TI. Ninguém tem um sistema de pagamento
como nós temos aqui, que permite fazer uma TED
[transferência eletrônica], por exemplo.
Isso não veio de graça. Veio de investimentos
de anos em formação de pessoas. Vimos
que nós somos competitivos,sim”, analisa
Saur.
Os empresários concordam que para o Brasil fazer
frente a países como a Índia - alçada
ao mercado internacional de tecnologia em um contexto
de crise, devido às ameaças do chamado
bug do milênio (ameaça de pane nos bancos
de dados devido à mudança na data na virada
do milênio-, é necessária a regulamentação
da lei que prevê incentivos fiscais de dois tipos.
Um permite que as empresas descontem em dobro investimentos
em treinamento de pessoal. Outro diminui o encargo trabalhista
sobre a folha de pagamento.
“Não se mexe nos salários dos trabalhadores,
mas desonera a folha”, destacou Saur. O desejo
dos empresários é de que ocorra para o
setor de tecnologia a mesma desoneração
concedida no passado ao setor de hardware. Eles querem
convencer o governo de que a área se desenvolverá
e o volume compensará a arrecadação.
“O mercado cinzento de hardware sumiu. Hoje o
governo arrecada mais, cobrando menos do que antes”,
comentou Saur.
A lei de incentivo foi aprovada no ano passado por
ocasião do anúncio da política
industrial, mas para entrar em vigor precisa ser regulamentada.
O ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Resende,
não especificou data para a regulamentação,
mas reconheceu a necessidade de que a lei comece a vigorar.
“A regulamentação da lei está
demorando um pouco, mas está para ser feita brevemente”,
disse.
Resende destacou que o governo tem preocupação
com o setor e que está tomando medidas para injetar
recursos e, ainda, incentivar a fusão de empresas
com o objetivo de torná-las mais fortes.
“Já fizemos coisas importantes. Criamos
a subvenção para estimular a exportação,
incentivos fiscais para a exportação.
Agora o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social] tem feito um movimento importante para estimular
a fusão de empresas. O objetivo é termos
empresas maiores na área de tecnologia. Isso
é muito importante para dar a elas maior competitividade
no mercado global”, enfatizou o ministro.
A ação do BNDES para o setor de tecnologia,
de acordo com o ministro, deverá ser no sentido
de dar um crédito privilegiado a empresas que
se fundirem. Outra ação será de
usar o BNDESPAR para se tornar sócio da nova
empresa de um conglomerado. O BNDESPAR é o braço
do BNDES que investe em diversas empresas brasileiras
por meio da compra de ações.
Sergio Rezende garantiu que os principais recursos
para o desenvolvimento de tecnologia não foram
contingenciados pelo governo. “São os recursos
que formam a subvenção econômica
das empresas. A Finep [Financiadora de Estudos e Projetos]
está fechando agora mesmo um edital, no valor
R$ 450 milhões, a título de subvenção
econômica. Trata-se de recurso concedido que não
é reembolsável. Não se trata de
crédito. A área de software é contemplada”,
disse.
O descompasso do Brasil no mercado internacional, para
o ministro, tem razões na falta de investimento
dos governos anteriores em uma política industrial
com desenvolvimento de tecnologia própria.
“O Brasil começou a conceber uma política
industrial no ano de 2003 e uma das áreas escolhidas
foi a de software. Passamos algumas décadas sem
uma política industrial. Além disso, quando
o Brasil teve uma política industrial nas décadas
de 1960 e 1970, principalmente, essas políticas
não levavam muito em consideração
o desenvolvimento da tecnologia nacional. Não
é só fabricar aqui. É preciso fazer
com conhecimento adquirido aqui, com a nossa inteligência",
disse o ministro. (Agência Brasil)
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