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Conheça o dono
da exportação nacional de leite
26-06-2009
Sócio da empresa que é responsável
por boa parte da exportação brasileira
e com 30 anos de estrada no mercado internacional, o
empresário Alfredo de Goeye revela que a receita
de uma boa venda externa está no relacionamento
humano. Em entrevista à ANBA, em sua casa, se
recuperando de uma cirurgia, Goeye diz: “Hoje
eu vejo claramente que o que a gente constrói
em cima de relacionamentos saudáveis, dá
fruto.” O empresário é um dos três
donos da Sertrading, uma das maiores tradings do Brasil,
e, trabalhando na Cotia Trading, entre 1979 e o ano
2000, acompanhou as primeiras incursões de produtos
manufaturados e semimanufaturados do país no
comércio internacional.
A Sertrading movimentou, no ano passado, US$ 1,3 bilhão,
dos quais US$ 400 milhões foram exportações.
A empresa tem sob o seu chapéu a Serlac, a companhia
que inventou a exportação de leite do
Brasil. "O Brasil era grande produtor e também
importador de leite. E a gente achou que poderia exportar",
conta. Isso foi em 2002. Hoje o país é
o oitavo maior fornecedor mundial de lácteos.
Goeye fala que viu ocorrer o aumento nas vendas do Brasil
para os países árabes e afirma que crise
não é impedimento para o comércio.
“Tem que buscar oportunidades. Se não há
ali neste momento, buscar em outro. Aí está
a beleza do comércio exterior”, afirma.
Veja abaixo os principais trechos da entrevista de Alfredo
de Goeye para ANBA:
ANBA - Qual é a sua história pessoal
com o comércio exterior?
Alfredo de Goeye - Eu entrei na área totalmente
por acaso. Eu sou paulistano e fiz Administração
de Empresas na Fundação Getúlio
Vargas. Eu comecei minha carreira trabalhando com administração,
no mercado financeiro. Fiquei uns cinco ou seis anos
e depois trabalhei na área de vendas de máquinas
de construção civil. Daí apareceu
um convite, em 1979, de um grande amigo meu e colega
de colégio, o Paulo Brito, que tinha acabado
de fundar a Cotia Trading e estava precisando de gente
para trabalhar. Naquela época, o Brasil estava
engatinhando no processo de internacionalização,
não tinha profissionais formados, estava tudo
no nascedouro ainda. O decreto que instituiu a criação
das trade companies no Brasil é de 1972. E a
Cotia Trading nasceu na seqüência desse decreto,
em 1977. Na época, o governo brasileiro estava
querendo promover exportação. Havia o
slogan “Exportar é a solução”.
A família desse meu amigo, do Paulo Brito, estava
no ramo de pecuária, tinha fazenda, gado e frigorífico.
E por uma circunstância da vida, eles começaram
a exportar carne para a Nigéria. Daí resolveram
montar uma trading. A Cotia, então, começou
a explorar uma série de negócios na Nigéria,
a crescer e foi precisando de gente.
Você não entrou diretamente como sócio
da Cotia Trading?
Não, eu entrei como funcionário e fui
morar na Nigéria. Fiquei lá três
anos e meio com a minha família. Depois eu voltei
para o Brasil, na Cotia ainda, fixei residência
aqui, mas continuei trabalhando intensamente Nigéria
e África. Durante uns seis anos fiquei indo para
a Nigéria todo mês. Os primeiros dez anos
da minha vida no comércio exterior foram muito
ligados à África. Naquela época
a gente começou a abrir novos mercados, principalmente
o Sudeste Asiático. Os anos 80 foram de muita
viagem, abertura de mercado.
Em alguns dos países para os quais você
foi, na época, ainda não se ouvia falar
de produto brasileiro?
Olha, foi abertura de mercado mesmo. Na África
fomos totalmente pioneiros. A gente fez um trabalho
grande. A gente acabou abastecendo bastante mercados
como Camarões, Costa do Marfim, Senegal, Angola,
mas a Nigéria era o mais importante. Antes disso
o comércio exterior brasileiro estava muito calcado
em commodities, café, açúcar. A
exportação de manufaturados e semimanufaturados
era novidade. E a gente tinha também que fazer
alguma compensação, importar. Foi isso
que nos levou ao Sudeste Asiático. Íamos
muito para a Nigéria e chegou uma hora que os
nigerianos falaram: está tudo muito bonito, mas
vocês não vão comprar nada da gente?
A Nigéria tinha pouca coisa para exportar: petróleo,
que no Brasil era monopólio, café e cacau,
que o Brasil produzia e exportava. Tinha também
borracha natural, que o Brasil era importador. Então
começamos a trabalhar a borracha natural nigeriana.
Mas a borracha não era de boa qualidade e isso
nos levou ao Sudeste Asiático. E aí dos
anos 80 para frente a gente abriu várias frentes
no Sudeste Asiático. Abriu escritório
na Malásia, Cingapura, Coréia, Taiwan,
mais para frente na China.
E quando você passou a ser sócio da Cotia
Trading?
No começo dos anos 90, quando o Collor (Fernando
Collor de Mello, ex-presidente do Brasil) assumiu, teve
a tal de abertura comercial brasileira. E o Brasil se
tornou mais receptivo para importações.
Teve um boom de importações em vários
segmentos, principalmente automóveis. Aí
a Cotia acabou seguindo a tendência, ficando muito
mais importadora do que exportadora. Nesta época,
foi criado um programa para os principais executivos
virarem sócios. Nós ficamos sócios
da Cotia em 1993. De 1993 até 2000 foi uma época
de expansão muito grande, viramos o maior importador
de automóveis do Brasil, chegamos a ser o segundo
maior importador, depois da Petrobras. Mas os executivos
compraram uma parte pequena da empresa. O Paulo (Brito)
tinha saído já da Cotia, mas a família
dele continuou. Praticamente na década de 90
toda eu fui o vice-presidente comercial da empresa.
Em 2000 eu saí, depois 21 anos, por uma contingência
de momento. Eu e outros não concordamos muito
com o caminho que a empresa estava seguindo e resolvemos
sair. Eu tinha 20 anos de experiência em comércio
exterior, ia fazer 50 anos, e pensei: acho que vou tentar
começar outra trading do zero. E fiz isso junto
com meu companheiro de batalha, o Paulo (Brito). Ele
estava se dedicando a negócios particulares e
a gente decidiu criar a Sertrading. Não havia
um plano muito específico. Criamos a Sertrading
e fomos buscar espaço no mercado.
A ideia era ser exportadora apenas?
A idéia era ser uma prestadora de serviços
em comércio exterior, importando mercadorias
para terceiros e exportando mercadorias para as quais
a gente fosse buscar oportunidades. Passados nove anos,
eu estou muito feliz. A gente fundou a companhia no
finalzinho de 2000, mas os dois primeiros anos foram
de absoluta semeadura e poucos negócios. Foram
anos de investimento e de botar a empresa de pé.
Em 2003, ano já com algum movimento, a gente
chegou a fazer uns R$ 30 milhões entre importações
e exportações. Eu diria que 80% a 90%
foi importação. No ano passado fizemos
R$ 1,36 bilhão, sendo que R$ 950 milhões
de importação e uns R$ 400 milhões
de exportação.
Hoje qual é o grande foco da Sertrading na exportação?
Na exportação são produtos do
agribusiness, principalmente lácteos, leite,
da Serlac e a Itambé. A Serlac (braço
da Sertrading criada especificamente para exportação
de lácteos em parceria com a fábrica Itambé)
foi criada em 2002. Foi uma das coisas que a gente plantou
e deu certo. Percebemos que o Brasil tinha chance de
ser um exportador de leite. O Brasil era grande produtor
e também importava. E a gente achou que o Brasil
poderia exportar. Aí começamos a fazer
uma pesquisa, achamos que estávamos certos, começamos
a inserir o Brasil no mercado mundial de lácteos
e deu muito certo. Hoje o Brasil é o oitavo maior
exportador do mundo. A Serlac é grande responsável
por este trabalho. Metade do que é exportado
pelo Brasil – em lácteos – é
da Serlac e o Oriente Médio é um território
importante para nós em termos de clientes.
Vocês exportam o leite evaporado. No Brasil já
se produzia esse tipo de leite?
O leite evaporado é um produto que o Brasil
não tem hábito de consumo. É quase
um condensado sem açúcar. Muitos países
do mundo, principalmente no Oriente Médio, na
África e na Europa, têm costume de colocar
esse leite evaporado no chá, no café.
É uma latinha pequena, que não precisa
de refrigeração. No Brasil não
há esse hábito e a gente convenceu alguns
produtores brasileiros a entrarem neste mercado. Hoje
o Brasil produz leite evaporado para exportar. É
um caso típico de desenvolvimento de produto.
E na importação, qual é o forte
da Sertrading?
Na importação o nosso forte não
é produto específico, mas atendimento
a cliente. Na importação o que a gente
faz é tomar conta do processo de importação
de clientes, grandes empresas. A gente normalmente utiliza
alguns estados que têm algum tipo de benefício
na importação, reduz um pouco a carga
tributária para o cliente e acaba oferecendo
um pacote completo, de logística, toda parte
documental, operacional e, em vários casos, também
o financiamento da mercadoria. Os setores que atendemos
são bem diversificados. São nossos clientes
Ambev, Ceras Johnson, Votorantin, Braskem, Petrobras,
Vale do Rio Doce.
Qual foi a primeira vez que você foi para um
país árabe?
A minha experiência com países árabes,
principalmente com Oriente Médio, não
é muito grande. Eu acabei tendo muita experiência
com África e Sudeste Asiático. A minha
primeira experiência com Oriente Médio
foi no final dos anos 80, começo dos anos 90,
quando eu estive na Arábia Saudita, Kuwait e
Irã. Depois, ao longo do tempo, eu acabei visitando
muitos outros países por ali. No Norte da África
estive mais recentemente no Marrocos, Líbia,
Argélia, Tunísia. Mas a minha empresa
vende bastante para a região. Os nossos principais
mercados para leite são Oriente Médio
e África.
Qual a sua percepção das diferenças
deste mercado árabe lá nos anos 80 e hoje?
Mudou demais. Nos anos 80, os países do Oriente
Médio, principalmente Iraque e Irã, foram
grandes clientes da Cotia. Naquela época o Brasil
fornecia automóveis, a Volkswagen era grande
exportadora para o Iraque. Havia grandes acordos com
a Petrobras de compra de petróleo em troca de
mercadoria brasileira. Havia um comércio muito
ativo nos anos 80. Depois, muito provavelmente pelos
conflitos, isso brecou. E reviveu no início deste
século. Hoje o comércio Brasil-Oriente
Médio está crescendo aceleradamente.
O que causou esse aumento do comércio, na sua
opinião?
Duas coisas. Uma foi o empenho do governo brasileiro
em direcionar os esforços para esta área
e também a concentração dos empresários
nisto. E neste aspecto, dos empresários, acho
que a Câmara de Comércio Árabe Brasileira,
exerce uma função extremamente importante.
É de tirar o chapéu para o trabalho da
Câmara Árabe. Talvez seja a melhor câmara
de comércio brasileira. Funciona extremamente
bem. O Schahin (Salim Schahin, atual presidente da Câmara
Árabe) está iniciando um mandato agora,
mas o Michel Alaby (secretário-geral da Câmara
Árabe) tem muita história nesta área.
A história do comércio internacional brasileiro
tem a dedicação ímpar desse homem,
que é abnegado. Isso faz parte do processo todo.
É lógico que também há a
boa vontade do lado de lá. Mas aqui o esforço
foi tanto do governo quanto da parte privada.
Que estratégia você diria que funciona
para vender para o mercado árabe?
Depois de 30 anos militando neste setor e passando
por várias experiências, eu diria que comércio
exterior é muito, muito do relacionamento pessoal,
das relações que se constroem, de confiança,
de credibilidade, de cumprir o que se promete. Conquistar
novos mercados depende muito de um trabalho de formiguinha,
de começar a plantar, de procurar estabelecer
bons relacionamentos e tentar cumprir as condições
comerciais. Comércio exterior não é
oportunismo, não é fazer uma viagem e
colher resultados fantásticos. É um trabalho
de por tijolinho por tijolinho. Hoje eu vejo claramente
que o que a gente constrói em cima de relacionamentos
saudáveis, dá fruto. E eu tenho visto
isso claramente na minha empresa. A gente tenta manter
– porque está no nosso DNA - uma relação
correta, saudável com nossos clientes e isso
tem revertido em prol do nosso negócio. Os árabes
são tidos também como grandes hospitaleiros.
São pessoas muito afeitas a relacionamentos pessoais.
Lógico que todo mundo quer comprar pelo melhor
preço e vender por muito mais, mas a resposta
é: relacionamento, tijolinho por tijolinho.
E o governo, de fato ajuda no comércio exterior?
Eu já estou há 30 anos nesse negócio
eu já vi várias fases. No início
da nossa atividade, o governo ajudava muito. O governo
chamava a si a responsabilidade de promover o comércio
exterior brasileiro, nos anos 70 e 80. Depois o governo
passou um tempo meio à margem desse processo.
E nos últimos seis, oito anos, voltou muito firme.
Hoje o governo exerce um papel bastante importante na
promoção comercial, por meio da Apex (Agência
Brasileira de Promoção de Exportações
e Investimentos), através do MDIC (Ministério
do Desenvolvimento, Indústria e Comércio
Exterior), do Ministério da Agricultura, do próprio
Itamaraty e outros órgãos. O próprio
presidente Lula (Luiz Inácio Lula da Silva),
nesta brincadeira de global trader, encabeça
isso. O Lula criou essa história de viajar muito
e isso fomenta demais o comércio. O governo tem
criado missões extremamente bem organizadas,
interessantes. A Sertrading tem participado bastante.
Há alguma região do mundo que o Brasil
não explorou e há oportunidades?
Certamente há um monte. Eu dou vários
exemplos, a começar pela China. China é
um mundo totalmente novo, para o Brasil é inexplorado
e imenso. E a presença brasileira na China é
muito pequena em relação a outros países.
E por que é pequena? Por uma série de
dificuldades. É longe, há barreiras culturais,
a língua, o tempo. Mas tem imensas oportunidades.
A própria África e Oriente Médio
têm imensas oportunidades inexploradas. Eu, talvez
por defeito de formação, sempre fui muito
voltado para explorar oportunidades novas do que insistir
nas que já existem. Eu nunca tive muita relação
comercial com Estados Unidos e Europa. A gente muito
mais buscou relações novas, com países
emergentes, na América Latina, África,
Oriente Médio e Ásia, porque há
muito mais oportunidades.
Você, Alfredo, é um vendedor. Como deve
ser um bom vendedor?
Primeiro acreditar em si mesmo. Segundo, ser persistente,
ter bom relacionamento e topar todas. Falar vários
idiomas ajuda muito. Eu não falo. Falo inglês
bastante bem, me viro um pouco no espanhol, no francês.
Falar o idioma (local) aproxima, mas não é
limitador. Tem que ser vendedor neste negócio,
tem que ser persistente. Comércio exterior é
uma questão de persistência. Porque não
é na primeira vez que se vende. Eu diria que
estabelecer o primeiro negócio é algo
demorado. Você faz um contato comercial e nada
acontece antes de seis meses. Hoje, com as comunicações
aceleradas, talvez esse tempo seja menor.
A crise fez alguns países, como Argentina, dificultarem
as importações de alguns produtos. Esse
vai ser o caminho global daqui para diante?
Eu sempre tive uma visão de negócios
e de relacionamentos de longo prazo. Nunca fui muito
imediatista. Essa crise que nós estamos atravessando
é, na minha opinião, absolutamente cíclica.
Ela acabou sendo menor do que a gente imaginava. Para
alguns países pegou mais. Foi o caso da Argentina.
Estados Unidos foram muito afetados, Europa e Japão
também. Mas vários países emergentes
quase não foram afetados. Na minha opinião,
esse fato de alguns países se fecharem é
temporário. Eu não me preocupo com isso.
A gente tem que buscar oportunidades. Se não
tem oportunidades ali neste momento, vai buscar outra,
deixa aquela para trás. Aí está
a beleza do comércio exterior. Eu estou há
30 anos nisso e esse é um setor que me encanta.
Exatamente por isso. Tem imensas oportunidades o tempo
todo. É um setor muito amplo, muito generalista,
hoje você pode trabalhar com país A, produto
B, amanhã você trabalha com país
C, produto D. E vai variando, pulando, vai indo, acontecendo
e criando oportunidades. A gente tem uma diversidade
muito grande. Você está cada hora num galho
diferente. O país está fechado? Pula para
outro. O câmbio está baixo? Vamos trabalhar
com algo favorável ao câmbio baixo. Está
alto? Vamos inverter a situação.
O pior da crise, para a exportação brasileira,
já passou?
Já. Acho que as oportunidades vão melhorar
bastante de agora em diante. Acho que não fomos
tão afetados. A minha empresa não foi
nada afetada, graças a Deus. Lógico que
houve uma crise. No final do ano passado houve uma crise
financeira brava, houve limitação de linhas
de crédito, problemas de liquidez bancária,
que afetaram os negócios e pegaram várias
empresas de frente. Mas isso já está sendo
superado, nós vamos ter um segundo semestre muito
bom. Eu estou bem otimista. (Isaura Daniel - Agência
de Notícias Brasil-Árabe - www.anba.com.br)
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