Bancos podem lucrar muito, mesmo com juro baixo, diz analista

28-04-2009

Alexandre Assaf Neto, diretor do Instituto Assaf, entidade que desenvolve análises financeiras e econômicas, acredita que os bancos brasileiros apresentam forte potencial em agregarem resultados, mesmo em condições de baixas taxas de juros. Isso acontece, segundo ele, porque o volume de crédito no Brasil ainda é muito reduzido, e o incremento esperado no montante da carteira de ativos, incentivado pela redução dos juros, poderia produzir altos ganhos de escala, compensando a perda de receitas financeiras.

Da mesma forma, as receitas de serviços, com participação ainda bastante modesta na atividade bancária brasileira, podem incrementar os ganhos dos bancos. A análise foi feita com base nos balanços dos três maiores bancos brasileiros - Itaú, Banco do Brasil e Bradesco – e contraria a idéia de que os resultados atuais e futuros dos bancos são determinados pelos altos spreads do crédito.

O fato de serem pouco alavancados, por exemplo, elogiado por analistas em contraposição à política de assumir riscos mais altos dos bancos americanos, é consequência de uma distorção do mercado brasileiro, avalia Assaf. "Os bancos brasileiros parecem conservadores porque o juro alto lhes permite ganhar dinheiro aplicando em títulos públicos, incorrendo ao mesmo tempo em menores riscos. Mas, é uma característica de banco ganhar com a alavancagem", afirmou.

Para Assaf, a política de juro elevado é fruto de um "período irregular" da economia; e os bancos não devem montar sua estratégia com base em uma situação de "desequilíbrio". Juros altos sinalizam desequilíbrio da economia, situação que se espera não perpetuar.

O BB é o banco mais alavancado dos três, segundo resultados divulgados e referentes ao exercício de 2008, com ativos totais 16,4 vezes maiores do que o patrimônio líquido. No Bradesco, o índice é de 13,5 vezes; e no Itaú, de 9,9 vezes.

O crescimento médio do crédito nos três bancos foi de 27,9% em 2008. A maior carteira é a do BB, com R$ 166,3 bilhões; Itaú e Bradesco têm carteiras bastante próximas, a tingindo cada uma a R$ 133,4 bilhões. Ainda assim, a carteira de crédito representou na média 34,4% dos ativos totais, oscilando de 30,4% no caso do Bradesco, a 37,4% no do BB. Em outras palavras, para cada R$ 100,00 investidos pelos bancos, R$ 34,40 estão aplicados em crédito, "atividade básica do negócio". Para o professor, quando os juros caírem mais, os bancos poderão auferir melhores resultados pelo crescimento esperado na demanda por crédito.

Os bancos brasileiros também apresentaram elevada rentabilidade em relação ao patrimônio líquido. Em levantamento feito pela Economatica, eles mostraram os maiores retornos entre instituições das Américas no balanço de 2008. O líder da região é o BB, com retorno sobre o patrimônio de 32,5% (32,4%, segundo Assaf); em seguida vem o Bradesco, com 23,6%. Itaú, com 21,5% (21,9%, segundo Assaf), fica ligeiramente abaixo do Santander chileno, que teve retorno de 21,8% e foi na região o que mais se aproximou dos brasileiros.

Mas, Assaf contrapõe que o elevado retorno do BB é "fruto principalmente da baixa participação do capital próprio". Maior risco propicia geralmente retornos mais elevados.

As taxas de retorno não devem ser avaliadas de maneira isolada; são melhores entendidas quando confrontadas com o risco do investimento. Na média, os três bancos analisados apuraram um retorno de 12,4% acima da taxa Selic, indicando o prêmio pelo risco oferecido aos acionistas. Por outro lado, comparando o resultado com o possível custo de oportunidade dos investidores, o ganho em excesso no ano de 2008 equivale a 5,4%, algo próximo a uma Caderneta de Poupança.

Em relação a 2007, o lucro líquido dos três bancos cresceu, em média, 28,6%. O destaque foi o crescimento no Banco do Brasil (74%) e a redução do lucro líquido do Bradesco (4,86%) em 2008. O retorno sobre ativos dos bancos no país é o dobro da média mundial de 1%, atingindo 1,97% na média dos três bancos, com 1,74% no Bradesco, 1,98% no BB e 2,21% no Itaú Unibanco.

O estudo do Instituto Assaf também avaliou a eficiência dos bancos. As instituições financeiras analisadas utilizaram, em média, 35,9% de suas receitas de intermediação financeira para cobrirem as despesas administrativas e de pessoal em 2008. O banco mais eficiente neste indicador gastou 28% das receitas, e o menos eficiente, o equivalente a 42,7% das receitas financeiras. A diferença de eficiência entre as duas instituições é grande, podendo-se prever a existência de espaço para os bancos ganharem maior margem operacional numa eventual redução do spread, avalia Assaf Neto.

Outra forma de se demonstrar a eficiência operacional de uma instituição é calcular quanto cada uma gastou por dia útil em que manteve suas agências funcionando. Em média, as instituições financeiras gastaram R$ 81,6 milhões por dia útil de funcionamento em 2008.

Das receitas financeiras apropriadas em 2008, 13,8% dos recursos foram direcionados, em média, para cobrir devedores duvidosos. As despesas de pessoal e as despesas administrativas e operacionais consumiram 35,9% das receitas de intermediação dos bancos.

Os bancos apuraram em 2008 o equivalente a 20,5% de suas receitas de intermediação na cobrança de serviços e tarifas de seus clientes. As receitas de serviços e tarifas representam, em média, a 147,8% das despesas com pessoal.

As instituições obtiveram, em 2008, uma margem líquida 14,2%. Em outras palavras, do total das receitas de intermediação obtidas no exercício, restaram 14,2% na forma de lucro líquido, sendo o restante consumido pelos custos e despesas.

Do total da riqueza gerada pelos bancos no exercício de 2008, 34,6% foram destinados à remuneração de pessoal, 27,1% no pagamento de tributos, e 38,3% para remuneração dos acionistas (lucro líquido). Site: http://www.institutoassaf.com.br/assafii/site/default.aspx

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