Nunca antes na história deste país o momento foi tão propício à instauração da monarquia

O presidente Lula está bombando. Na última semana, voltou a exercitar um dos esportes que mais gosta: o disparo de perdigotos à distância. O alvo da vez foi o Judiciário, na figura de Marco Aurélio Mello, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) e presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Na quinta-feira, sem citar o nome do ministro, Lula disparou: "Tem que perguntar se ele quer ser ministro da suprema corte ou quer ser político. Se quer ser político, que renuncie e se candidate a um cargo para falar as bobagens que quiser, a hora que quiser, e não ficar se metendo na política do Poder Executivo".

Deixando de lado a escolha das palavras, algo sempre muito bem feito pelo nosso presidente, fica evidente mais uma vez que Lula não aceita a equivalência de poder entre os três poderes. Talvez por isso, ele manteve e ampliou a prática de entulhar o Congresso com Medidas Provisórias.

Ou seja, do alto da aprovação popular em pesquisas de opinião, ele pretende descolar o Executivo dos outros dois poderes - o Judiciário não pode julgar e nem o Legislativo, legislar. Faz isso de caso pensado, com o objetivo claro de passar a idéia de que ele, Lula, só trabalha pelo bem de todos e felicidade geral da Nação, sendo atrapalhado pelo Judiciário e pelo Legislativo, sem citar outras forças ocultas.

Não é só. Além de se colocar acima dos outros poderes, Lula se arvora o dom de julgar e perdoar aqueles companheiros que derraparam ao longo da estrada da gestão pública. Ao discursar na saída da ministra Matilde Ribeiro, da pasta da igualdade racial, disse que ela não cometeu nenhum crime.

Segundo o presidente, ela havia cometido, apenas, um erro administrativo ao usar o cartão de crédito corporativo em despesas pessoais. Da mesma forma, em outros tempos, também passou a mão na cabeça de José Dirceu e de outros companheiros de escândalos.

Diante de tal postura, podemos dizer que houve um descolamento claro entre Lula e o regime de governo em voga no país. Tal regime já não é suficiente para acolher, representar e fazer valer a vontade do nosso líder. Melhor será promovermos uma mudança de regime, com o retorno à monarquia. Não uma monarquia qualquer, mas uma nova monarquia.

Não seria preciso mexer demais nas leis. Afinal para que servem, se você tem um bom advogado? Bastaria apenas extinguir o cargo de presidente. Lula seria então guindado ao posto de Rei. Neste novo desenho, tudo o que ele quiser e tudo o que disser será considerado lei, revogando-se as disposições em contrário.

Como as contradições humanas são comuns, muitos até dizem que nunca foram aquilo que tentavam aparentar ser, caberá ao Judiciário decidir os casos de conflito, preservando-se a palavra final do Rei.

O Legislativo também será mantido, mas apenas para discutir e votar vontades, desejos e sonhos oriundos do trono real. Ao final das tramitações, as aprovações serão líquidas e certas.

No bojo dessas transformações, o uso da moeda real será extinto. Em seu lugar, vai ser criado o cartão de crédito King Gold Plus, a ser entregue a todo brasileiro maior de 14 anos. Não haverá limite de crédito e as contas serão roladas, mediante o lançamento de títulos públicos lastreados em petróleo, gás, minério de ferro, cana-de-açúcar, soja, aço, feijão, pitomba, jabuticaba e em todas as commodities que tão bem sabemos produzir.

Todos serão iguais perante a lei, mas será melhor se você seguir tudo o que seu Rei mandar. Lula poderá ficar no trono pelo tempo que quiser, sem se preocupar com reeleições, e passará seu cetro a um membro da família ou mesmo a outrem, dentro do que considerar mais conveniente.

Por fim, sugiro que o novo Rei atenda pela alcunha de Lula I, o Nunca D´Antes.

* Tatão de Souza é jornalista e escritor - canalexecutivo@uol.com.br

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