Embraer deveria entrar no mercado de carros e motos

Volto às lides depois de um período de recolhimento, o que é sempre salutar durante o final de ano. Ainda sensível aos engulhos causados pelos temas políticos, entro neste Ano do Porco, pelo calendário zodiacal chinês, abordando um tema que considero estratégico, qual seja a necessidade do Brasil ter uma grande montadora nacional de carros, motos, caminhões e afins.

Perguntaria o leitor: mas por que raios isso é importante? Outro mais "globalizado" indagaria: será este um viés xenófobo? Ora, pitombas, basta olhar para o mapa com o berço das montadoras para entender o que digo. Está lá: todos os países industrializados com presença importante nos negócios internacionais têm suas montadoras. Isso, sem contar a força em outros bens de consumo duráveis (como microcomputadores e eletroeletrônicos), cuja participação brazuca é minúscula.

Mas, o maior de todos os argumentos a favor da montadora nacional está na onda verde dos combustíveis, que tomou conta do debate energético, depois que o preço a futuro do petróleo bateu nos píncaros. Veja você, de Bush filho aos veículos de comunicação mais importantes do mundo, todos citam o Proálcool como um exemplo bem-sucedido de redução da dependência do petróleo, com a vantagem de que a queima do álcool polui menos.

Como pode, então, que o país tenha ido tão longe no desenvolvimento de alternativa para a dependência do petróleo, mas não tenha evoluído para a produção de um "carro verde" nacional? Pois é, no momento em que o mundo pede combustíveis "verdes", poderíamos vender os dois, tanto os veículos como seus propulsores. Já pensou o apelo mercadológico?

Mas não temos esta alternativa. Apesar de a tecnologia do uso do álcool nos veículos ter sido desenvolvida nos laboratório do Instituto Tecnológico Aeroespacial (ITA), com dinheiro público, ela não serviu para catapultar uma montadora nacional. Foi repassada de graça para as montadoras estrangeiras aqui instaladas.

Não se pode dizer que faltou a chance de se fermentar a indústria nacional. Nos anos 80, depois de ganhar musculatura vendendo jipes e utilitários, Amaral Gurgel quis entrar no mercado de veículos de passeio. Visionário, batizou o plano de Cena, ou Carro Econômico Nacional, cuja proposta básica era produzir carros simples, com baixas cilindradas e preço reduzido, graças a alíquotas de impostos diferenciadas.

A proposta de produção também era inteligente. Envolvia uma central produtiva em São Paulo e unidades regionais, que receberiam as peças pelo sistema CKD e fariam a montagem final dos carros. Gurgel pretendia com isso construir veículos adaptados às diversas condições regionais do país.

A primeira e única dessas unidades foi erguida em Fortaleza. O projeto nasceu com a promessa de apoio financeiro dos governos cearense e paulista (Ciro Gomes e Fleury Filho, respectivamente) e do BNDES. O tutu dos estados nunca saiu e o BNDES ficou impedido de comparecer. Nos início dos anos 90, depois de um último pedido de socorro enviado ao governo Itamar Franco, a empresa pediu falência, deixando no desalento centenas de pequenos acionistas que acreditaram no projeto.

Alguns dizem que o lobbie das montadoras trabalhou em quinta marcha pelo fracasso de Gurgel. Outros dizem que faltou tino administrativo ao empresário, que não soube dar o salto que o guindaria ao mundo dos grandes. Qualquer que seja a explicação, talvez tenha ficado na curva a última chance do país de marcar presença neste mercado.

Nem tudo foi fracasso na experiência. As montadoras multinacionais pegaram carona na idéia da redução de impostos e lançaram o chamado carro popular, com até 1 000 cilindradas, campeão de vendas durante anos, mas que está perdendo participação por conta da queda no custo dos financiamentos.

Diante dessa mudança de perfil do mercado e do fato de que as montadoras estão indo muito bem, obrigado, talvez seja hora de retomar o projeto do carro econômico nacional. E que isso seja feito por uma brasileira, não como querem empresas chinesas, que já bateram à porta do BNDES com a intenção de levantar algum financiamento para suas fábricas de carros populares por aqui. Não seria curioso: brecar repasse de verba para a Gurgel e anos depois emprestar para empresas chinesas com intenção similar?

Entre as opções de empresas disponíveis no mercado para o desenvolvimento e produção do carro brasileiro, a mais lógica é a Embraer, celeiro de um dos poucos bens feitos por aqui que tem respeito lá fora. É bom lembrar que a semente da ex-estatal foi gerada no mesmo ITA que desenvolveu a tecnologia do motor a álcool.

A brasileira estaria, assim, seguindo o caminho inverso da japonesa Honda, que começou como uma loja de bicicletas, evoluiu para as motos e os carros e, recentemente, chegou aos aviões. E aterrissou bem: durante uma feira especializada, na Flórida, realizada em outubro de 2006, a Honda Aircraft recebeu cem pedidos para HondaJet, seu primeiro jato executivo.

Somente a força dos jatos produzidos pela Embraer será capaz de tirar um pouco do atraso brasileiro na indústria automobilística. Se não for assim, continuaremos a vender commodities, como o álcool e outros biocombutíveis, e a comprar as "carroças" dos outros.

Curiosidades curiosas:

- China e Índia são países com renda per capita inferior à brasileira. Os dois tem marcas locais de veículos.

- Na China, 75% do mercado é dominado por marcas estrangeiras, mas as vendas das marcas nacionais crescem a taxas superiores a 50% ao ano.

- Na Índia, mais da metade das vendas domésticas são dominadas por empresas indianas.

- A China se tornou, em termos líquidos, uma exportadora de veículos em 2005

- A Índia pretende multiplicar por quatro a produção e venda de veículos durante a próxima década, chegando a 8 milhões de veículos por ano

Saiba mais sobre o mercado global de veículos em:

Vendas globais de veículos devem estabilizar

Outra curiosidade envolvendo importante commodity tupiniquim:

- Somos o maior produtor mundial de café e perdemos feio na exportação de café solúvel. Alemanha e Suíça nadam de braçada nesse filão. Ganha um sachê de cafè quem souber o motivo.

* Tatão de Souza é jornalista e escritor - canalexecutivo@uol.com.br

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