Tatão de Souza

Escocês pisa na jaca ao falar de carne brasileira

Folgo em voltar às lides diárias do jornalismo, depois de um período de recolhimento hospitalar, acolhido que fui por uma pneumonia. Muito há o que ser escrito sobre os acontecimentos dos últimos dias, e prometo cumprir a missão a mim confiada. Antes, porém, preciso tratar de nota que ocupou o noticiário recentemente.

Quase tive uma síncope ao ler estupefato a seguinte manchete do períodico inglês The Dayle Telegraph, repercutida aqui no Brasil pelo serviço noticioso da BBC: "Carne barata brasileira importada é 'subsidiada por trabalho escravo".

O texto informa que a fonte é um estudo feito por David Ismail, um fazendeiro de Pertshire, na Escócia, com financiamento da organização de caridade Nuffield Foundation.

Cáspita, direi eu. Sabem todas as vacas loucas da terra da rainha que a produção de carne bovina por lá foi para as cucuias por culpa dos próprios súditos de sua majestade.

Serei didático: a ração dada aos bovinos criados em cativeiro tinha em sua composição carcaças de outros animais ruminantes. Algum gênio da produção de ração deve ter imaginado que a proteína animal faria o boi gordo berrar mais rápido.

O fato é que o "canibalismo bovino" causa a doença Encefalopatia Bovina Espongiforme, BSE na sigla em inglês, que tem esse nome porque os miolos do bicho ficam parecendo uma esponja. No início do anos 90, começaram a pipocar casos de ingleses contaminados pela doença, por conta da ingestão de carne de animais contaminados. Esta versão leva o nome de Encefalopatia Humana Espongiforme.

(Vai aqui um parênteses: o canibalismo também cobra um preço aos humanos. Nos anos 50, descobriu-se doença similar entre os papuas, nativos da Nova Guiné. Eles costumavam se regalar com partes de corpos ou de cérebros de parentes mortos, em rituais fúnebres. O mal leva o nome nativo de kuru)

A chamada doença da vaca louca acabou sendo detectada em diversos países, entre eles Canadá, Estados Unidos e Japão. Muitos governos botaram a culpa na importação de gado inglês. O fato é que isso ajudou a puxar a venda da carne brasileira no exterior. Resultado: nos últimos três anos, o Brasil liderou o comércio internacional.

Muito criador de gado do Velho Mundo ficou chupando o dedo desde então. Deve ser o caso do fazendeiro highlander, cujo país é mais conhecido pelo puro malte que pela suculência de suas carnes.

Talvez embalado por algum líquido conterrâneo, ele disse ter visto trabalho escravo em regiões ermas, nas quais a floresta dá lugar ao pasto que vai alimentar o gado. Isso acontece, é vergonhoso e precisa ser combatido. Mas a carne que sai dessas fazendas não tem nada a ver com a picanha brasileira que ganha o mundo.

Tivesse ouvido criadores ou exportadores brasileiros, o periódico poderia informar melhor seus leitores. Saberia que nas fazendas nas quais se produz gado em escala industrial o que mais tem é trabalhador com carteira assinada e direitos trabalhistas. Na verdade, foi o salto da agropecuária nos últimos anos que ajudou a puxar a criação de empregos formais pelo interior do país.

Os produtores não fazem isso porque são bonzinhos. Eles sabem que não vão conseguir vender para clientes em países socialmente avançados, que são exigentes sobre as condições de produção. O cuidado é tanto que existe um programa, incentivado pelo governo federal, para rastrear a carne por chip, do pasto ao porto.

Esse tipo de matéria do diário inglês não leva à nada. Apenas alimenta aquela velha imagem dos trópicos. Pior, pode incentivar sentimentos xenófobos. Ainda agora um brasileiro foi espancadado brutalmente na Austrália. Você pode até imaginar que ele foi vítima da recente onda de racismo contra estrangeiros.

O detalhe é que os fazendeiros australianos foram os maiores prejudicados com a crescimento da carne brasileira. Estão vendendo menos e a preços menores.

* Tatão de Souza é jornalista e escritor - canalexecutivo@uol.com.br

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