Tatão de Souza

O Greenpeace, a soja e o lado sujo do crescimento chinês

Os grandes economistas, os proeminentes capitães da indústria nacional, e os políticos de toda espécie gostam de citar as taxas de crescimento da China como algo a ser buscado pela economia brasileira.

Dizem esses sábios que só assim resgataremos a nossa dívida social, aquela mesma que faz do Brasil um dos campeões mundiais de desigualdade em distribuição de renda.

Balela. O Brasil já exibiu taxas de crescimento econômico de padrão asiático. Na verdade, foi uma das economias de maior crescimento no século passado. O resultado foi exatamente concentração de renda e concentração de produção industrial na região Sudeste, principalmente em São Paulo.

Pior foi a herança maldita da poluição, que tem na capital paulista seu grande monumento. Por conta disso, quem vive na cidade pode morrer até 2,5 anos mais cedo. Ainda hoje, nos meses de frio, a cidade vê crescer para acima da média a taxa de mortalidade entre crianças e velhos, os mais afetados pelo ar imundo.

Já foi pior. Antes do álcool combustível e das medidas de contenção de emissões de poluentes, o paulistano morria até 3,5 anos mais cedo.

Em Cubatão, uma verdadeira cidade-câncer incrustada ao pé da Serra do Mar, medidas ambientais só começaram a ser tomadas quando pipocaram os casos de nascimentos de crianças sem cérebro.

Esse preâmbulo todo foi para dizer que as taxas de crescimento chinesas também têm um alto custo ambiental. Os especialistas dizem que este é o crescimento econômico mais sujo da história recente da humanidade.

Resultado: a terra, que já não era boa para a agricultura, agora está contaminada e logo pode faltar água potável em estado natural. Num país em que quase 80% da população ainda mora no campo, isso pode ser dramático, caso o governo não breque a devastação.

O Brasil é a Geni dos ecologistas

Para variar, a imprensa internacional voltou a dar destaque a um dos estudos científicos sobre o Brasil produzidos nos laboratórios do Greenpeace. Diz a pesquisa da vez que o plantio da soja devasta a Amazônia. Pede ainda boicote a redes de lanchonetes que utilizem carnes engordadas com a soja colhida em áreas antes ocupadas por florestas.

Depois de falarmos de toda a poluição que a China espalha, sem que os protestos internacionais ganhem as manchetes de periódicos como o Financial Times, e nem sejam motivos de boicote, fica a impressão de que o Brasil é a Geni dos ecologistas internacionais.

Para os mais jovens que me lêem, vale lembrar aqui o refrão da música Geni e o Zepelin, composta pelo nem um pouco poluído Chico Buarque, para a peça A Ópera do Malandro, no final dos anos 70:

"Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni"

Para terminar, uma pergunta:

1) O que os gases emitidos pelos ovinos da Nova Zelândia têm a ver com a camada de ozônio?

Quem acertar ganha uma carteirinha verde do Greenpeace.

* Tatão de Souza é jornalista e escritor - canalexecutivo@uol.com.br

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