Tatão de Souza

A lógica por trás da Azaléia na China

É curiosa a repercussão que tem sido dada à decisão da gaúcha Azaléia, uma gigante mundial dos sapatos, em terceirizar parte da produção na China. Aos quatro cantos, o fato tem servido como mote para se criticar a valorização do real.

Ora, isso é só uma parcela da história. Pequena até. O que a Azaléia tem feito nos últimos anos é buscar alternativas de redução dos custos e de aumento dos lucros. Por isso, migrou com tanta voracidade para cidades nordestinas, onde pode pagar salários mais baixos do que nas cidades de seu estado natal e ainda conta com a ajudinha dos incentivos fiscais e outras benesses.

Por conta da migração, pode-se dizer que está virando uma empresa nordestina. No ano passado, abriu quatro novas unidades no Sergipe, chegando a um total de cinco. Na Bahia, dispõe de quase 20. Só para comparar, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1958, restam cinco.

Em dezembro de 2005, sob a justificativa de que perdia a guerra para o câmbio, fechou uma fábrica gaúcha e mandou 800 para a rua. Mas, vem cá, se o problema é o real valorizado, por que abriu no Nordeste e fechou no Sul? O câmbio não é o mesmo em todo o país?

Deputado estadual pelo PT gaúcho, Fabiano Pereira elencou num artigo algumas explicações para os movimentos da Azaléia. No texto, publicado em dezembro passado, ele diz que a empresa virou "parasita da guerra fiscal" e que "encontra no Nordeste renúncias de até 90% no crédito do ICMS e benfeitorias nos setores de energia e estradas".

Além disso, a Azaléia fecha unidades gaúchas porque estaria insatisfeita com medidas implementadas pelo governador Germano Rigotto, que restringiu o crédito de ICMS para empresas exportadoras.

Lembra ainda o deputado estadual que "entre 1994 e 1998, o governo do Rio Grande do Sul (cujo governador era Antônio Britto), através do Fundopem, concedeu à Azaléia mais de R$ 40 milhões em renúncias fiscais, ou seja, dinheiro que o Estado abriu mão em favor da empresa". Não deixa de ser curioso que o ex-governador seja o atual presidente da fabricante de calçados.

Deixando de lado o tiroteio político, é bom dizer que o problema do setor calçadista brasileiro está no gigantismo do grande patrão do mercado global: a China. A produção por lá bate a brasileira em mais de 30 vezes. Dá para encarar? Dá, mas não só com o câmbio.

É preciso que o governo entre em campo e tome providências específicas para este setor, que emprega mais de 500.000 pessoas. Mas que tome cuidado com a choradeira em excesso. Vamos aos números:

Em 2005, as exportações de calçados caíram para 189 milhões de pares contra 212 milhões em 2004. Só que a receita subiu de US$ 1,809 bilhão para US$ 1,888 bilhão. Qual o segredo? Resposta: as empresas reajustaram os preços em 17%.

Claro que não dá para continuar puxando o preço indefinidamente. Por isso, o empresário precisa se mexer e tratar de melhorar a produtividade e a qualidade de seu negócio, com investimento em máquinas e em novas tecnologias e materiais. Quem fizer a lição de casa, sobrevive. Quem não fizer, vira pé de chinelo.

Encerro com o pensamento do dia: Empresário que só consegue viver às custas de isenção fiscal e de ganhos cambiais, ou mesmo da inflação, não é empresário. Faz melhor se correr para a jogatina do mercado financeiro ou para o pano verde dos cassinos.

* Tatão de Souza é jornalista e escritor - canalexecutivo@uol.com.br

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