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"Mexida"
na poupança é cortina de fumaça
para agrado aos bancos e à classe média
13-05-2009
Folgo em ver o quanto este governo é pródigo
em produzir coisa nenhuma. Hoje, altas autoridades da
área econômica tomaram o tempo da imprensa
para explicar as "novas regras para a caderneta
de poupança".
Como este é um assunto que interessa a muito
mais gente do que as regras para os fundos de investimento,
qualquer vírgula que se lance sobre ele vai virar
manchete de jornal e ocupar maior tempo e espaço
do noticiário.
Mas, ao fim e ao cabo, só ficou melhor mesmo
para os bancos, que cobram escorchantes taxas de administração
para aplicações em fundos de quem tem
menos de R$ 1 milhão, a chamada classe média
e média alta, ela também a ser beneficiada
pelo corte da alíquota do imposto de renda incidente
sobre os ganhos.
Por que? Explico: as "novas regras para poupança"
estão no condicional e ainda dependem do Congresso.
Se valerem, só valem para 2010, com impacto na
declaração do Imposto de Renda de 2011.
Viu só?: depois das eleições para
a presidência da República.
Assim, o abacaxi cairá no colo do sucessor do
presidente Lula. Qualquer que seja ele, governista ou
da oposição, terá que adotar mudanças
mais radicais nas regras da poupança, se quiser
levar o país a um cenário de juros básicos
(a Selic, que é definida pelo Banco Central a
cada 45 dias) civilizados.
Por outro lado, se a inflação der um
repique e os juros básicos pararem de cair, fica
tudo como dantes no paraíso tropical chamado
Brasil.
De qualquer forma, temos um enrosco a ser resolvido
que é a rentabilidade tabelada da caderneta de
poupança, uma invenção nacional,
que criou um piso para a queda dos juros básicos.
Faria melhor o governo se abrisse a discussão
de forma séria.
Faria melhor se mandasse a classe média exigir
de seus gerentes de aplicação uma refresco
na taxa de administração. Comparando:
quem tem menos de R$ 1 milhão chega a pagar 4%
ao ano. Quem tem para lá de R$ 1 milhão
sua menos, cerca de 0,5%.
Faria melhor se incentivasse o uso do Tesouro Direto,
mecanismo público pelo qual é possível
aplicar em títulos públicos, sem pagar
penas tão salgadas pela intermediação
bancária.
Mas aí arranjaria encrenca com os banqueiros,
o que nunca é bom quando se está perto
de entrar numa corrida eleitoral e os bancos são
grandes contribuidores, independentemente das cores
partidárias.
Resumo da ópera: o corte no IR para aplicações
em fundos de renda fixa de até 180 dias virá
no galope de uma Medida Provisória. Assim, os
bancos vão continuar faturando alto com suas
taxas de administração sobre esse tipo
de investimento (cerca de R$ 15 bilhões por ano,
segundo o deputado Ronaldo Caiado, em entrevista à
rádio CBN nesta quarta-feira). Já a classe
média, ao pagar menos impostos sobre seus ganhos
em fundos, poderá manter seu dinheirinho onde
está.
A propósito: essa diferença de taxas
de administração cobradas pelos bancos
se reflete em todos os serviços. Se você
é um grande empresário e precisa de um
empréstimo, pagará taxas de juros de primeiro
mundo. Se for nanico, vai ter que carregar a cangalha
dos juros altos.
Pois é, o Brasil é o país da má
distribuição de renda, má distribuição
do crédito (BNDES adora atender aos grandalhões),
e da má distribuição dos juros
(os altos ficam só para os clientes pequenos).
* Tatão de Souza é jornalista
e escritor - canalexecutivo@uol.com.br
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