| Só
nos restam os grãos na OMC
A Organização Mundial
do Comércio enfrenta uma rodada decisiva
em Hong Kong. Repete-se a eterna disputa em torno
de tarifas e proteções. Cabe ao
Brasil, como um dos cabeças do G-20, uma
posição de destaque neste encontro.
Uma conjugação de
fatores favoráveis levou a esta situação,
impensável poucos anos atrás. Na
base, foi a qualidade da pesquisa científica
da Embrapa que ajudou a puxar a produção
agrícola de diversos produtos, notadamente
soja, milho, algodão e cana-de-açúcar.
Ao mesmo tempo, problemas sanitários em
outros países contribuíram para
incrementar a criação de gado e
de aves.
Hoje, o Brasil faz parte da elite
mundial dos produtores de alimentos. Também
aparece com destaque na produção
de outros bens primários e intermediários,
como ferro, papel e celulose, e aço. Em
bens de consumo, nossa força é nenhuma.
Repare na história que
se repete: rádio de pilha made in Japan,
made in Coreia, made in China. Em todos esses
países, o ciclo foi construído para
ir da matéria-prima ao produto final, sempre
de olho no mercado externo. Aqui, não.
Por isso somos dependentes.
Detalhe: em todos esses países
a pirataria correu solta até o momento
em que não interessa mais -- normalmente
isso se dá quando o pirata avança
tecnologicamente.
Política industrial no
Brasil sempre foi pensada para ajudar a alguns
poucos amigos do poder de plantão. Todos,
invariavelmente, se refastelam nas verbas subsidiadas
do BNDES. Esse modelo, alheio à concorrência
e ao mercado global, tornou o país fraco
industrialmente.
Tirando os aviões da Embraer,
que produto made in Brazil faz sucesso lá
fora em mercados importantes? Veja que curioso:
somos os maiores do mundo na colheita de café,
mas não temos presença significativa
no mercado do produto industrializado. Firmas
da Alemanha e da Suíça, por exemplo,
dominam o filão do café solúvel.
Mas não precisa inventar
a roda para mudar isso. Quer ver um mercado no
qual o Brasil poderia fazer e acontecer no exterior,
se as empresas locais recebessem um empurrãozinho
governamental?: perfumaria e cosméticos.
Mas isso vai acontecer? Duvido.
Faltam visão e projeto
para o governo federal -- não só
na gestão do PT, mas na maioria das anteriores,
também. É por isso que na OMC somos
lembrados apenas como produtor de alimentos.
* Tatão de Souza é
jornalista e escritor - canalexecutivo@uol.com.br
Todas
as colunas
|