Tatão de Souza

Polarização entre Lula e Alckmin sinaliza o fim de uma era

Gostam de dizer os políticos de mão suja que a população tem memória curta. Trata-se de uma empulhação. Senão vejamos: desde que as eleições diretas voltaram para todos os níveis do executivo, em 1989, nota-se uma salutar evolução do eleitorado.

O pleito municipal de 2004 chegou a ser saudado por alguns analistas como o maior exemplo desta evolução, visto que velhos caciques foram derrotados e nem o peso do presidente Lula foi suficiente para o PT manter as cadeiras em São Paulo e em Porto Alegre.

Caminhamos agora para mais uma eleição presidencial na qual PT e PSDB disputam as preferências. De um lado, teremos o homem de origem humilde, que fez carreira como sindicalista, conquistou apenas um mandato de deputado federal, antes de ser guindado à Presidência, depois de três derrotas consecutivas.

Exibe como grande feito de sua gestão no Planalto o fato de não inventar moda na área econômica, deixando que as coisas se acertem com o tempo, seguindo a cartilha do FMI e do Banco Mundial.

Do outro, o médico bem sucedido, que foi deputado federal, prefeito e governador, tendo se transformado num dos maiores herdeiros políticos e do estilo administrativo do falecido governador Mario Covas.

Lula é o típico político populista, tão comum em países onde o grosso da população vive à margem do mercado. Nesse ambiente, fica fácil pescar votos atirando promessas e sonhos ao léo.

Apesar da sujeirada armada por algumas estrelas petistas, o presidente tem conseguido retomar às graças do eleitorado, segundo pesquisas de intenção de voto. Jura de pés juntos que não sabia de nada.

Alckmin, por sua vez, exibe 12 anos consecutivos no Palácio dos Bandeirantes, quase a metade como vice de Covas. No período, as finanças estaduais foram saneadas e importantes obras saíram da gaveta, como a 2ª pista da Imigrantes, o Rodoanel, e a ampliação do metrô paulistano.

Seu jeito comedido, porém, já lhe rendeu apelidos como o de picolé de chuchu. Pouco conhecido no resto do país, o governador aparecia atrás do prefeito José Serra nas pesquisas.

Essas avaliações são muito mais positivas do que aparentam. Primeiro porque a evolução do eleitorado faz com que os políticos populistas percam espaço gradativamente, dando lugar a pessoas comprometidas com a boa gestão pública, por mais farol baixo que sejam.

Segundo porque o potencial de crescimento do governador nas pesquisas é muito maior do que o de Serra. Entre outros motivos para tanto, está o fato de que Alckmin desfruta de menor índice de rejeição.

Teremos, assim, uma disputa claramente polarizada entre o presidente personalista, que enche de esperança o imaginário e o bolso das classes menos favorecidas, e o governadorm paulista, que carrega a imagem de bom administrador e de tocador de obra.

Ainda acho que Lula leva vantagem nesta disputa e pode ser reeleito - isso ocorreria mesmo com Serra candidato. Estaremos, no entanto, assistindo ao fim de uma era. A estirpe dos candidatos à Presidência populistas, personalistas, salvadores da Pátria, que falam muito mais à emoção do que à razão, acaba com Lula.

* Tatão de Souza é jornalista e escritor - canalexecutivo@uol.com.br

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