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Nova
Lei do Aborto, violência em SP e eleições
O estado de São Paulo vem
sofrendo ataques do crime organizado desde maio.
Na época, já estava lançado
o nome do ex-governador Geraldo Alckmin à
presidência da República. Agora,
em julho, houve nova carga. E já tem gente
antevendo outra onda dentro de um a dois meses.
É preciso que se diga com
todas as letras que existe, sim, objetivo político
nesses eventos. Não acuso partidos de estarem
por trás dos ataques. Mas o crime organizado
quer influir no resultado das eleições,
sim. Quer a derrota do grupo que ocupou o poder
desde a eleição de Mario Covas.
Entenda-se: nos últimos
anos, São Paulo investiu como nunca em
segurança. Chegou a inaugurar um presídio
por mês, conforme declaração
do candidato tucano José Serra. A polícia
prendeu e isolou alguns dos principais líderes
de facções criminosas. Estatísticas
oficiais exibem melhoras na maioria dos índices
de criminalidade.
Adiantou? Não. Vai adiantar?
Não. A continuar gastando nesse ritmo e
a continuar inaugurando tantas prisões,
logo São Paulo será um estado-presídio.
No fundo, o problema é
social e econômico. Prender, ou matar como
alguns gostam de propor, não resolve nada.
A dívida com a população
mais pobre é tamanha, a indecência
da distribuição de renda é
de tal ordem, que levaremos décadas para
curar essas feridas.
Não basta dizer que a culpa
é do baixo do crescimento econômico.
Já crescemos a níveis asiáticos
e nem por isso houve distribuição
de renda. Programas públicos compensatórios
são apenas isso, compensatórios.
Reduzem a pobreza, mas não geram riqueza.
Pior, abalam o poder de investimento dos governos.
Um crescente - e de longo prazo
- programa de crédito para micro e pequenos
empresários será muito mais eficiente
na distribuição de renda e na geração
de empregos. Melhor, haverá mais consumo,
mais arrecadação de impostos. Alguns
dos novos empresários vão quebrar,
mas é assim que gira a roda capitalista.
Mas nenhum governo tem coragem
de levar isso adiante. Teme-se peitar o grande
capital, a velha burguesia que domina as estruturas
e mama nas linhas de crédito subsidiadas.
O presidente Lula, que veio da pobreza nordestina,
não deveria prometer 10 milhões
de empregos na sua campanha eleitoral.
Deveria dizer: "Vou criar
10 milhões de empresários, que criarão
muitos milhões de empregos". Só
que este discurso não interessa nem à
esquerda nem à direita. Todos preferem
cevar seu rebanho de trabalhadores-eleitores.
O ruim disso tudo é que
a população tem perfil empreendedor,
como revelam pesquisas comparativas mundiais.
Só que a falta de capital barato, dificuldades
regulatórias e burocráticas fazem
com que a maioria dos que tentam virar patrão
fechem às portas antes de completar dois
anos de vida.
Aborto
Seria preciso muita coragem também
para poder mexer com outro tema considerado tabu
no Brasil, principalmente pela força da
igreja Católica: o aborto. Precisamos urgentemente
liberalizar e dar acesso ao aborto às classes
sociais mais humildes.
Sim, porque hoje só as
mulheres mais abastadas podem se livrar de uma
gravidez indesejada sem correr o risco de infringir
a lei. Basta recorrer aos seus médicos
de família ou à alguma clínica
discreta, aqui ou no exterior.
As mulheres pobres só têm
o direito de recorrer ao aborto legalmente se
forem vítimas de estupro ou se a gravidez
colocar suas vidas em risco. Antes, porém,
devem enfrentar um desgastante e humilhante périplo
burocrático, que inclui a confecção
de um Boletim de Ocorrência, no caso de
estupro, a laudos de três médicos,
no caso de risco à vida.
Descriminalizar o aborto é
uma decisão duplamente positiva. Primeiro,
no sentido de que garantirá direitos iguais
a todas as brasileiras, ricas e pobres. E, segundo,
porque terá impacto nos índices
futuros de criminalidade.
Veja-se o que aconteceu nos Estados
Unidos. Lá, o aborto foi liberalizado no
início dos anos 70. Vinte anos depois,
todos os índices de criminalidade desabaram,
em todas as cidades do país. Detalhe: no
início da década de 90, os EUA pareciam
na eminência de enfrentar uma guerra urbana,
com alguns estudiosos prevendo uma explosão
dos homicídios praticados por adolescentes.
Todas as previsões catastróficas
deram errado. O que aconteceu é que muitos
dos jovens que iriam praticar esses crimes simplesmente
não nasceram. Foram abortados. Precisamos
deixar a hipocresia de lado e aprender com essa
experiência.
Se você quiser saber um
pouco mais sobre a realidade americana, ela está
detalhada no livro Freakonomics, de Steven Levitt
e Stphen Dubner, lançado no Brasil pela
Campus. Lá também explica por que
os traficantes continuam morando com as mães.
* Tatão de Souza é
jornalista e escritor - canalexecutivo@uol.com.br
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