As filhas do SBT e as meninas da CDHU

Primeiro, vamos explicar as siglas: SBT é Sistema Brasileiro de Televisão, rede de Senor Abravanel, nome original de Silvio Santos; CDHU é Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano, ligada à Secretaria de Habitação de São Paulo.

Agora, vamos aos fatos. Em 2001, o empresário teve uma das filhas sequestrada. Ela foi solta após o pagamento do resgate. Mas, o extraordinário estava apenas começando. Depois de perseguições mirabolantes, fugas inexplicáveis, as mortes de dois policiais civis, o mentor do sequestro foi parar na casa do apresentador, no Morumbi, em São Paulo.

Convencido pelo próprio Silvio, deixou que a mulher dele, as filhas e demais ocupantes da casa saíssem do local. Sete horas depois, o sequestro acabou com a chegada do governador Geraldo Alckmin. A presença de Alckmin foi criticada por alguns e elogiada por outros. Silvio chegou a dizer que temia pela sua vida e pela de policiais, caso o governador não tivesse ido.

Dizem que quem deu a idéia de chamar o governador ao sequestrador foi o próprio Silvio. Versões à parte, o motivo para o convite, no mínimo insólito, era o de garantir que o sequestrador não seria morto "acidentalmente". Tudo seguiu conforme o combinado na libertação e ninguém se feriu.

Menos de seis meses depois, o sequestrador morreu num Centro de Detenção Provisória, na capital paulista. A ONG Teotônio Villela de Direitos Humanos emitiu relatório dizendo que a morte se deu por conta de espancamento e pela falta de atendimento médico. Como é comum no país, outra triste recordação da casa dos mortos.

No início da noite desta sexta-feira, chegou ao fim o mais longo caso de cárcere privado em São Paulo. Uma menina de 15 anos ficou a semana toda sob a mira de revólver, apontado pelo ex-namorado, que estaria inconformado com o fim do namoro. Uma amiga compartilhou do sofrimento durante mais de 30 horas, foi solta e, espantosamente, voltou ao cativeiro. A polícia diz que ela voltou porque quis e que a mãe autorizou.

O drama se desenrolou num conjunto habitacional erguido pela CDHU, na cidade de Santo André, ao lado da Capital. São moradias para a população de baixa renda. Dá para identificar o autor da obra porque algum gênio da companhia achou por bem mandar pintar em letras garrafais a sigla CDHU em alguns prédios.

Pois as meninas da CDHU não tiveram a mesma sorte que as filhas e o fundador do SBT. No momento em que escrevo, a ex-namorada está em coma, em estado considerado gravíssimo. Levou um tiro na cabeça e outro na virilha. A amiga levou um tiro no rosto e a evolução do seu quadro é boa. O ex-namorado está preso.

Diz a polícia que a invasão se deu depois que se ouviu um tiro. Relatos na imprensa falam que aconteceu uma explosão (bomba de efeito moral) e, só depois, foram ouvidos os tiros. Qualquer que seja a versão, a operação foi um fracasso completo.

A polícia precisa ter gente treinada e capacitada para negociar nessas situações. Gente que sabe o que deve fazer. É claro que aqui, e em qualquer lugar todo mundo, em alguns casos é preciso usar a força. Mas o risco deve ser calculado de forma a que os danos sejam mínimos. Não parece ter sido o caso. Afinal, só as reféns se feriram.

Ainda na sexta, um promotor de Justiça foi ao local do cativeiro com um documento, no qual se garantia a integridade física do rapaz, caso ele soltasse as meninas e se rendesse. Não foi suficiente e deu no que deu.

Às duas da madrugada deste sábado, o governador José Serra foi ao hospital onde as meninas foram internadas. Segundo nota da Folha Online, foi lá "prestar solidariedade às famílias, desejar boa sorte e torcer pela saúde das meninas". Não estranhe o horário. O governador é famoso por varar a madrugada. Mas é cedo ou tarde demais?

Não defendo aqui a intervenção do governador, qualquer que seja ele, nas negociações para a libertação de reféns. Não sei se Alckmin iria ao prédio da CDHU ou se Serra aceitaria o convite de Silvio. O que sei é que, assim como num jogo de xadrez, o rei, às vezes, precisa se mexer.

* Tatão de Souza é jornalista e escritor - canalexecutivo@uol.com.br

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