Tatão de Souza

Quanta diferença entre dólar e risco-país de 2002 para cá

Em 2002, o dólar foi às alturas, por causa da tensão pré-eleitoral. Beirou a casa dos R$ 4. Já o risco-país superou os 2.400 pontos em setembro. O medo do mercado chamava-se Lula.

Quase quatro anos depois, quanta diferença. Tudo porque o governo tem feito exatamente o contrário do que os investidores temiam. Em vez de dar o calote na dívida, está pagando. Em alguns casos, antes do vencimento.

No alvo da ação, coordenada pelo secretário do Tesouro, que já foi funcionário do FMI, Joaquim Levy, está a classificação de investment grade, por parte das agências de risco.

Ao chegar lá, o país será visto como seguro pelo investidores, ou seja incapaz de dar calote. Isso permitirá que alguns fundos de investimento estrangeiros possam aplicar em papéis brasileiros, pois alguns são proibidos de colocar dinheiro em países com classificação pior.

Já as empresas brasileiras conseguirão captar recursos mais baratos no exterior, ampliando a tão combalida taxa de investimento na produção. Resumo da ópera: o Levy almeja baratear o acesso à poupança externa.

Apedeutas de todos os quilates gostam de disparar perdigotos contra a política econômica do Lula, dizendo, entre outras coisas, que ela segue a toada dos tucanos. Besteira pura.

Entenda-se: a política econômica deste e de todos os governos, desde que o país recorreu aos socorros externos, depois do calote da dívida na era Sarney, depende da bênção do FMI, do Banco Mundial, e do Tesouro americano.

Caso o governo Lula tivesse rasgado a cartilha do FMI, ou tivesse adotado trilha mais populista na macroeconomia, estaríamos hoje num ambiente pré-falimentar, muito parecido com o de 2002.

Alguns dizem que a Argentina fez diferente e cresce a níveis asiáticos. Mais abobrinhas. O PIB argentino terminou 2005 um pouco acima do patamar de 1998. Quer dizer, estão tirando o atraso.

O pífio resultado do PIB brasileiro no ano passado (alta de 2,3%) foi resultado do baque do agronegócio e da falta de poupança interna para investimentos. Selic alta e crise política influenciaram bem menos do que se diz.

Podia ter sido diferente se o governo, assim como sugeriu o FMI e o Banco Mundial, tivesse aberto mais as torneiras do BNDES para os pequenos empresários. Sabem eles que o efeito multiplicador dessa verba sobre emprego e distribuição de renda é muito maior do que quando se empresta para os grandes.

Por fim uma pergunta: por que os grandes empresários choram tanto por causa dos juros altos, se podem mamar nas taxas subsidiadas dos financiamentos oficiais e têm tratamento diferenciado nos bancos privados?

Quem acertar, ganha um empréstimo de longo prazo, corrigido pela TJLP.

* Tatão de Souza é jornalista e escritor - canalexecutivo@uol.com.br

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