Graças à inflação do trigo, consumidor leva mandioca

Velho que estou, há muito assisto abestalhado as flutuações dos chamados temas globais. São aqueles assuntos que tomam conta da rotina parva de todos nós e nos fazem bovinamente discutir o porvir.

Agora, em paralelo ao aquecimento global (não diziam antes que o sol estava esfriando), temos a crise mundial dos alimentos. Ora, pitombas, desde quando africanos, grande parcela dos asiáticos, e muitos latinos podem reclamar de barriga cheia?

Pois é, comida farta e desperdício sempre houve e haverá nos países ricos. Basta ver como cresce a circunferência abdominal de seus habitantes, a ponto da obesidade já ser considerada doença nos EUA. São esses países que, juntos, gastam US$ 1 bilhão de dólares por dia em subsídios para sustentar sua produção agrícola ineficiente.

O que está acontecendo com o preço dos alimentos hoje é filme velho. Já aconteceu outras vezes, a última delas na década de 70, quando, curiosamente, o preço do petróleo também dava saltos olímpicos, o lastro ouro do dólar foi para o espaço pelas mãos do presidente Nixon e os mercados financeiros mundiais dançavam o baile dos insensatos.

É neste ambiente de estouro da boiada que surge um tipo peculiar de aproveitador, o especulador-abutre, que passa a fazer suas apostas no mercado de commodities agrícolas. Afinal, basta sair berrando que vai faltar comida para os preços subirem ainda mais.

Deixando essa peroração toda de lado, vamos trazer o assunto para o nosso quintal, ou melhor para nossa mesa. Nos últimos dias, a chamada inflação do trigo caiu na boca do povo. Não é para menos: ingerimos tantos produtos que levam essa matéria-prima que somos o maior importador mundial do grão.

O que pouca gente sabe e pouco se divulga é que quando o trigo dispara, a boa e velha mandioca é convocada para dar uma mãozinha. Os moinhos usam amido/fécula de mandioca para dar uma "malhada" na farinha de trigo. Com isso reduzem o prejuízo com a elevação dos custos.

É bom dizer que não se trata de operação ilegal. O problema é que ninguém avisa e o consumidor está pagando caro por algo que não é somente trigo. É bom dizer também que isso sempre acontece quando o custo do trigo vai ao espaço. Foi assim em 2002, quando o dólar custava R$ 4 e as importações do trigo encareceram.

Além de não ser ilegal, a adição não altera o sabor, desde que sejam obedecidos certos limites. Segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca (ABAM), uso regular do amido de mandioca pode substituir até 10% das importações de trigo para produção de pão e até 40% dos grãos usados pelos segmentos de massas e biscoitos.

São números importantes quando se sabe, segundo a mesma associação, que o país gastou R$ 25 bilhões nos últimos 12 anos comprando trigo no exterior. Quer dizer, incentivar a mistura da mandioca na farinha de trigo ainda pode dar um refresco às nossas contas externas.

Mas, se não altera o sabor final, ajuda na balança comercial e ainda pode incentivar o plantio de mandioca (em queda nos últimos anos, assim como o consumo), por que a adição não é oficializada de uma vez por todas? Taí uma pergunta que está parada no Congresso. Em 2001, entrou por lá projeto-de-lei que regulamentava o assunto. Passou pela Câmara e travou no Senado.

Diz nota publicada no site da ABAM que foi a liderança do governo quem tirou o projeto da pauta, atendendo ao lobby de alguns moinhos. Talvez fosse a hora desse mesmo governo pedir para reincluir o projeto na pauta.

Motivos para tanto não faltam e, se precisar ouvir um especialista sobre o tema, Lula pode convocar ao Planalto um dos primeiros empresários brasileiros a simpatizar com o Partido dos Trabalhadores. Trata-se de Lawrence Pih, 65, dono do Moinho Pacífico, um dos maiores do país.

Além de ser velho conhecido de Lula, Pih tem paixão por Ferraris vermelhas e também faz parte daquele grupo que adoraria ver o presidente emplacando um terceiro mandado.

PS: Quem quiser, pode encontrar mais informações sobre a questão da mandioca e o trigo no link
http://www.abam.com.br/not.php?id=291
Alguns números aqui citados foram extraídos do texto, escrito pela jornalista Silvana Porto, que trabalha para a ABAM.

* Tatão de Souza é jornalista e escritor - canalexecutivo@uol.com.br

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