Tatão de Souza

BBB e blocos da Bahia também deveríam ter sistemas de cotas

O cantor Carlinhos Brown botou a boca no trombone contra o sistema de cordas, que caracteriza os blocos carnavalescos baianos. Quem tem dindim paga cerca de R$ 2.000 para pular protegido por "cordeiros", por até 3 dias. Usam os chamados abadás para diferenciá-los dos outros mortais.

Por conta deste "apartheid escroto", nas palavras de Brown, reproduzidas pela Folha de São Paulo do dia 27 de fevereiro, a folia paga baiana é dominada pela jovem classe média urbana do centro-sul e por turistas desavisados, que querem conhecer o "autêntico" Carnaval brasileiro.

Ora, de autêntico o Carnaval da Bahia não tem mais nada. Para começar o som que domina a folia por lá é composto por uma colcha de retalhos, que inclui forte influência pernambucana, via frevo e maractu, pitadas de suingue caribenho, e mais recentemente voltou-se aos batuques da mama África, da qual Brown é um dos representantes.

Por falar em tradição, outro dia assisti reportagem na televisão na qual se exaltava a tradição de um grupo de afoxé baiano, cujo nome não me lembro mais. Dizia que o bloco "tem 26 anos". Já o Filhos de Ghandi, um dos mais antigos e tradicionais, foi fundado em 1949.

Só para comparar, o maracatu Leão Coroado de Recife exibe no estandarte a data de 1863 como de sua fundação, havendo quem diga que é ainda mais antigo.

O fato é que a alegria dos famosos blocos da Bahia tem preço, mas não tem tradição. Eles também não são exemplo da mistura racial do país, vista apenas entre aqueles pagos para sustentar a corda que deixa de fora os sem-abadá.

Na visão de meu neto Daniel, ao assistir na TV sequência de reportagens sobre a folia em Recife e em Salvador, as pessoas da primeira cidade parecem ser mais "normais". Entenda-se por isso, gente igual àquela que cruzamos nas ruas todos os dias. No segundo caso, há predomínio de jovens endinheirados, doidos para acasalar.

Algo parecido ocorreu na escolha dos integrantes do Big Brother Brasil 6. Dos 14 participantes da maratona de não se fazer nada de útil, a não ser se exibir, apenas 2 parecem pessoas "normais". Os demais são estereótipos. É curioso que mesmo assim, as outras pessoas do lado de cá da telinha ainda se dêem ao trabalho de assistir tamanha armação.

O governo, cioso que está em instituir cotas nas universidades, deveria atentar para essa falta de democracia racial e social. Por isso, aqui proponho a criação de cotas também para os blocos pagos da Bahia e para os próximos BBB.

No caso dos blocos, um sistema parecido com o ProUni, que paga universidade privada com base na nota do Enem, garantiria a compra do custoso abadá. No caso do programa global, uma comissão de intelectuais faria a seleção de alguns participantes do programa.

Graças à disseminação do sistema de cotas, no futuro teremos um país mais unido e justo.

* Tatão de Souza é jornalista e escritor - canalexecutivo@uol.com.br

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