Bolsa-justiça reduziria a população carcerária

27-03-2009

É lugar comum ouvir que a Justiça brasileira é cega, surda, muda e manca. Mas ela também é cara, muito cara. Desta forma, só quem tem dinheiro ou poder assiste a "justiça sendo feita".

Veja só: a Polícia Federal ficou craque em tascar nome exdrúxulo em suas operações mirabolantes. Ficou craque também em prender uns "poderosos". Mas aí o que que acontece? Como a maioria desse povo tem poupança, contratam caros e eficientes profissionais do Direito para livrá-los da Casa dos Mortos (vai aqui uma referência ao escritor russo Dostoievskis). (Outro parênteses: Se a PF é tão eficiente, por que não descobre quem juntou quase R$ 1,8 milhão para comprar o falso dossiê contra tucanos em 2006?)

Outro exemplo do poder da poupança: lembra do ex-jornalista que matou a ex-namorada com tiro pelas costas? Pois é, está solto desde 2001, por conta da eficiência procrastinatória de seus advogados. Em 2010, por causa de sua idade e da matemática jurídica nacional, o crime pode prescrever. Tem gente do meio dizendo que, no máximo, ele passa três anos na cadeia, se isso acontecer, apesar da pena ter sido fixada em 15 anos.

Esta semana, ganhou manchetes o caso do ex-jogador de futebol que teria matado a facadas a ex-mulher e fugiu com o filho pequeno. Trata-se de outro caso de violência contra a mulher, cuja penalidade a ser fixada pela Justiça (já reparou que casos assim são logo julgados, quando em muitos outros a pessoa sai da cadeia porque venceu o prazo para aguardar o julgamento atrás das grades?) e sua efetiva aplicação dependerá do poder pecuniário do acusado.

Ao mesmo tempo, dezenas, centenas de pessoas são presas e esquecidas no sistema prisional porque lhes falta o poder da poupança. Isso não pode continuar, num país que está evoluindo em tantas áreas, inclusive na divisão da população em cotas raciais.

Por isso, urge a criação do Bolsa-justiça, cuja idéia geral repasso gratuitamente ao governo federal e às altas esferas. Como em outros programas assistenciais, ele seria distribuído em formato de cartão magnético. Terão direito todos os realmente pobres (claro que vão ocorrer desvios, mas isso pode ser fiscalizado, se quiserem).

O cartão só cobriria despesas envolvendo a justiça, tais como a contratação de eficientes advogados, laudos médicos provando que o réu não tem condições de suportar as condições carcerárias, ou viagens à Brasilia para recorrer ao Supremo.

A conta será coberta pelos cofres públicos. Mas sairá barato, afinal a população carcerária vai ser reduzida de forma dramática. Imagine a economia? Por falar nisso, também repasso de graça o slogan publicitário que pode ser usado para divulgar este novo benefício: Bolsa-Justiça - Pobre, não saia da linha sem ele!

OBS: reparem no que vai acontecer, ou está acontecendo, com os executivos da construtora gigante e do shopping de luxo, presos esta semana em São Paulo.

* Tatão de Souza é jornalista e escritor - canalexecutivo@uol.com.br

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