18-01-2008
No apagar das luzes

NO APAGAR DAS LUZES

O Governo diz que não há o menor risco de apagão.
O bom senso manda ir comprando velas, lamparinas e outros artefatos que não dependam da energia elétrica para brilhar no escuro. Porque, muito em breve, teremos novamente situações assim em nossas plagas.
Prepare-mo-nos.

…EM CASA

- Pode vir, Noeli, vem…

- Vem como? Com esse armário na minha frente…

- Não é armário. É teu pai que também tá perdido. Seu Alfredo? Seu Alfredo? Dormiu de novo. Faz o seguinte: passa pela direita dele e depois segue em frente.

- Direita? Mas se eu tô confundindo meu pai com um armário, como é que eu vou saber o que é direita, o que é esquerda, o que é centro, Rosalvo.

- Tenta dar um pulinho.

- O pai tá dormindo de pé, se eu pular derrubo a canja.

- Então respira fundo, escolhe um lado e anda, mulher.

- Tá, Rosalvo, já vai.

- Vem devagarzinho, um pé, depois o outro, lembra que tem o aparador no meio…

- …

- Noeli? Tá vindo?

- …

- Que barulho é esse, Noeli?

- É o pai.

- O pai o quê?

- O pai pegou a canja.

…NO ESCRITÓRIO

- Dona Estela?

- Sim?

- A senhora está em sua mesa?

- Estou, doutor Jordão.

- Poderia me fazer um favor?

- Claro, doutor Jordão.

- A senhora sabe aquela máquina copiadora nova que o doutor Azambuja mandou instalar no corredor?

- Sei, doutor Jordão.

- A senhora poderia tentar juntar o pessoal do Almoxarifado, do RH e dos Serviços Gerais e pedir pra eles virem até a máquina?

- Mas nessa escuridão, doutor?

- É urgente, dona Estela.

- Aconteceu alguma coisa?

- Aconteceu.

- O que foi, doutor Jordão, o senhor está bem?

- A copiadora está em cima de mim e do Cintra, do Jurídico. O Cintra não está falando mais nada, só está respirando fundo e rezando baixinho.

- Mas como é que essa copiadora foi parar em cima dos senhores, doutor?

- O Cintra confundiu a copiadora com aquela máquina da Karine, a cavalona do Arquivo. Quando apagou a luz, ele agarrou a cintura dela e puxou. Mas era a Xerox, entende?
- E agora, doutor Jordão, o que é que eu faço nesse escuro?

- Conta uma história.

- Como, doutor Jordão? O senhor acha que eu…

- Conta uma história pra mim, dona Estela, EU ESTOU MANDANDO!

- Era uma vez um cipreste centenário numa floresta cheia de bichos e duendes, um caçador…

…NO DENTISTA

- Isso. Vire a cabeça aonde tem aquela nesguinha de luz entrando, por favor. Isso.

- Hã.

- Agora eu vou só passar o raspador na gengi…

- HÃ! HÃ!

- Doeu?

- HÃÃÃ!!

- É que eu não estou vendo direito. Acabou a pilha da lanterninha. Mas acho que dá pra terminar o serviço. É rapidinho. Vamos só tentar de novo, aqui pelo lado.
- HÃ!

- Opa, acho que enfiei no nervo, desculpa. Só mais uma pontadinha e…

- HÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃ!!!!!

…NA CAMA

- Sabe de uma coisa. Nunca é tarde pra gente descobrir que o amor - me refiro ao amor físico - pode ser sublime, espiritual. Apesar do lado material dele: carne, osso, músculo, sabe?

- Hum, hum.

- O que a gente acabou de fazer aqui é a prova dos nove.

- É.

- Você também teve a mesma impressão que eu?

- Tive.

- Foi bom?

- Foi.

- Sei lá, te pergunto por que, às vezes, sou romântica demais. E ter feito assim, no breu, foi sublime e inédito. Sem lâmpadas, abajures, candelabros. Essência com essência. Alma com alma…

- Hum, hum.

- Não queria estragar um momento tão belo assim sendo melosa, Ênio.

- Ênio?

- Ênio, é claro, meu amor.

- Mas meu nome é Zeco. Vim trocar um soquete aqui no quarto, deu o apagão e…

- Zeco?

- Zeco, sim senhora.

- Muito prazer, Zeco.

- O prazer foi meu, dona.

 
 
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