08-02-2008
Habite-se uma coisa dessas

O setor de apartamentos novos anda tão aquecido que não faz mais lançamentos, faz decolagens imobiliárias. A todo instante aparece, do nada, um empreendimento. Sempre, é óbvio, com nomes poético-cafona-pretensiosos. Pode ser a vertente neoclássica (Portais do Deus Priapo), a mediterrânea (Torres Del Aceto Balsamico di Modena) ou a indefectível linha indígeno-natural (Ocas de Morassuaba Residencial Inn). Todas tendo em comum o desacordo entre o que o nome promete e o que o condomínio entrega.

O último folheto que recebi me chamou especial atenção. Informava sobre um grande projeto (breve lançamento e tal) com vários prédios levando o nome de canções de Tom Jobim.

O que chegou às minhas mãos, se não me falha a memória, mostrava, com riqueza de detalhes, o “Águas de Março”. Ao bater os olhos na peça, já imaginei uma chamada infame: “é pau, é pedra, estamos trabalhando noite e dia para entregar seu apartamento novo”. Contudo, a inferência seguinte foi ainda pior: e se a moda de batizar grandes residenciais urbanos com ícones da MPB pegasse, o que aconteceria?
Que tal em seu bairro um “Zeca Pagodinho Town Houses” com seu exclusivo “Espaço Breja” (onde você recebe confortavelmente seus chegados para derrubar uma gelada), com o inédito “Mijodrom Xerém” (sanitários coletivos para até cem bambas se aliviarem como se estivessem ao pé de uma jaqueira) ou mesmo com quadras de samba em lugar de poliesportivas?
Do jeito que o consumidor padrão “compro de uma vez e pago em duzentas e quarenta” anda ávido por novidades, é bem capaz de prestigiar iniciativas assim.

Com certeza transformaria em “megahit” de vendas o “The Carioca Funk Hills”, um (possível) ousado projeto de favelas verticais saído da prancheta de Oscar Niemeyer e executado pelo mestre-de-obras do DJ Marlboro.

As torres, que remeteriam a sucessos do autêntico funk de raiz – Cachorra’s Life Style Tower etc. –, dariam todas para uma imensa praça (Parapapapapa Open Space Plaza), onde o lazer se daria em grande estilo. Inclusive com pistas de skate ferroviário e estandes de tiro ao PM.

Viáveis os empreendimentos seriam. Só ficaria faltando a municipalidade liberar o “habite-se”. Mas, como não teria nada a ver com outdoor, cigarro ou garupa de motoboy, é até capaz de obterem a liberação.

 
 
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